Chinelinhos de preconceito
Lá estava o boneco de plástico. Grande e brilhante. Colorido. Por detrás do vidro daquela grande vitrine no centro da cidade. A mais recente febre juvenil, não havia um só garoto que não tinha aquele boneco, ou algum similar. Nenhum, a não ser Gustavo.
Lá estava Gustavo descalço. Sujo e mirrado. Pobre. Enfrente ao vidro daquela grande vitrine no centro da cidade. O mais sutil retrato da realidade, não havia muitos como ele por ali tampouco pelos arredores. Ninguém, morava longe.
Todos os dias andava até ali, saía de casa bem cedo, ainda manhãzinha para que não tomasse muito sol durante o caminho. Chegava sempre perto da hora do almoço, quando podia ali ficar tempos e tempos observando cada detalhe, sonhando com cada acessório.
Aproximou-se aindamais da vitrine, as mãozinhas sujas tocando o vidro e deixando algumas marcas, o hálito quente turvando a visão. Um brilho no olhar. Talvez um dia poderia chegar a tocá-lo! O filho de uma das mulheres para quem sua mãe lavava a roupa tinha um boneco parecido com aquele, um versão mais simples, menos original, mas era fantástica. Uma vez ele deixara que Gustavo o segurasse, fora um dia feliz.
Ah se tivesse um boneco daquele! Brincaria tanto com ele que chegaria a cansar. E deixaria, sem dúvidas deixaria que todos os garotos lá da rua pudessem brincar com ele também. Mas... e se eles o quebrassem? Ou pior! E se tentassem roubá-lo? Isso seria horrível... Não, não deixaria que ninguém chegasse perto, nem mesmo seu irmão, já que era novo demais, poderia tentar engoli-lo ou estragar. Guardaria-o para si mesmo, para sempre. Talvez nem abriria a caixa, já que esta era tão bonita quanto o brinquedo. Se ganhasse só a caixa já ficaria contente.
A porta da loja de abriu, balançando o sininho prateado instalado no canto, para que os clientes que ali entrassem fossem anunciados. De dentro da loja, saiu um homem de cara amarrada. Calças compridas, sapatos engraxados, cabelo penteado. Era grande. Gustavo sentiu uma pancada em seu ombro. Com total indelicadeza, o homem mandou que fosse embora. Mandou. Tal atitude feriu Gustavo da uma tal maneira, que fininhas lágrimas vieram a encher-lhe os olhinhos, não pela dor da pancada do vendedor, mas pelo modo como ele falou.
As pessoas viviam lhe fazendo isso, e ele não entendia porquê. Talvez fosse porque ele não tinha chinelinhos como os outros garotos por aí. Ou porque estava sempre meio sujo, a não ser quando sobrava a água da roupa que sua mãe lavava para as patroas, e então ele podia lavar os pés e o rosto antes que esfriasse totalmente. Não entendia porque era assim tão diferente, afinal tinha dois olhos, um nariz e uma boca como qualquer um ali. Qualquer um.
Desceu a rua tropeçando em seus próprios pezinhos. Aos poucos, o dia ia morrendo lá no alto e o sol ia descansar, deixando livre o céu para o domínio da lua. Estava atrasado, tinha ficado tempo demais ali tentando vender algumas balinhas ou conseguir algum trocado para sua mãe. Chegaria de noite.
A falta do sol trouxe também a falta do calor. Não que este fosse perceptível à toda aquela gente engravatada que ia e vinha dentro dos carros grandes e bonitos. Nem àquelas mulheres de salto alto que carregavam bolsas elegantes e usavam lenços no pescoço. Tampouco àquelas crianças que iam e vinham com mochilas e livros de mãos dadas com suas mães e pais. Mas era perceptível à todos aqueles que não possuem uma blusa com grandes bolsos ou uma calça igual à do vendedor da loja. Todos os que eram iguais a Gustavo.
As mãozinhas apertadas e os bracinhos junto ao corpo. No coração, alguma mágoa. No estômago, a fome. Passando por entre aquelas casas de luzes acesas, queria saber como deveria ser lá dentro. Era um ir e vir de gente. Gente que chegava do trabalho. Gente apressada. Gente bem-vestida. Gente séria. Gente insatisfeita por natureza. Gente irritada. Gente cansada. Gente doente. Doente de pressa. Gente cega. Cega para a vida.
