Pombos
Nicole esperou. As horas corriam no relógio enquanto se encontrava sentada em sua mesa, no prédio onde trabalhava. Desenhos espalhados, esperando para serem terminados. Não tinha vontade. Brincava com o lápis por entre os dedos e observava com uma ligeira atenção, o balanço dos arbustos que o vento fazia dançar na pequena varanda.
Olhou à volta, as mesas vazias. Estranho tudo aquilo. Estranho o fato de que preferia trabalhar sozinha numa manhã de domingo ao invés de realizar outros planos, como costumava fazer.
Durante muito tempo ficou ali, fixada em pensamentos, era uma situação confortável, o silêncio, a tranqüilidade. Era quase uma hipnose.
O telefone tocou estridentemente quebrando a atmosfera e tirando Nicole de suas reflexões num sobressalto. Atendeu ao gancho quase que imediatamente, o coração acelerado.
- Alô?
- Sim?
-Nicole... Você vai...Vai ficar por aí muito tempo?
Era Beatriz. Nicole pôde sentir o tom irritado de sua voz, irritado pelo fato de não estarem juntas naquele momento, estava contrariada, havia até uma certa frieza.
-Não sei...- Nicole mostrou-se indiferente. - Algum problema?
-Almoça aqui?
-Se tudo der certo... Eu te ligo.
- Ok.
E sem mais despedidas, colocou o telefone no gancho, sentindo uma pontada de superioridade ao fazê-lo. Normalmente nunca agia assim, não era de sua índole. Era Beatriz quem se mostrava mais conturbada em determinadas situações, Nicole simplesmente aceitava, nunca virava o jogo. Suspirou. As coisas mudam.
Levantou-se da cadeira deixando sobre a mesa o lápis que durante tanto tempo segurara sem conseguir realizar um só traço. Estava desconcertada.
Foi ao banheiro, lavou o rosto e olhou-se no espelho. Aonde iriam chegar? Não se interessava. Chegaram à um ponto onde a solicitude, a cumplicidade e o companheirismo do relacionamento havia se transformado em espinhos venenosos, num jogo de vale-tudo onde o que importava era apenas ferir o máximo possível e não deixar-se sair atingido. As memórias não passavam de sincera saudade e a esperança de longo prazo estava escassa.
Seus olhos não se encontravam mais, tampouco o calor de seus corpos. Muitas vezes ela tentara se aproximar atirara-se nos braços de Beatriz, mas esta somente recuou, o que lhe ocasionou tombos cujos hematomas ainda eram visíveis. Cansara-se.
Porém, de todas as formas ela sabia, sentia falta. Sentia falta de como tudo já fora, assim como fazem todos os seres humanos que tiveram a felicidade de viverem o ápice de suas vidas e depois de certos fatos enxergam-se distantes de qualquer coisa que se assemelhe ao que possuíam, restando apenas alguns fragmentos. É natural que haja a saudade do antes, do ontem, assim como é natural a incerteza do amanhã.
Engraçado como aquilo que diziam ser 'amor' poderia facilmente transformar-se dessa forma. Ódio? Não...Indiferença. Eis o mais trágico fim para o amor. Amor? Talvez jamais existira verdadeiro amor. Talvez tudo não passara de um jogo de domínio, atitudes egoístas, um meio de atingir uma certa superioridade interior. Talvez fosse nada mais do que a insegurança da independência, o desconforto da solidão. Talvez. De quantos 'talvez' era feita a vida? Talvez de um número menor do que era feito o 'amor'.
Nicole bocejou. Muitas horas já haviam decorrido desde que chegara, mas ainda era cedo. Uma ultima vez olhou os desenhos em sua mesa. Não os terminaria, sabia. Fechou as janelas e a varanda, trancou a porta e deixou o prédio.
Caminhou pela calçada, os olhos fotografando todos os rostos que via, todos os lugares por onde passava. O coração afogando-se em um mar de dúvidas. Sentou-se num banco de pedra, próximo ao cemitério e observou um grupo de crianças que alimentavam os pombos.
Amar talvez seja como alimentar os pombos. Exige de início muita paciência e confiança, nada pode ser forçado, nada pode ser imposto, pois assim, só acarretaria na fuga de uma das partes. Com o passar do tempo torna-se um hábito, que é compensado com gratidão. Depois então surge a dependência e não se percebe o perigo que se está criando de forma que, para um engasgo, basta um grão à mais. Torna-se uma espécie de obrigação, obrigação que consome o prazer e então aos poucos acabamos por nos afastar, cansamos. À princípio como qualquer ausência ou afastamento, há ainda uma certa procura, fica ainda alguma esperança. Mas com o abandono total da fonte, uma nova deverá ser buscada. Os pombos não morrem de fome, há sempre outras mãos para os alimentarem. Dessa forma, haveria outras pessoas para um coração amar. Outras pessoas?
Nicole riu de seu devaneio. Não era de sua natureza ter esse tipo de reflexão. Sentiu-se tornando um tanto quanto melancólica isso a desagradou.
