Pequena Laura
Já fazia muito tempo que ela chorava assim, tão de repente.
Desde que tudo aquilo tivera início, alguns anos antes ela já sabia em que buraco estava se metendo.
Buraco? Talvez esse não fosse o melhor termo, mas foi o primeiro que lhe veio em mente.
É muito complicado viver nesse mundo de gigantes quando não se tem muito mais de um metro e sessenta.
As coisas costumam tomar rumos que nos fogem o controle algumas vezes, isso em todos os sentidos da vida. O problema com Laura é que ela nunca tivera controle nem sobre a própria respiração, agora então, sentia-se completamente desamparada.
Não saberia descrever se era tristeza ou algum vestígio de orgulho ferido. Ela gostava de acreditar que era arrependimento, mas no fundo sabia que não era.
Sim, admitia que muitas vezes sentira-se tremendamente traída consigo mesma por ter decidido ficar quando teve a oportunidade de partir, mas ela sabia que não trocaria tudo o que tinha construído, tudo o que ruíra e tudo o que vinha ainda acontecendo pela incerteza do novo e do inesperado, apesar de ser bem típico de sua personalidade.
O que acontecia com Laura era que sua vida que antes fora um universo de expectativas, sons mirabolantes e efeitos visuais multicoloridos agora entoava um marasmo que parecia não ter fim, uma escolha feita por ela mesma.
Talvez fosse de certo um rancorzinho acinzentado que lhe apertava o peito, quando temperado com saudade e um pouquinho de melancolia, resultava naquele pranto repentino.
Ela tinha consciência de todos os erros e falhas que cometera e não admitira, não por falta de humildade, mas por lentidão em processá-los, em identificá-los logo de cara. Agora, já era um pouco tarde.
Laura era risonha, festeira, piadista e bem humorada, um pouco lasciva e venenosa, azeda por assim dizer, mas de toda forma muito doce e gentil. Laura representava uma fortaleza em relação à opinião alheia, era marcante, histérica, memorável e parecia entender tudo e todos.
Era enérgica em seus comentários e cautelosa em determinadas situações. Pecava pelo exagero, mas estava sempre tentando se redimir de alguma forma, com algum gesto ou alguma preocupação desnecessária.
Não era uma mulher feia, e nem podia dizer-se tão bonita, o que transformava Laura num projeto admirável de ser humano era que tinha tudo isso já descrito (e muito mais) elevado na quarta potência e ainda assim dotados de uma espontaneidade que não existe mais nas pessoas de hoje em dia.
O que ninguém sabia, ninguém, nem o amigo mais íntimo, mais próximo e mais verdadeiro de Laura, era que no fundo, bem lá no fundo mesmo, naquele lugarzinho perto da Alma, Laura era triste e solitária.
Ela se sentia inferior a tantas coisas e tanta gente que se um dia ela contasse ao mundo, o mundo acabaria em milhões de gargalhadas. Ela se sentia insegura em muitas situações mas nunca deixara transparecer, nunca.
Ela se via sozinha no mundo, pequena e perdida, como um pássaro que nascera sem asas ou um peixe que não possuía guelras: meio fora do seu meio, sabe?
E ainda por cima, Laura fingia não saber por que é que se sentia assim desde sempre e sempre pensara não saber por quê.
Laura achava bonito ser triste, achava bonito esconder um segredo dilacerante do mundo e sofrer vagarosa e silenciosamente, sofrer em metáforas.
Laura era quase um devaneio de Clarice Lispector.
Na verdade, a personalidade marcante de Laura só se fazia existir em função dessa infelicidade oculta, que a devorava dia após dia numa luta incessante dentro dela mesma pra apagar e acender o brilho que na verdade, nem existia, era só poesia e divagação.
Desde que tudo aquilo tivera início, alguns anos antes ela já sabia em que buraco estava se metendo.
Buraco? Talvez esse não fosse o melhor termo, mas foi o primeiro que lhe veio em mente.
É muito complicado viver nesse mundo de gigantes quando não se tem muito mais de um metro e sessenta.
As coisas costumam tomar rumos que nos fogem o controle algumas vezes, isso em todos os sentidos da vida. O problema com Laura é que ela nunca tivera controle nem sobre a própria respiração, agora então, sentia-se completamente desamparada.
Não saberia descrever se era tristeza ou algum vestígio de orgulho ferido. Ela gostava de acreditar que era arrependimento, mas no fundo sabia que não era.
Sim, admitia que muitas vezes sentira-se tremendamente traída consigo mesma por ter decidido ficar quando teve a oportunidade de partir, mas ela sabia que não trocaria tudo o que tinha construído, tudo o que ruíra e tudo o que vinha ainda acontecendo pela incerteza do novo e do inesperado, apesar de ser bem típico de sua personalidade.
O que acontecia com Laura era que sua vida que antes fora um universo de expectativas, sons mirabolantes e efeitos visuais multicoloridos agora entoava um marasmo que parecia não ter fim, uma escolha feita por ela mesma.
Talvez fosse de certo um rancorzinho acinzentado que lhe apertava o peito, quando temperado com saudade e um pouquinho de melancolia, resultava naquele pranto repentino.
Ela tinha consciência de todos os erros e falhas que cometera e não admitira, não por falta de humildade, mas por lentidão em processá-los, em identificá-los logo de cara. Agora, já era um pouco tarde.
Laura era risonha, festeira, piadista e bem humorada, um pouco lasciva e venenosa, azeda por assim dizer, mas de toda forma muito doce e gentil. Laura representava uma fortaleza em relação à opinião alheia, era marcante, histérica, memorável e parecia entender tudo e todos.
Era enérgica em seus comentários e cautelosa em determinadas situações. Pecava pelo exagero, mas estava sempre tentando se redimir de alguma forma, com algum gesto ou alguma preocupação desnecessária.
Não era uma mulher feia, e nem podia dizer-se tão bonita, o que transformava Laura num projeto admirável de ser humano era que tinha tudo isso já descrito (e muito mais) elevado na quarta potência e ainda assim dotados de uma espontaneidade que não existe mais nas pessoas de hoje em dia.
O que ninguém sabia, ninguém, nem o amigo mais íntimo, mais próximo e mais verdadeiro de Laura, era que no fundo, bem lá no fundo mesmo, naquele lugarzinho perto da Alma, Laura era triste e solitária.
Ela se sentia inferior a tantas coisas e tanta gente que se um dia ela contasse ao mundo, o mundo acabaria em milhões de gargalhadas. Ela se sentia insegura em muitas situações mas nunca deixara transparecer, nunca.
Ela se via sozinha no mundo, pequena e perdida, como um pássaro que nascera sem asas ou um peixe que não possuía guelras: meio fora do seu meio, sabe?
E ainda por cima, Laura fingia não saber por que é que se sentia assim desde sempre e sempre pensara não saber por quê.
Laura achava bonito ser triste, achava bonito esconder um segredo dilacerante do mundo e sofrer vagarosa e silenciosamente, sofrer em metáforas.
Laura era quase um devaneio de Clarice Lispector.
Na verdade, a personalidade marcante de Laura só se fazia existir em função dessa infelicidade oculta, que a devorava dia após dia numa luta incessante dentro dela mesma pra apagar e acender o brilho que na verdade, nem existia, era só poesia e divagação.
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