Gustavo atravessou a avenida ouvindo buzinas e reclamações. Todo mundo queria chegar em casa. Ansiavam por pílulas para dormir, cigarros para fumar. Esquecer dos problemas. Esquecer. Seus pézinhos doíam. O chão, antes quente quando saíra de casa, agora estava gelado. A noite brotava com violência. Apertou o passo, assim como todo mundo, ele queria chegar em casa. Dobrou esquinas, subiu e desceu ladeiras, atravessou novas ruas, viu outras casas, viu outras pessoas. Aos poucos a cidade morria, as casas acesas e quentinhas ficaram para trás, assim como aquele cheiro de janta que se espalhava pelo ambiente.
Ele ainda pensava naquele boneco. Finalmente avistou de longe, na beira do rio, as placas de madeira que formavam o que era a sua casa. Contemplou por alguns instantes aquele lugar. O chão de terra batida com alguns restos do que fora concreto algum dia. Trapos pendurados no arame adaptado como varal. Cheiro de esgoto a céu aberto. Correntes de vento frio que ao chegarem ali, faziam ruídos estranhos. Escuridão que ocultava parte do lixo acumulado ali ao lado. De toda forma, estava contente de ter chegado. Sua cabeça doía.
Ao entrar no barraco pequeno e mofado, encontrou, como todas as noites, sua mãe, pálida e fraca, sentada sobre a cama que todos dividiam, dando o peito magro para que seu irmãozinho tentasse se alimentar. Ela ergueu os olhos quando o viu entrar e repreendeu-o por ter chego tão tarde. Depois esboçou um leve sorriso e disse que havia pão em um saco dentro do armário da cozinha.
Foi com alegria que Gustavo comeu aquele pão. Estava realmente com muita fome, e ao chegar e ver o fogão vazio teve o receio de que poderia ser mais uma noite sem ter o que comer. Depois, sem desperdiçar nenhum farelinho, limpou a boca no guardanapo. Colocou as moedinhas que havia conseguido durante o dia na lata que ficava num canto perto da pia, e foi aninhar-se junto da mãe e do irmão naquela cama velha e esburacada, procurando uma posição que retivesse um pouco do frio de seu corpinho.
Como todas as noites, contou à sua mãe sobre o boneco maravilhoso que tinha visto na cidade e prometeu que assim que seu irmãozinho ficasse maior e pudesse acompanhá-lo, ele o levaria até lá para que este pudesse ver o boneco. É claro que demoraria algum tempo, já que ele ainda nem sabia andar e a loja ficava tão longe. Gustavo construiria um carrinho de rolimã com algum caixote de feira e algumas rodinhas velhas que pediria à Seu Jorge.
Seu Jorge era o dono da pequena mercearia ali do bairro. Era um homem velho e rabugento, mas gostava de Gustavo, e sempre que podia, presenteava o garoto com algumas balas.
Antes que pudesse terminar de arquitetar os seus planos, adormeceu tão evidente era o cansaço em seu corpinho.
No meio da noite, despertou confusa e bruscamente, com um empurrão de algo sobre ele, e o choro de seu irmão. Seu pai chegara. Ébrio e violento como todas as noites, buscava arrancar do corpo sofrido e ainda debilitado de sua mãe, os prazeres que a noite não conseguira satisfazer. Devido à relutância dela, usou-se da força como costumava fazer, despertando o choro em seu irmão. Gustavo muitas noites assistira aquilo em silêncio, encolhido em um canto. Muitas outras noites, chegara a apanhar também. Às vezes chorava baixinho e rezava, sua mãe certa vez lhe ensinara que rezar ao seu anjo da guarda nos momentos de medo ajudava a afastar esse sentimento tão cruel ao coração de uma criança. Mas talvez os anjos da guarda não gostassem muito dele, talvez era porque ele não tinha chinelinhos.
Naquela noite em especial, seus pais brigaram como nunca. Era a primeira vez que ele aparecia em casa desde que seu irmãozinho nascera, há 2 meses atrás. O impulso de sua mãe foi de todas as formas, manter o recém nascido longe do alcance daquele homem desfigurado, que não mediu forças ou poupou violência para o impedir. Ela gritara, aclamando por socorro, mas ninguém apareceu, ninguém nunca aparecia. Gustavo, sob a cama, cobria a cabeça com uma velha almofada para tentar abafar todos aqueles ruídos pavorosos. Dali podia ver os passos daquele ser escrupuloso que era seu pai, indo em direção á sua pobre mãe encolhida num canto, os gritos do bebê noutro lado do quarto.
