Pretensão [somente] pretensão

O que aconteceu com a gente?

Ela perguntou com a voz pastosa. Ele continuou a encará-la. Silêncio. Um suspiro doloroso daqueles lábios ainda rubros de batom. Ela ainda usava os brincos da festa. O espaço de tempo entre suas ultimas palavras aumentava a cada instante, assim como a expressão de seu rosto. Não havia o que dizer. Ela virou-se de costas e foi até a varanda. Sem se importar com o que trajava, debruçou-se no peitoril e ficou a observar o mar.

Eu não sei...

Augusto disse-lhe com enorme hesitação. Ele realmente não sabia. Resposta errada.
Ou talvez não, talvez não haveria ali uma resposta certa ou uma resposta errada, haveria somente uma resposta, ou nem isso. Não era preciso, no fundo, ambos sabiam de tudo.

Mais algumas lágrimas daqueles olhos castanhos. Um momento de reflexão e foi a vez dela de encará-lo. O sol quente que a adornava na varanda fazia com que seu corpo começasse a transpirar. Os volumosos cachos que emolduravam seu rosto, agora grudavam em suas costas. Mas não se moveu. Ficou ali a fitá-lo, como se com isso se tornasse capaz de ler seus pensamentos... Seus desejos...Sua alma.
Mergulhou naqueles olhos tão diferencialmente claros. Longe de serem verdes, tampouco castanhos... Perdia-se entre o mel e o amarelado. O cabelo bagunçado que ainda carregava vestígios do que fora arrumado na noite anterior. Estava ali sentado, olhando para ela, mas sem poder vê-la. Os dedos entrelaçados. Quase que meditava. Admirava isso nele. A tranqüilidade com a qual ele conseguia se colocar, enquanto que ela quase enlouquecia.
A pele ligeiramente mais morena, não pelo sol, mas pela natureza. O físico magro. Sim sempre fora magro, mas para ela, não precisava mais nada. Desde o primeiro momento que haviam se avistado ele causara-lhe um impacto. E inconscientemente ela fizera o mesmo com ele.
Demoraram tanto a admitir. E agora ali estavam. Sem ter o que dizer. Sem saber como iria ser.
Muito tempo cultivaram uma amizade que ia além do que se pode chamar de fraterna nesse mundo. Era quase que uma dependência. Porém, se contassem a freqüência com a qual se viam, era inacreditável que algo assim poderia existir.
Passavam meses longe um do outro. Vivendo uma eterna saudade incessante. Na verdade, sobrevivendo, pois com tamanha saudade, não se vive.
Falavam-se muito menos do que gostariam e mesmo assim, jamais se distanciavam. Sofriam. Sim, sofriam, mas nunca admitiam.
Até que admitiram para si mesmos aquilo que sentiam, no momento em que a idéia de ter de ver ao outro com outra pessoa tornou-se insuportável. Mas sofreram em silêncio e nada declararam, mesmo que tudo fosse de uma forma tão explícita aos olhos do mundo que todos sabiam do que eles sentiam, apenas eles fingiam não perceber.
Até a ultima noite... A festa de formatura de um de seus grandes amigos em comum. Mais amigos dele do que dela, mas mesmo assim, fizeram questão que ela ali fosse presente. Divertiram-se muito. Sempre se divertiam. Fazia muito tempo desde que haviam se visto pela ultima vez... Cerca de quase três meses.
Ele nunca sentira com tanta força aquela atração. Nem ela.
Mas não podiam agir, era muito tarde, envolveram-se numa amizade mais do que forte. Tudo ia muito além, era uma ligação mais do que carnal, ambos admitiam.
Ela voltou de seu transe. Quando nesse momento de nostalgia, misturado ao forte calor que o sol lhe causava, começou a sentir-se mal. Olhou para baixo, desviando assim a atenção que manteve concentrada ali durante longos minutos.



[N. da A. -> Senso criativo a milhão? No no babe! Republicando... ]

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