Espectro

Ela não queria nada muito além do que um espectro.
Um simples espectro já seria capaz de enganar sua adoração aflorada, já seria capaz de embriagar-lhe os sentidos e camuflar, em partes, a dependência insanamente cruel à que ela estava destinada em se tratando dele.
Seria impossível sobreviver se não houvesse pelo menos um espectro.
Quem sabe assim, as horas passariam mais devagar e seus dias teriam um sentido menos lógico do começo ao fim: nada mais seria mecânico.
Os impulsos eram imediatos, queria ligar, queria falar, queria mostrar e sentir o tempo todo, nunca estava contente com o que já possuía e suas pretensões eram infinitas.
Seria-lhe mais adequado deitar-se e morrer do que continuar vivendo daquela maneira tão pungente e limitada.
O espectro seria o ideal. Poderia então colocá-lo e mesmo carregá-lo por todas as partes e lugares por onde fosse.
Deus! Será que era pedir demais?
Não era questão de um capricho, era um necessidade. Fora mal acostumada desde o início e agora não sabia o que fazer, o que pensar ou como agir.
Não poderia simplesmente pedir, poderia?
- Querido, por favor, dai-me um dedo de tua mão, já tens cinco! Aposto que um apenas não lhe fará falta...
Soaria demasiadamente obsceno aquilo tudo.
Não era um jogo de culpa ou glória, era simplesmente uma infernal situação, onde todo o tempo ela se via longe da única coisa da qual desejava estar perto, sendo que, o resto mundo insistia em sufocá-la.
Tudo sempre acaba estando errado. Ninguém sabe se posicionar devidamente? Trata-se de algo tão linear quanto sentar-se a mesa na hora do jantar, a ordem das cadeiras é um fato, para não dizer um hábito. Você não pensa, simplesmente se acomoda como bem entender. A não ser é claro, quando há a presença de visitas. Visitas são sempre um problema, causam uma desordem natural das coisas, é inevitável.
Uma vez que uma visita se apresenta, temos o final do que é tido como espontâneo (algumas delas, é claro) principalmente quando são parentas próximas, daquelas barulhentas com grandes colares e risos frenéticos.
Detestava as visitas, como detestava a companhia de todas as pessoas do mundo inteiro. Um bando de fúteis ignorantes. Uma corja de desocupados sem argumentos. Podres. Todos eram maçãs podres em sua cesta, e seu único objetivo era manter-se sã enquanto aguardava por algo que não sabia bem o quê.
Era ele. Agora tinha certeza. Agora tinha encontrado. Por isso o espectro. Por isso o dedo. Por isso todas as coisas mal explicadas.
Nada mais precisava ser teoria, a vida seguiria na prática e isso era lindo.
Seu juízo de todo o resto era diferenciado, era menos benevolente ao mesmo tempo que mais simplório. Ele, relativamente ele e só ele.
Naturalmente era isso.
Ela não queria nada muito além do que um espectro.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Introspecção

Conciliações

Carta de mil anos