Quando a voz da gente falha
Ela espreguiçou-se demoradamente sobre o estofado macio do novo sofá da sala.
Por um momento deixou que o silêncio daquele ambiente lhe trouxesse alguma coisa parecida com paz, alguma coisa diferente da solidão e da melancolia que vinha sentindo há tantos anos.
Fechou os olhos por alguns instantes e deixou-se entregar a algumas memórias, recordações felizes que eram capazes de trazer calor ao seu coração, mesmo que fosse por uma ínfima parte de segundo.
De repente, estremeceu. A sala ampla e silenciosa, de móveis novos e modernos, aparelhos tecnológicos e uma decoração de alto estilo e bom gosto talvez fosse grande demais para abrigar uma única pessoa, parecia que uma massa fria vagava por aquelas paredes e por mais quente que o dia estivesse, aquelas paredes eram sempre frias e difusas.
Apesar dos quadros nas paredes, dos pôsteres finamente escolhidos e de todo o acabamento interior que possuía naquele ambiente, era como se Laura estivesse num galpão de concreto, frio e rústico, vazio, tão vazio ao ponto de que sua respiração reverberava o espaço e ecoava por todos os lados.
Suspirou profundamente e abriu os olhos. Finas lágrimas começavam a brotar novamente e pela primeira vez, ela não as reteve.
Deixou que rolassem, uma a uma rosto abaixo, encharcando os cílios e as bochechas. As lagrimas quentes desciam pelo queixo e manchavam-lhe a roupa, escorriam pelo pescoço causando cócegas e calafrios, secavam-lhe a boca, turvando-lhe o sorriso.
Todos estavam errados. Todos eles. Tantos deles já escutara. Tantos deles mandaram-lhe livros para serem lidos, terapeutas a serem consultados, atividades a serem desenvolvidas a fim de que algum dia em algum momento nem que fosse por um instante, ela se liberta-se daquela prisão, daquela tortura interna que ela mesma estavam impondo, daquela punição da qual ela não se desligava, dos erros dos quais ela não se perdoava.
Ela se sentia pequena e insignificante, a mais insignificante das insignificâncias do mundo, da vida, dos seres humanos.
Seu coração, sua alma estavam em pedaços tão finos e tão bem destituídos que lhe parecia impossível recolhe-los e encontrar meios de torná-los existentes outra vez.
A dor que sentia era tão intensa, tão subumana que doía em lugares lá dentro que ela nem sabia que existiam.
Não importava quantos novos cortes de cabelo tivesse, quantas vezes renovaria seu guarda-roupa, quantas viagens planejasse, quantas academias novas se inscrevesse, quantas noites regadas á vinho e chocolates passaria com as amigas ou quantos porres tomasse. Simplesmente não importava.
Porque todas as vezes que se deitava ela ficava repassando cada detalhe, cada parte mínima daquele mosaico de fatos que se formava em sua mente, revivendo cada palavra ou gesto e pensando, imaginando, tentando entender aonde foi que errara.
Então, na penumbra de seus pensamentos anunciava uma auto punição, que já durava anos! Anos! E cada dia ela ansiava, esperava por uma resposta, um sinal, um final, alguma coisa qualquer que fosse para colocar fim àquele sentimento, aquela coisa tóxica e medíocre que ainda vivia dentro dela.
As lágrimas enfim cessaram e logo a luz da sala ficou mais densa, baixa, vazia, era o prenuncio da noite que outra vez levava mais um dia, mais um dia completamente sem sentido, sem script.
Um leve sobressalto acelerou seu coração quando o telefone tocou. Do outro lado da linha ficaram anonimos todos os seus pensamentos, todo o seu estado de espírito, toda a pena que sentia de si mesma. A pequena falha em sua voz, o tremular das suas expressões passaram despercebidos.
Algumas palavras apenas e o gancho.
Ela então apanhou um pequeno papel que estava ali por perto e com as mãos trêmulas escreveu alguma coisa com letra garranchosa.
Com o papel no bolso e um novo objetivo, Laura deixou a sala e desapareceu no corredor casa adentro, há quilômetros e quilômetros de si mesma.
As vezes as coisas mudam de rumo como um rio muda de curso.
