Logan e Nicole

Por um instante tudo parou. Era como se um grande véu de silêncio se apropriasse de todo o espaço, de modo que, nem os ponteiros do relógio conseguiam se fazer ouvir. Ele mostrava-se assustado, quase estranho, porém, não menos afoito do que ela própria. Ambos estavam ali, somente ali e bastava. Para ela bastava. Para ele não bastaria antes que estivesse dentro dela. As mãos buscavam a exploração daquele corpo, tão pálido, ardente.
Suspiros. O fato de tudo ser tão arriscado era o que tornava cada minuto mais intenso. Nicole sentiu-se depravada, desprovida de toda, e qualquer, moralidade que pudesse ainda existir para com Beatriz. Para com ela mesma. Logan parecia não se importar, não pensar. Há tanto tempo almejara aquele momento que não seria a sua consciência que estragaria tudo. Ela entregara-se completamente ao seu domínio, isso o agradava, talvez fosse o que mais o excitava. Ter aquela mulher, tão madura e independente, em seus braços causava-lhe uma sensação de superioridade quase gratificante. Quantas vezes sofrera, ao ver-se sozinho com ela ali, naquele mesmo lugar, tão frágil e indefesa, e tivera de controlar drasticamente o impulso de tocá-la daquela maneira, de possuí-la ali, aos olhos de todos, quase sem se importar. Isso tudo durante longos anos. Talvez ele fosse um pervertido. Talvez apenas... Insensível.
O peso do corpo de Logan sobre o seu, a vivacidade daquela situação, o desejo que sentia, era quase como um choque elétrico. Na cabeça de Nicole, um misto de sentimentos e sensações confundiam-lhe os sentidos, guiavam-lhe mecanicamente. Então o remorso. O remorso de ter deixado tudo chegar até tal ponto. Remorso de tamanha fraqueza. Estava assustada. E foi então que pensou em Beatriz. Agora, mais do que nunca, começava a se importar. Beatriz e Logan eram... Irmãos. Não, não estava certo, tampouco estava sendo agradável. Afinal sabia que felicidade era o que estava longe de obter, tanto com ela, quanto com ele.
Medo. Um medo insuportável, angustiante. Retraindo-se, conseqüentemente, empurrou Logan para longe de si, mas esse em sua agitação resistiu. Vergonha, muita vergonha. Com força, Nicole colocou-se fora do alcance dele, se levantou e automaticamente começou a se vestir. Ele estava atordoado, como se houvesse acabado de acordar de um daqueles sonhos envolventes e confusos. Obteve-se então, em perguntar o que acontecera.
Nicole absteve-se em balançar a cabeça negativamente. Ainda fechando alguns botões, deixou o quarto, mas antes que pudesse cruzar o corredor que levaria à sala, ele segurou-lhe o braço. Não conseguia entender o que estava acontecendo.
Instantaneamente, vendo-se retida em tamanho constrangimento, tudo o que Nicole conseguiu fazer foi atirar-se nos braços de Logan e transferir seus desespero em lágrimas. O coração acelerado pedia por um abraço, que foi o suficiente para que ele parasse de indagar. E ali ficaram por um tempo quase indeterminado, sentados no meio daquele corredor frio e escuro, encostados na porta do banheiro, vivendo sua angústia pessoal sozinhos, sem se darem conta de que os olhos de Beatriz os estudavam sorrateiramente por entre o vão da porta.

[...]

Amanheceu silenciosa e vagarosamente. O sol tingiu de dourado as paredes da casa e refletiu-se nos vidros dos quadros emoldurados que decoravam a sala. Fotografias de Nicole e Beatriz. Tempos felizes. Logan espreguiçou-se. Uma inerente dor em seu braço esquerdo o fez despertar, fora má idéia adormecer no sofá outra vez. Aos poucos começou a lembrar-se de tudo o que acontecera na noite anterior. Era como um sonho confuso.

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