Clandestinas

Hoje, voltando pra casa, fiquei um tempão pensando naquele tempo.
No tempo das grandes descobertas e mutações.
No tempo em que tudo era intenso, irreversível, efêmero.
Quando, em noites como esta ou qualquer outra, íamos sem medo ou receio, pra qualquer lugar, pra todos os lugares (e sem dinheiro também!).

Se eu dissesse: "Quero conhecer a Lua!" você dava um jeito de conseguir uma passagem.
Se você dissesse, quero pintar o céu de amarelo, eu roubava o maior pincel que encontrasse.
E assim a gente ia.
Nos tortos e direitos de nossa vida adolescente, sem hora marcada pra sair, sem dia certo pra voltar. Íamos intensas e glamorosas...
Muitas vezes sem trocar de roupa!
Éramos as verdadeiras estrelas no abismo do espaço.

Fiquei pensando em quantas vezes fizemos tudo com uma discrição de gângsteres, mais sutis que matadoras de aluguel... E todas as vezes que causamos o furor de parar o mundo, nem que fosse por um milésimo de segundo.
Quando descemos aquele tapete vermelho, vaporosas, sorridentes e extremamente ansiosas, transpirando um ar de pouco caso, da segurança que, se algum dia tivemos, foi simplesmente em função do nosso ego, nada mais.
A realidade era um detalhe que gostávamos de travestir, e a nossa melancolia funcionava como um jato propulsor de nossos sonhos.
Tudo era tão maravilhoso!

Fomos tão brutalmente egoístas e maquiavélicas que havia uma necessidade fora do comum em criar um universo particular, onde éramos nós e éramos tudo e éramos nada e éramos ninguém e éramos todos... Todas as vezes!

Tínhamos as mesmas precipitações, as mesmas angústias, a mesma euforia, os mesmos tons.
O riso era profano e poético enquanto que as divagações, por mais sombrias que fossem, funcionavam como profecias de nossos destinos inventados.

Pensei naquela viagem que fizemos, enrustidas em nossa simplicidade (estranhas num paraíso) e não deixamos nenhum momento a desejar, fizemos o pacote completo.
Bem como as outras viagens que fizemos, algumas longas, ou curtas demais, outras que pareciam não ter mais fim e aquelas que já sentíamos saudade antes mesmo de começarem.
Quando éramos três Guadalupes em colchões no chão, montes de cobertores, luz de velas e dias de não-banho.
Coisas assim.

Hoje é um dia 11.
Dias 11 sempre acabam sendo nostálgicos, a velha somatória do seu 4 com meu 7 e assim por diante... A criação dos 'novos-mundos'.
Quantos anos se passaram naquele dia?
Quantos tormentos abandonamos, quantas máscaras despimos e quantas lendas desfiguramos?
Acredito que naquela época eu sabia, hoje já não sei dizer... Esqueci de anotar.

Ditávamos a moda enquanto dela fugíamos.
Só que hoje não precisamos mais daquilo tudo.
Não precisamos mais de tantos chapéus, tantas fotos, tantos olhares ou números de telefones...
Não mudamos muito desde então, só não precisamos mais mostrar ao mundo as meninas-mulheres que éramos, o mundo já está careca de ver as mulheres-meninas que somos hoje.

Sinto saudade daquela necessidade de inconstância que possuíamos...
Atualmente, eu já não teria tanto pique para viver assim, acredito que você também não.
Envelhecemos nas poucas horas que transcorreram desde então e assim vamos seguindo.
As pessoas e as coisas continuam as mesmas, porém, nossos focos estão deslocados, isso é muito adulto, bem mais adulto do que eu imaginei um dia ser.

Apesar de tudo, ainda temos o nosso barco do tempo pra escapar quando der na telha...
Só que as roupas de pirata estão ficando um pouco curtas e apertadas demais.
Espero que nunca chegue o dia em que elas deixem de nos servir.

Sou sempre sua maior seguidora, devota, amiga, clandestina,


sempre.

Comentários

Daniel Camatta disse…
You have a problens? Rs... Lindo texto, ultimamente tenho sentido o mesmo.. É dificil, chato, mas faz parte...Beijos.

Postagens mais visitadas deste blog

Introspecção

Conciliações

Carta de mil anos