Tinha de fazer algo, não poderia deixar que ele a tratasse daquela maneira. Há muito que ele partira e muitas vezes invadira aquele lugar sem qualquer direito. Gustavo estava bem crescido, faria 9 anos no próximo mês, era o verdadeiro homem daquela casa e era seu dever proteger sua mãe e agora, seu irmãozinho. Mas o que faria? O que faria ele, uma criança mirrada e fraca contra um homem corpulento e alterado pela bebida? O que faria ele se sentia tanto medo? Medo? Não podia mais sentir medo, sim não podia. Já era hora de deixar claro que aquele ser repugnante não era mais bem vindo ali, nem de longe.
Sorrateiramente, Gustavo esgueirou-se para o lado oposto do quarto, o lado que dava para a cozinha, já que o barraco era constituído de apenas dois cômodos. Tamanho era a histeria dos berros de seu irmão no berço e das súplicas de sua mãe entre os toques brutais de seu pai, que foi desapercebido que conseguiu ir de um salto até a cozinha. Seu primeiro instinto foi correr dali para fora e buscar toda a ajuda necessária, mas talvez demoraria muito, talvez voltaria tarde demais e nem conseguiria imaginar o que aconteceria à sua mãe se ali a abandonasse. Um leve desespero tomou conta do garoto, mas antes que tal desespero pudesse se converter em pavor, ele pôde reparar que embaixo da pia da cozinha, havia um antigo engradado com várias garrafas de vidro que sua mãe recolhera durante a semana para tentar trocá-las por alguma coisa na mercearia de Seu Jorge.
Mais do que depressa, Gustavo armou-se de duas delas, uma em cada mãozinha, e sem pensar muito, voltou ao quarto correndo, o peito arfando. Jamais teria força para ferir aquele brutamontes, e nem altura, a não ser... A cama! Sim! A cama lhe daria altura suficiente para nivelar-se à cabeça do homem, já que este estava de costas, e a cabeça, considerando todo aquele tamanho, seria o local mais apropriado para uma pancada...
Teria uma única chance, não poderia errar ou estavam todos fritos, não só sua mãe, mas ele e seu irmão sofreriam sob as mãos do homem.
Respirou fundo, não poderia perder mais tempo, fechou os olhos por alguns instantes, tomou fôlego e saltou. Subindo na cama, dirigiu-se com tanta fúria na direção de seu pai que jamais saberia explicar como o fez. Talvez o fato de tamanho ódio ter brotado em seu coração, talvez o fato de ver-se livre de tudo aquilo um dia. E então uma garrafa e a outra.
Cacos de vidro que voaram. Sangue. Um grito estridente de sua mãe e antes que pudesse se afastar, a queda. O homem caiu com um baque surdo que fez o chão estremecer. Gustavo segurara as garrafas com tanta força na hora da pancada, que tinha cacos de vidro entre seus dedos também, mas já não se importava. Sua mãe desnorteada, por alguns instantes pasmou frente à imagem daquele homem caído, a cabeça ensangüentada formava uma poça avermelhada no chão. Correu para o berço, abrigando a criança desalentada e tomou Gustavo pela mão. Sem se importar com o que vestiam ou para onde iriam, deixaram o barraco.
Nada mais importava, contanto que saíssem dali. Em alguns dias tinham se instalado longe, numa casinha de barro que algumas pessoas bondosas cederam à mãe de Gustavo em troca de seus serviços como lavadeira.Os meninos cresceram na medida do que foi possível. Sobrevivendo dia após dia, apesar de todas as dificuldades impostas pela vida. Gustavo nunca mais ouviu falar de seu pai, tampouco voltou àquele barraco. O boneco da vitrine logo saiu de linha, vieram outros ainda mais brilhantes e plásticos, e ele desapareceu de lá, da loja, do mundo. Desapareceu também da mente de Gustavo, que nunca o poderia ter tido, e desde então, nunca mais teve lugar em seu coração para coisinhas tão plásticas. Mais tarde, ele ganhou um chinelinho, mas infelizmente, as pessoas não pararam de magoá-lo por isso, nem os anjos começaram a gostar mais dele.
