Possibilidades.

Beatriz se mostrava impaciente. Andava de um lado para o outro ficando atenta à qualquer indício do telefone tocar. Sentia-se errada. Não era do tipo que se contentava simplesmente em esperar. Costumava agir. Mas não seria ela quem agiria primeiro, sendo que não fora ela quem se propusera a fazê-lo. Antes tê-lo feito. Agora, só lhe cabia esperar.
Uma certa ansiedade apoderava-se dela. Um certo receio. E se o telefone não tocasse? A resposta era simples: ela ficaria ali, as coisas continuariam como estavam. Nada que não fosse acontecer de qualquer modo, mas iria sentir-se muito contrariada. Definitivamente seria-lhe uma espécie de decepção. Precisava simplesmente, não pensar.
Sentou-se na poltrona vermelha da sala de estar e esticou o braço para apanhar um livro na estante ao lado. Tentou, inutilmente, ler algumas linhas, mas o silêncio da casa, quebrado apenas pelos ponteiros do relógio na parede e pela algazarra nas casas vizinha naquele final de tarde de domingo, a impacientavam ainda mais.
Quase seis horas. O telefone não tocaria. O que teria acontecido? Talvez a vontade de deixar as coisas mais claras era deveras pequena. Talvez surgira algum imprevisto. Talvez havia um certo descaso ou até um esquecimento. Que inútil era ela! Arrependia-se amargamente de ter se sujeitado a isso... Tamanha ilusão! Logo ela... Logo ela que era tão independente de qualquer circunstância... Logo ela que sentia tão orgulho por ser tão superior aos próprios sentimentos... Logo ela! Sim, logo ela.
Guardou o livro na prateleira da estante e esticou-se para espreguiçar. Seis e cinco. E então seria mais um dia inútil como de costume. Começara a sentir uma certa raiva. Raiva dessa espera inconstante, raiva de sua própria futilidade. Uma ou duas vezes pegou o telefone no intuito dela mesma ligar. Talvez se ela ligasse representaria uma maior confiança. Talvez fosse mais fácil se ela ligasse. Talvez se ela não ligasse, pareceria um descaso. Não. Não fora ela quem se prontificara a ligar, dessa forma, não era dever dela tomar qualquer atitude. Não dessa vez.
Levantou-se da poltrona e arrastou-se até seu quarto, a casa estava quente. Suspirou. Sentia-se dotada de uma fraqueza interior que não lhe apetecia. Fraqueza por ter-se deixado envolver em tamanhas dúvidas. Deitou-se em sua cama fechando os olhos por alguns instantes. Os pensamentos vagando por entre uma certa alienação. Tentaria dormir.
O sol que entrava por entre as grades da janela, refletia na superfície dos quadros na parede, preenchendo todo o quarto com uma luz incômoda. Ela esgueirou-se por sobre os travesseiros para fechar a cortina e então reparou em um envelope branco no criado mudo, do qual não havia tomado conhecimento quando entrara no quarto... Nem de manhã, ou na noite anterior. Há quanto tempo estaria ali? Endereçado á ela, com uma letra conhecida despertou-lhe uma pontada de incerteza. Custou-lhe lutar contra seus rodeios para retirar de dentro dele a carta, que fora escrita provavelmente muito às pressas, pois a caligráfica confusa deixara certas palavras quase ilegíveis.
Com certa dificuldade, leu linha após linha e gradativamente as sensações que experimentava interiormente foram tomando forma em seu corpo. Os olhos marejados, as mãos suando e o coração acelerado, um misto de angústia e pânico invadia toda a sua pessoa, algo como ser tirado do chão por uma força bruscamente violenta e em seguida ser lançado contra ele novamente pela mesma força, mas talvez com um grau de intensidade ainda maior.
Permaneceu ali sentada, perplexa, a boca entreaberta, os olhos semicerrados, até que as lágrimas que escorreram, secasse sobre seu rosto, causando-lhe uma desagradável sensação de desconforto sobre a pela e um gosto amargo na garganta.
Do outro lado da cidade, Nicole embarcava em um avião com destino à uma nova vida, um novo horizonte, um novo começo. Nas mãos, um casaco e o futuro. No coração, apenas a dor e a incerteza de se o que estava fazendo era realmente o correto. Na bagagem, tudo o que vivera anteriormente, e que agora, se desintegrava em poeira e saudade.
Beatriz levantou-se após muito tempo fora de órbita, os membros inferiores de seu corpo sentindo a estranha sensação de ficarem por longo tempo na mesma posição. Foi até a janela e abriu as cortinas. O sol se punha. Teria valido a pena? Viver: possibilidades.

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