Quando eu era menino (parte I)

Ainda lembro com certa saudade dos passos firmes de meu pai no velho e barulhento assoalho da casa. Lembro de minha mãe em suas saias de cetim estendendo os lençóis no varal num dia quente de verão.
Lembro dos cães deitados no gramado bem cuidado do jardim enquanto o dia morria num fim de tarde ensolarado.
Mesmo que fosse grande e vazio, o velho casarão onde morávamos parecia aconchegante e familiar, à mim e meu irmão Heitor. Podíamos correr pelos corredores do segundo andar contanto que não sujássemos os tapetes que mamãe lavava com tanta resignação, por isso, brincávamos descalços.
Mamãe era jovem e linda. Das vagas lembranças que me surgem, estava sempre em silencio, trabalhando e cuidando daquela casa imensa. Na verdade, não me recordo muito de sua voz, ela parecia estar sempre calada, até mesmo quando ria. A não ser é claro quando ela cantava. Nem um anjo seria capaz de cantar como minha mãe cantava.
Os seus lábios pareciam beijar cada palavra que por eles era pronunciada e seus olhos ficavam como que iluminados quando a música embalava seu corpo e sua voz...
Ah! A sua voz! Mamãe tinha a voz mais suave e mais doce de todo o universo enquanto cantava. Era realmente uma pena que ficava tanto tempo em silencio.
Lembro-me de subir as escadas sem os sapatos de verniz, para não fazer barulho e encostar o ouvido na porta enquanto mamãe se preparava para tomar banho. Enquanto a banheira enchia d'água ela costumava entoar canções em outras línguas, algumas bonitas, outras tristes, em sua maioria bonitas e tristes: ao mesmo tempo.
E essa é a imagem que guardo de minha mãe: bonita, mas triste.
Contudo, sua tristeza era muito sutil para ser distinguida por olhos menos apurados, eu nunca sequer a vi chorar... Só uma vez percebi lágrimas escorrerem de seus olhos enquanto papai tocava para nós depois do jantar.
Papai era músico. Não sei dizer se fora um grande músico, um músico medíocre ou apenas um músico, não tenho tantas lembranças assim.
Quase todas as noites, tirando os domingos (nunca aos domingos!), ele tocava para nós após jantarmos e se bem me lembro, mesmo ainda muito pequenos, eu e Heitor gostávamos de estar ali.
Papai tocava cello. Levei muitos anos para conseguir me lembrar disso e ainda não sei se eu realmente gostaria de ter me lembrado, as coisas parecem ficar mais difícil quando temos os detalhes.
Lembro-me dos uivos graves da música de papai, sua melodia me lembrava um pranto forte mas suave, de algo grande e distante. Lembro de seus dedos percorrendo o braço do instrumento, pressionando as cordas, movimentando o arco... E aquela seqüência de ações ressoava em melodias que pareciam contar histórias ou se transformarem em sonhos quando atingiam os nossos ouvidos.
Numa dessas noites meu pai tocou uma música diferente: bonita, mas triste.
Se bem me recordo, mamãe que guardava a louça na cozinha, deixou quebrar um prato quando o som do cello de papai insuflou pelos cômodos do casarão. Quando corri em seu socorro, estaquei ao ver minha mãe sentada no chão, entre todos aqueles cacos brancos de porcelana, com finas lágrimas a escorrer dos olhos.
O que eu senti naquele momento foi assim, inexplicável. A visão de minha mãe ali, tão boa, linda e jovem com as lágrimas a arranharem o rosto foi para mim, como se um raio atingisse meu corpo e esse, dissolvesse em fino pó.
Imediatamente procurei algo para fazê-la sentir-se melhor, disse-lhe que se quisesse eu poderia dar um jeito de colar o prato novamente, iria no outro dia logo cedo com Heitor até a vila, pois sabíamos onde vendia uma cola muito especial num armazém.
Ela então, nada disse, apenas sorriu um sorriso pálido e me abraçou num abraço forte e longo que pareceu durar muitos anos. Ás vezes eu ainda posso sentir esse abraço.
Ficamos ali abraçados, minha mãezinha a chorar, papai tocando na sala e eu sem compreender o que verdadeiramente estava acontecendo.
Só muitos anos depois, quando eu já era um homem e já não corria mais descalço pelos corredores é que fui entender que os cacos capazes de arrancarem lágrimas de uma mulher são muito diferentes de cacos de porcelana caídos ao chão.

Comentários

Fatima disse…
Magnifico, até chorei...
maybe disse…
I'm appreciate your writing skill.Please keep on working hard.^^

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