Lá estava Gustavo descalço. Sujo e mirrado. Pobre. Enfrente ao vidro daquela grande vitrine no centro da cidade. O mais sutil retrato da realidade, não havia muitos como ele por ali tampouco pelos arredores. Ninguém, morava longe.
Todos os dias andava até ali, saía de casa bem cedo, ainda manhãzinha para que não tomasse muito sol durante o caminho. Chegava sempre perto da hora do almoço, quando podia ali ficar tempos e tempos observando cada detalhe, sonhando com cada acessório.
Aproximou-se aindamais da vitrine, as mãozinhas sujas tocando o vidro e deixando algumas marcas, o hálito quente turvando a visão. Um brilho no olhar. Talvez um dia poderia chegar a tocá-lo! O filho de uma das mulheres para quem sua mãe lavava a roupa tinha um boneco parecido com aquele, um versão mais simples, menos original, mas era fantástica. Uma vez ele deixara que Gustavo o segurasse, fora um dia feliz.
Ah se tivesse um boneco daquele! Brincaria tanto com ele que chegaria a cansar. E deixaria, sem dúvidas deixaria que todos os garotos lá da rua pudessem brincar com ele também. Mas... e se eles o quebrassem? Ou pior! E se tentassem roubá-lo? Isso seria horrível... Não, não deixaria que ninguém chegasse perto, nem mesmo seu irmão, já que era novo demais, poderia tentar engoli-lo ou estragar. Guardaria-o para si mesmo, para sempre. Talvez nem abriria a caixa, já que esta era tão bonita quanto o brinquedo. Se ganhasse só a caixa já ficaria contente.
A porta da loja de abriu, balançando o sininho prateado instalado no canto, para que os clientes que ali entrassem fossem anunciados. De dentro da loja, saiu um homem de cara amarrada. Calças compridas, sapatos engraxados, cabelo penteado. Era grande. Gustavo sentiu uma pancada em seu ombro. Com total indelicadeza, o homem mandou que fosse embora. Mandou. Tal atitude feriu Gustavo da uma tal maneira, que fininhas lágrimas vieram a encher-lhe os olhinhos, não pela dor da pancada do vendedor, mas pelo modo como ele falou.
As pessoas viviam lhe fazendo isso, e ele não entendia porquê. Talvez fosse porque ele não tinha chinelinhos como os outros garotos por aí. Ou porque estava sempre meio sujo, a não ser quando sobrava a água da roupa que sua mãe lavava para as patroas, e então ele podia lavar os pés e o rosto antes que esfriasse totalmente. Não entendia porque era assim tão diferente, afinal tinha dois olhos, um nariz e uma boca como qualquer um ali. Qualquer um.
Desceu a rua tropeçando em seus próprios pezinhos. Aos poucos, o dia ia morrendo lá no alto e o sol ia descansar, deixando livre o céu para o domínio da lua. Estava atrasado, tinha ficado tempo demais ali tentando vender algumas balinhas ou conseguir algum trocado para sua mãe. Chegaria de noite.
A falta do sol trouxe também a falta do calor. Não que este fosse perceptível à toda aquela gente engravatada que ia e vinha dentro dos carros grandes e bonitos. Nem àquelas mulheres de salto alto que carregavam bolsas elegantes e usavam lenços no pescoço. Tampouco àquelas crianças que iam e vinham com mochilas e livros de mãos dadas com suas mães e pais. Mas era perceptível à todos aqueles que não possuem uma blusa com grandes bolsos ou uma calça igual à do vendedor da loja. Todos os que eram iguais a Gustavo.
As mãozinhas apertadas e os bracinhos junto ao corpo. No coração, alguma mágoa. No estômago, a fome. Passando por entre aquelas casas de luzes acesas, queria saber como deveria ser lá dentro. Era um ir e vir de gente. Gente que chegava do trabalho. Gente apressada. Gente bem-vestida. Gente séria. Gente insatisfeita por natureza. Gente irritada. Gente cansada. Gente doente. Doente de pressa. Gente cega. Cega para a vida.
