Horizontes clandestinos
Quantas noites mal dormidas, Alice tivera desde então.
Era como se, a qualquer instante, veria surgir no horizonte a silhueta daquelas compridas velas ou a bandeira Jolly Roger estampada.
Histórias de pirataria existem em todos os livros, porém viver uma era completamente diferente de tudo o que se pode ler sobre o assunto. A sensação de fazer parte de um submundo marítimo, exerce muito mais estranheza do que fascínio.
O misto de expectativa e de pavor está sempre presente. Alice caminhava afoita pela cidade, como se cada rosto, cada olhar ali a condenasse, como se desenterrassem seu passado com sopros de hipocrisia e assim, julgassem-na injustamente por aquilo que ela fez e também deixou de fazer. Agora entendia porque Lockery dissera: "Uma vez pirata, para sempre pirata."
Já não vivia em um navio, não acatava ordens ou comandos nem participava de pilhagens ou visitava horizontes clandestinos, porém era uma pirata nata e não havia o que fazer para destituir isso de seu passado, sua maior vergonha era não se envergonhar da situação, nem um pouco.
Um frio percorria a espinha quando vinha a saber de qualquer enforcamento realizado pela confraria ou então de qualquer saque na região... Na maioria das vezes, alegrava-se em ouvir dizer que as autoridades não puderam conter a pirataria nos mares do Caribe pois no fundo, sabia que era uma questão de tempo até que tudo chegasse ao fim.
Não desejava outra coisa senão estar de volta ao mar, porém não existia algo que mais temia.
Era assim, uma vida de contradições que levava dentro de si, contradições emocionais e temporais e não havia muito o que fazer senão esconder. Era fácil esconder tudo por baixo dos ricos vestidos que Victor lhe proporcionava, principalmente com um diamante no pescoço e aquele par de olhos amendoados.
Foi numa tarde fagueira que aconteceu. Victor não estava na região, tivera de fazer uma viagem à Berlim para tratar dos negócios do pai, Alice ficara acompanhada de Eliza, sua dama de companhia e o filho Philipe.
Costumava caminhar até a praia no final do dia, para que Philipe recolhesse algumas conchas e permitir que o mar lavasse-lhe os pés descalços. Não era difícil afastar-se dos criados de Victor, sempre a vigia-la, posto que conhecia aquela região como a palma de sua mão.
Sentada sobre um rochedo, o vento gélido do solstício de outono, emaranhava-lhe os cabelos enquanto que seu olhar estava mergulhado na imensidão do horizonte e o coração em antigas memórias.
Os pés ardiam nas ondas espumantes e salgadas que atingiam o rochedo. Nunca desejou com tanta força que ele aparecesse.
Porque agira dessa maneira? Porque fora condenada a sofrer com a eterna angustia de que talvez, em função de uma conotação erronea fosse mal interpretada. Foram palavras ao vento que dissera, sabia, mas até o vento é capaz de sobrecarregar os sentimentos.
Fazia dois anos que dissera a Oliver que desaparecesse... Dois anos que jurara arrancar de dentro de si toda a imagem e presença que ele possuía. Dois anos desde a ultima vez que o vira.
Dissera-lhe. Dissera-lhe com todas as forças que o amava, que o amava loucamente e suplicara para que desaparecesse, abandonasse, nunca mais ousasse interferir em seu caminho.
Porque o fizera? Por um único motivo: egoísmo.
Fora egóísta ao optar por um caminho sem sofrimentos, sabia disso e viveria com esse tormento em sua alma, em seus pensamentos, nas noites mal dormidas e naqueles minutos em que nos pegamos pensativos e distantes, rememorando fatos e acasos de um passado que parece ser distante, obliquo, turvo, mas que na realidade, vive e revive dentro de nós, todo o tempo.
Suspirou longamente e observou aquele que era a imagem viva do pai, a cópia contrafeita daquele amor fatigado, aquele amor extenuante que morreria dentro dela sem perder a força, o poder e a existencia.
Passou os dedos nos cabelos expessos do filho e com lágrimas nos olhos contemplou o horizonte infinito que parecia tão próximo, tão seu, tão familiar e ao mesmo tempo tão traiçoeiro.
Se continuasse ali por mais alguns minutos, seria capaz de imaginar as velas, as tão sonhadas e amadas velas que aguardava ansiosamente dia após dia e que nunca mais voltariam para buscá-la.