Na maioria delas, é impossivel de se reconhecer, mesmo quando a voz da gente falha.
Por um momento deixou que o silêncio daquele ambiente lhe trouxesse alguma coisa parecida com paz, alguma coisa diferente da solidão e da melancolia que vinha sentindo há tantos anos.
Fechou os olhos por alguns instantes e deixou-se entregar a algumas memórias, recordações felizes que eram capazes de trazer calor ao seu coração, mesmo que fosse por uma ínfima parte de segundo.
De repente, estremeceu. A sala ampla e silenciosa, de móveis novos e modernos, aparelhos tecnológicos e uma decoração de alto estilo e bom gosto talvez fosse grande demais para abrigar uma única pessoa, parecia que uma massa fria vagava por aquelas paredes e por mais quente que o dia estivesse, aquelas paredes eram sempre frias e difusas.
Apesar dos quadros nas paredes, dos pôsteres finamente escolhidos e de todo o acabamento interior que possuía naquele ambiente, era como se Laura estivesse num galpão de concreto, frio e rústico, vazio, tão vazio ao ponto de que sua respiração reverberava o espaço e ecoava por todos os lados.
Suspirou profundamente e abriu os olhos. Finas lágrimas começavam a brotar novamente e pela primeira vez, ela não as reteve.
Deixou que rolassem, uma a uma rosto abaixo, encharcando os cílios e as bochechas. As lagrimas quentes desciam pelo queixo e manchavam-lhe a roupa, escorriam pelo pescoço causando cócegas e calafrios, secavam-lhe a boca, turvando-lhe o sorriso.
Todos estavam errados. Todos eles. Tantos deles já escutara. Tantos deles mandaram-lhe livros para serem lidos, terapeutas a serem consultados, atividades a serem desenvolvidas a fim de que algum dia em algum momento nem que fosse por um instante, ela se liberta-se daquela prisão, daquela tortura interna que ela mesma estavam impondo, daquela punição da qual ela não se desligava, dos erros dos quais ela não se perdoava.
Ela se sentia pequena e insignificante, a mais insignificante das insignificâncias do mundo, da vida, dos seres humanos.
Seu coração, sua alma estavam em pedaços tão finos e tão bem destituídos que lhe parecia impossível recolhe-los e encontrar meios de torná-los existentes outra vez.
A dor que sentia era tão intensa, tão subumana que doía em lugares lá dentro que ela nem sabia que existiam.
Não importava quantos novos cortes de cabelo tivesse, quantas vezes renovaria seu guarda-roupa, quantas viagens planejasse, quantas academias novas se inscrevesse, quantas noites regadas á vinho e chocolates passaria com as amigas ou quantos porres tomasse. Simplesmente não importava.
Porque todas as vezes que se deitava ela ficava repassando cada detalhe, cada parte mínima daquele mosaico de fatos que se formava em sua mente, revivendo cada palavra ou gesto e pensando, imaginando, tentando entender aonde foi que errara.
Então, na penumbra de seus pensamentos anunciava uma auto punição, que já durava anos! Anos! E cada dia ela ansiava, esperava por uma resposta, um sinal, um final, alguma coisa qualquer que fosse para colocar fim àquele sentimento, aquela coisa tóxica e medíocre que ainda vivia dentro dela.
As lágrimas enfim cessaram e logo a luz da sala ficou mais densa, baixa, vazia, era o prenuncio da noite que outra vez levava mais um dia, mais um dia completamente sem sentido, sem script.
Um leve sobressalto acelerou seu coração quando o telefone tocou. Do outro lado da linha ficaram anonimos todos os seus pensamentos, todo o seu estado de espírito, toda a pena que sentia de si mesma. A pequena falha em sua voz, o tremular das suas expressões passaram despercebidos.
Algumas palavras apenas e o gancho.
Ela então apanhou um pequeno papel que estava ali por perto e com as mãos trêmulas escreveu alguma coisa com letra garranchosa.
Com o papel no bolso e um novo objetivo, Laura deixou a sala e desapareceu no corredor casa adentro, há quilômetros e quilômetros de si mesma.
As vezes as coisas mudam de rumo como um rio muda de curso.
Na maioria delas, é impossivel de se reconhecer, mesmo quando a voz da gente falha.
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