Gustavo atravessou a avenida ouvindo buzinas e reclamações. Todo mundo queria chegar em casa. Ansiavam por pílulas para dormir, cigarros para fumar. Esquecer dos problemas. Esquecer. Seus pézinhos doíam. O chão, antes quente quando saíra de casa, agora estava gelado. A noite brotava com violência. Apertou o passo, assim como todo mundo, ele queria chegar em casa. Dobrou esquinas, subiu e desceu ladeiras, atravessou novas ruas, viu outras casas, viu outras pessoas. Aos poucos a cidade morria, as casas acesas e quentinhas ficaram para trás, assim como aquele cheiro de janta que se espalhava pelo ambiente.
Ele ainda pensava naquele boneco. Finalmente avistou de longe, na beira do rio, as placas de madeira que formavam o que era a sua casa. Contemplou por alguns instantes aquele lugar. O chão de terra batida com alguns restos do que fora concreto algum dia. Trapos pendurados no arame adaptado como varal. Cheiro de esgoto a céu aberto. Correntes de vento frio que ao chegarem ali, faziam ruídos estranhos. Escuridão que ocultava parte do lixo acumulado ali ao lado. De toda forma, estava contente de ter chegado. Sua cabeça doía.
Ao entrar no barraco pequeno e mofado, encontrou, como todas as noites, sua mãe, pálida e fraca, sentada sobre a cama que todos dividiam, dando o peito magro para que seu irmãozinho tentasse se alimentar. Ela ergueu os olhos quando o viu entrar e repreendeu-o por ter chego tão tarde. Depois esboçou um leve sorriso e disse que havia pão em um saco dentro do armário da cozinha.
Foi com alegria que Gustavo comeu aquele pão. Estava realmente com muita fome, e ao chegar e ver o fogão vazio teve o receio de que poderia ser mais uma noite sem ter o que comer. Depois, sem desperdiçar nenhum farelinho, limpou a boca no guardanapo. Colocou as moedinhas que havia conseguido durante o dia na lata que ficava num canto perto da pia, e foi aninhar-se junto da mãe e do irmão naquela cama velha e esburacada, procurando uma posição que retivesse um pouco do frio de seu corpinho.
Como todas as noites, contou à sua mãe sobre o boneco maravilhoso que tinha visto na cidade e prometeu que assim que seu irmãozinho ficasse maior e pudesse acompanhá-lo, ele o levaria até lá para que este pudesse ver o boneco. É claro que demoraria algum tempo, já que ele ainda nem sabia andar e a loja ficava tão longe. Gustavo construiria um carrinho de rolimã com algum caixote de feira e algumas rodinhas velhas que pediria à Seu Jorge.
Seu Jorge era o dono da pequena mercearia ali do bairro. Era um homem velho e rabugento, mas gostava de Gustavo, e sempre que podia, presenteava o garoto com algumas balas.
Antes que pudesse terminar de arquitetar os seus planos, adormeceu tão evidente era o cansaço em seu corpinho.
No meio da noite, despertou confusa e bruscamente, com um empurrão de algo sobre ele, e o choro de seu irmão. Seu pai chegara. Ébrio e violento como todas as noites, buscava arrancar do corpo sofrido e ainda debilitado de sua mãe, os prazeres que a noite não conseguira satisfazer. Devido à relutância dela, usou-se da força como costumava fazer, despertando o choro em seu irmão. Gustavo muitas noites assistira aquilo em silêncio, encolhido em um canto. Muitas outras noites, chegara a apanhar também. Às vezes chorava baixinho e rezava, sua mãe certa vez lhe ensinara que rezar ao seu anjo da guarda nos momentos de medo ajudava a afastar esse sentimento tão cruel ao coração de uma criança. Mas talvez os anjos da guarda não gostassem muito dele, talvez era porque ele não tinha chinelinhos.
Naquela noite em especial, seus pais brigaram como nunca. Era a primeira vez que ele aparecia em casa desde que seu irmãozinho nascera, há 2 meses atrás. O impulso de sua mãe foi de todas as formas, manter o recém nascido longe do alcance daquele homem desfigurado, que não mediu forças ou poupou violência para o impedir. Ela gritara, aclamando por socorro, mas ninguém apareceu, ninguém nunca aparecia. Gustavo, sob a cama, cobria a cabeça com uma velha almofada para tentar abafar todos aqueles ruídos pavorosos. Dali podia ver os passos daquele ser escrupuloso que era seu pai, indo em direção á sua pobre mãe encolhida num canto, os gritos do bebê noutro lado do quarto.