Era como se, a qualquer instante, veria surgir no horizonte a silhueta daquelas compridas velas ou a bandeira Jolly Roger estampada.
Histórias de pirataria existem em todos os livros, porém viver uma era completamente diferente de tudo o que se pode ler sobre o assunto. A sensação de fazer parte de um submundo marítimo, exerce muito mais estranheza do que fascínio.
O misto de expectativa e de pavor está sempre presente. Alice caminhava afoita pela cidade, como se cada rosto, cada olhar ali a condenasse, como se desenterrassem seu passado com sopros de hipocrisia e assim, julgassem-na injustamente por aquilo que ela fez e também deixou de fazer. Agora entendia porque Lockery dissera: "Uma vez pirata, para sempre pirata."
Já não vivia em um navio, não acatava ordens ou comandos nem participava de pilhagens ou visitava horizontes clandestinos, porém era uma pirata nata e não havia o que fazer para destituir isso de seu passado, sua maior vergonha era não se envergonhar da situação, nem um pouco.
Um frio percorria a espinha quando vinha a saber de qualquer enforcamento realizado pela confraria ou então de qualquer saque na região... Na maioria das vezes, alegrava-se em ouvir dizer que as autoridades não puderam conter a pirataria nos mares do Caribe pois no fundo, sabia que era uma questão de tempo até que tudo chegasse ao fim.
Não desejava outra coisa senão estar de volta ao mar, porém não existia algo que mais temia.
Era assim, uma vida de contradições que levava dentro de si, contradições emocionais e temporais e não havia muito o que fazer senão esconder. Era fácil esconder tudo por baixo dos ricos vestidos que Victor lhe proporcionava, principalmente com um diamante no pescoço e aquele par de olhos amendoados.
Foi numa tarde fagueira que aconteceu. Victor não estava na região, tivera de fazer uma viagem à Berlim para tratar dos negócios do pai, Alice ficara acompanhada de Eliza, sua dama de companhia e o filho Philipe.
Costumava caminhar até a praia no final do dia, para que Philipe recolhesse algumas conchas e permitir que o mar lavasse-lhe os pés descalços. Não era difícil afastar-se dos criados de Victor, sempre a vigia-la, posto que conhecia aquela região como a palma de sua mão.
Sentada sobre um rochedo, o vento gélido do solstício de outono, emaranhava-lhe os cabelos enquanto que seu olhar estava mergulhado na imensidão do horizonte e o coração em antigas memórias.
Os pés ardiam nas ondas espumantes e salgadas que atingiam o rochedo. Nunca desejou com tanta força que ele aparecesse.
Porque agira dessa maneira? Porque fora condenada a sofrer com a eterna angustia de que talvez, em função de uma conotação erronea fosse mal interpretada. Foram palavras ao vento que dissera, sabia, mas até o vento é capaz de sobrecarregar os sentimentos.
Fazia dois anos que dissera a Oliver que desaparecesse... Dois anos que jurara arrancar de dentro de si toda a imagem e presença que ele possuía. Dois anos desde a ultima vez que o vira.
Dissera-lhe. Dissera-lhe com todas as forças que o amava, que o amava loucamente e suplicara para que desaparecesse, abandonasse, nunca mais ousasse interferir em seu caminho.
Porque o fizera? Por um único motivo: egoísmo.
Fora egóísta ao optar por um caminho sem sofrimentos, sabia disso e viveria com esse tormento em sua alma, em seus pensamentos, nas noites mal dormidas e naqueles minutos em que nos pegamos pensativos e distantes, rememorando fatos e acasos de um passado que parece ser distante, obliquo, turvo, mas que na realidade, vive e revive dentro de nós, todo o tempo.
Suspirou longamente e observou aquele que era a imagem viva do pai, a cópia contrafeita daquele amor fatigado, aquele amor extenuante que morreria dentro dela sem perder a força, o poder e a existencia.
Passou os dedos nos cabelos expessos do filho e com lágrimas nos olhos contemplou o horizonte infinito que parecia tão próximo, tão seu, tão familiar e ao mesmo tempo tão traiçoeiro.
Se continuasse ali por mais alguns minutos, seria capaz de imaginar as velas, as tão sonhadas e amadas velas que aguardava ansiosamente dia após dia e que nunca mais voltariam para buscá-la.
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