Deixando o banco, mudou a direção de seus passos. No celular, discou o número de Beatriz.
-Não vou poder almoçar. - Concluiu e deixando desculpas respirou fundo.
Era hora de procurar outros pombos.
Olhou à volta, as mesas vazias. Estranho tudo aquilo. Estranho o fato de que preferia trabalhar sozinha numa manhã de domingo ao invés de realizar outros planos, como costumava fazer.
Durante muito tempo ficou ali, fixada em pensamentos, era uma situação confortável, o silêncio, a tranqüilidade. Era quase uma hipnose.
O telefone tocou estridentemente quebrando a atmosfera e tirando Nicole de suas reflexões num sobressalto. Atendeu ao gancho quase que imediatamente, o coração acelerado.
- Alô?
- Sim?
-Nicole... Você vai...Vai ficar por aí muito tempo?
Era Beatriz. Nicole pôde sentir o tom irritado de sua voz, irritado pelo fato de não estarem juntas naquele momento, estava contrariada, havia até uma certa frieza.
-Não sei...- Nicole mostrou-se indiferente. - Algum problema?
-Almoça aqui?
-Se tudo der certo... Eu te ligo.
- Ok.
E sem mais despedidas, colocou o telefone no gancho, sentindo uma pontada de superioridade ao fazê-lo. Normalmente nunca agia assim, não era de sua índole. Era Beatriz quem se mostrava mais conturbada em determinadas situações, Nicole simplesmente aceitava, nunca virava o jogo. Suspirou. As coisas mudam.
Levantou-se da cadeira deixando sobre a mesa o lápis que durante tanto tempo segurara sem conseguir realizar um só traço. Estava desconcertada.
Foi ao banheiro, lavou o rosto e olhou-se no espelho. Aonde iriam chegar? Não se interessava. Chegaram à um ponto onde a solicitude, a cumplicidade e o companheirismo do relacionamento havia se transformado em espinhos venenosos, num jogo de vale-tudo onde o que importava era apenas ferir o máximo possível e não deixar-se sair atingido. As memórias não passavam de sincera saudade e a esperança de longo prazo estava escassa.
Seus olhos não se encontravam mais, tampouco o calor de seus corpos. Muitas vezes ela tentara se aproximar atirara-se nos braços de Beatriz, mas esta somente recuou, o que lhe ocasionou tombos cujos hematomas ainda eram visíveis. Cansara-se.
Porém, de todas as formas ela sabia, sentia falta. Sentia falta de como tudo já fora, assim como fazem todos os seres humanos que tiveram a felicidade de viverem o ápice de suas vidas e depois de certos fatos enxergam-se distantes de qualquer coisa que se assemelhe ao que possuíam, restando apenas alguns fragmentos. É natural que haja a saudade do antes, do ontem, assim como é natural a incerteza do amanhã.
Engraçado como aquilo que diziam ser 'amor' poderia facilmente transformar-se dessa forma. Ódio? Não...Indiferença. Eis o mais trágico fim para o amor. Amor? Talvez jamais existira verdadeiro amor. Talvez tudo não passara de um jogo de domínio, atitudes egoístas, um meio de atingir uma certa superioridade interior. Talvez fosse nada mais do que a insegurança da independência, o desconforto da solidão. Talvez. De quantos 'talvez' era feita a vida? Talvez de um número menor do que era feito o 'amor'.
Nicole bocejou. Muitas horas já haviam decorrido desde que chegara, mas ainda era cedo. Uma ultima vez olhou os desenhos em sua mesa. Não os terminaria, sabia. Fechou as janelas e a varanda, trancou a porta e deixou o prédio.
Caminhou pela calçada, os olhos fotografando todos os rostos que via, todos os lugares por onde passava. O coração afogando-se em um mar de dúvidas. Sentou-se num banco de pedra, próximo ao cemitério e observou um grupo de crianças que alimentavam os pombos.
Amar talvez seja como alimentar os pombos. Exige de início muita paciência e confiança, nada pode ser forçado, nada pode ser imposto, pois assim, só acarretaria na fuga de uma das partes. Com o passar do tempo torna-se um hábito, que é compensado com gratidão. Depois então surge a dependência e não se percebe o perigo que se está criando de forma que, para um engasgo, basta um grão à mais. Torna-se uma espécie de obrigação, obrigação que consome o prazer e então aos poucos acabamos por nos afastar, cansamos. À princípio como qualquer ausência ou afastamento, há ainda uma certa procura, fica ainda alguma esperança. Mas com o abandono total da fonte, uma nova deverá ser buscada. Os pombos não morrem de fome, há sempre outras mãos para os alimentarem. Dessa forma, haveria outras pessoas para um coração amar. Outras pessoas?
Nicole riu de seu devaneio. Não era de sua natureza ter esse tipo de reflexão. Sentiu-se tornando um tanto quanto melancólica isso a desagradou.
Deixando o banco, mudou a direção de seus passos. No celular, discou o número de Beatriz.
-Não vou poder almoçar. - Concluiu e deixando desculpas respirou fundo.
Era hora de procurar outros pombos.
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