Tinha de fazer algo, não poderia deixar que ele a tratasse daquela maneira. Há muito que ele partira e muitas vezes invadira aquele lugar sem qualquer direito. Gustavo estava bem crescido, faria 9 anos no próximo mês, era o verdadeiro homem daquela casa e era seu dever proteger sua mãe e agora, seu irmãozinho. Mas o que faria? O que faria ele, uma criança mirrada e fraca contra um homem corpulento e alterado pela bebida? O que faria ele se sentia tanto medo? Medo? Não podia mais sentir medo, sim não podia. Já era hora de deixar claro que aquele ser repugnante não era mais bem vindo ali, nem de longe.
Sorrateiramente, Gustavo esgueirou-se para o lado oposto do quarto, o lado que dava para a cozinha, já que o barraco era constituído de apenas dois cômodos. Tamanho era a histeria dos berros de seu irmão no berço e das súplicas de sua mãe entre os toques brutais de seu pai, que foi desapercebido que conseguiu ir de um salto até a cozinha. Seu primeiro instinto foi correr dali para fora e buscar toda a ajuda necessária, mas talvez demoraria muito, talvez voltaria tarde demais e nem conseguiria imaginar o que aconteceria à sua mãe se ali a abandonasse. Um leve desespero tomou conta do garoto, mas antes que tal desespero pudesse se converter em pavor, ele pôde reparar que embaixo da pia da cozinha, havia um antigo engradado com várias garrafas de vidro que sua mãe recolhera durante a semana para tentar trocá-las por alguma coisa na mercearia de Seu Jorge.
Mais do que depressa, Gustavo armou-se de duas delas, uma em cada mãozinha, e sem pensar muito, voltou ao quarto correndo, o peito arfando. Jamais teria força para ferir aquele brutamontes, e nem altura, a não ser... A cama! Sim! A cama lhe daria altura suficiente para nivelar-se à cabeça do homem, já que este estava de costas, e a cabeça, considerando todo aquele tamanho, seria o local mais apropriado para uma pancada...
Teria uma única chance, não poderia errar ou estavam todos fritos, não só sua mãe, mas ele e seu irmão sofreriam sob as mãos do homem.
Respirou fundo, não poderia perder mais tempo, fechou os olhos por alguns instantes, tomou fôlego e saltou. Subindo na cama, dirigiu-se com tanta fúria na direção de seu pai que jamais saberia explicar como o fez. Talvez o fato de tamanho ódio ter brotado em seu coração, talvez o fato de ver-se livre de tudo aquilo um dia. E então uma garrafa e a outra.
Cacos de vidro que voaram. Sangue. Um grito estridente de sua mãe e antes que pudesse se afastar, a queda. O homem caiu com um baque surdo que fez o chão estremecer. Gustavo segurara as garrafas com tanta força na hora da pancada, que tinha cacos de vidro entre seus dedos também, mas já não se importava. Sua mãe desnorteada, por alguns instantes pasmou frente à imagem daquele homem caído, a cabeça ensangüentada formava uma poça avermelhada no chão. Correu para o berço, abrigando a criança desalentada e tomou Gustavo pela mão. Sem se importar com o que vestiam ou para onde iriam, deixaram o barraco.
Nada mais importava, contanto que saíssem dali. Em alguns dias tinham se instalado longe, numa casinha de barro que algumas pessoas bondosas cederam à mãe de Gustavo em troca de seus serviços como lavadeira.Os meninos cresceram na medida do que foi possível. Sobrevivendo dia após dia, apesar de todas as dificuldades impostas pela vida. Gustavo nunca mais ouviu falar de seu pai, tampouco voltou àquele barraco. O boneco da vitrine logo saiu de linha, vieram outros ainda mais brilhantes e plásticos, e ele desapareceu de lá, da loja, do mundo. Desapareceu também da mente de Gustavo, que nunca o poderia ter tido, e desde então, nunca mais teve lugar em seu coração para coisinhas tão plásticas. Mais tarde, ele ganhou um chinelinho, mas infelizmente, as pessoas não pararam de magoá-lo por isso, nem os anjos começaram a gostar mais dele.
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