Terceiro Reich

Duas vezes, ela pensou. Duas vezes. Mas não havia meios. Ele sabia demais, e isso era um fato. Fato que não poderia ser negado, por mais que seu coração lhe gritasse para que o fizesse. Fez as malas cuidadosamente, ocupando-se em selecionar somente o estritamente necessário. Não poderia atrair olhares suspeitos na estação. Por um momento deteve-se ali, frente ao retrato do marido, que um dia a fizera feliz. Um dia. Suspirou. Não havia alternativa, ela sabia. Era uma questão de tempo até que ele os trouxesse ali. Sim, definitivamente ele sabia demais. Pensou em dar um telefonema ou dois, mas conteve-se ao concluir que poderia acarretar em questionamentos desnecessário e assim concomitantemente em preocupação demasiada. Colocou o retrato na mala três vezes e o retirou outras três. Teria de abandonar a tudo, não poderia dar-se ao luxo de ter lembranças, por mais que fossem distantes. Andou pelo quarto um pouco apreensiva, repassando cada passo que daria ao deixar a casa. Elaborou estrategicamente boas desculpas para dar àqueles que coincidentemente encontrasse pelo caminho. Não iria falhar, nem podia. Havia muita coisa em jogo. Procurou nas gavetas da cômoda a velha lata de biscoitos onde escondera a passagem. Recolheu também todo o dinheiro que encontrou. Economia de meses, que não resultava em mais de 12 marcos e alguns pfennings. Depois pensaria nisso, a prioridade era deixar aquela casa imediatamente, antes que fosse tarde. Não estava sendo fácil. Na realidade nunca fora fácil, é claro. Mas nos dois últimos meses tudo se tornara muito mais do que um grande pesadelo infernal. Primeiramente, se dera ao fato de seu filho ter entrado para a Juventude Hitlerista. Nada mais pudera ser dito dentro de sua própria casa, sem que houvesse medo, suspeita, afinal os jovens do grupo são instigados exacerbadamente à acorrer aos seus superiores sempre que ouvirem qualquer tipo de comentário contrário ao governo alemão, mesmo que seja de seus próprios pais. E então, Fritz resolvera iniciar toda aquela caçada aos ditos opositores. Ela sabia, sabia que tudo não se passava de bodes expiatórios para propagar todo aquele terror sem questionamento. Definitivamente já teria partido muito antes, se tivesse tido qualquer oportunidade. Mas via-se presa ali. Presa àquela casa. Presa àqueles que diziam amá-la. Presa àquilo que diziam ser a pátria. Jamais se mostrou contra qualquer atitude do marido ou do filho. Jamais se mostrou inquieta ou crítica. Jamais se mostrou contra ou a favor de todo aquele alvoroço. Jamais se mostrou. Ficara ali todo o tempo sem que fosse vista, sem que fosse consultada, sem que fosse percebida. Todo o tempo. Todo. Até os dois meses anteriores, quando redigira aquela carta a Jeremiah. E então foi o inferno. Perguntas, dissimulações, suspeitas, tudo dentro de sua própria casa. Tudo pela sua própria família. A grande sorte se pudesse contar com sorte em situações como aquela, era que eram protestantes e em partes alemães, já que seu pai era de origem húngara. Talvez fora o leque que adiara essa situação. Bem, não estava em condições de analisar os fatos que decorreram até então, precisava partir. Fechou a mala convicta, e atravessou a enorme sala com o grande retrato do Führer sobre a lareira. Encarou por alguns instantes aqueles olhos turbulentos, aquela expressão de satisfação, domínio, loucura. Quase chegara à porta quando se deparou com uma farda militar sobre o sofá. O símbolo da suástica em destaque. Teria Fritz estado em casa sem que ela o percebesse? Teria ele ou Karl a visto arrumando as coisas? Um calafrio percorreu sua espinha. Seja lá o que significava aquela farda em sua sala, não ficaria ali para ver. Saiu pelos fundos discretamente, procurando ocultar o máximo possível o seu rosto por debaixo do lenço e do chapéu. Ficou divinamente grata ao constatar que começara a nevar, de modo que não encontraria muitas pessoas nas ruas.
Não tinha ainda um destino certo. Comprara passagem para Rummelsburg, mas provavelmente não pretendia ficar ali por mais de duas noites. Depois talvez iria para Lichterfelde, ou quem sabe Reinickendorf. Daria na mesma, seria uma fugitiva aonde quer que fosse. Gostaria de chegar à Hungria, mas com 12 marcos e pouco mais de 50 pfennings isso jamais lhe seria possível.
Segurou a bagagem junto ao corpo e apertou o passo ao deparar-se com dois soldados alemães em uma esquina da rua principal. Provavelmente não estavam sóbrios, já que entoavam hinos de guerra em tom altíssimo e riam desabaladamente sobre as maiores atrocidades. Era comum as pessoas andarem ébrias naqueles dias, principalmente a essa hora da noite.
Chegou à estação em menos de meia hora e então, teve a sorte do trem estar na plataforma pronto para partir. Não teria tempo de pensar em desistir. Ele sabia demais.
Foi com uma lágrima que abandonou, não só Berlim, mas toda a sua história. História essa que fora destruída por um ideal, por um ditador. Tinha contra si mesma todos os seus próprio princípios, sua própria ideologia, sua própria família. Já não os amava, já não se amava, já não amava a mais nada.
Sentou-se no primeiro lugar vago que encontrou e procurou não pensar em nada. Agora, já era muito tarde. Ele sabia demais.

Comentários

Camila M. disse…
hey
por um acaso é algum texto do Bretch?
eu vou montar uma cena de 'terror e miséria no III Reich' e estou com problemas pra achar informações sobre as cidadezinhas citadas em seu texto.
qualquer coisa,me adicione no msn:camilla_mazi@orestovcjásabe

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