Dois e o exílio
-Nós não podemos mais ficar aqui.
-Eu não vou sair.
-Mas, Augusto...
-Clarice, entenda...
-Não há nada o que entender!
E realmente não havia. Clarice já perdera as esperanças. Augusto também, porém ele procurava alimentar a idéia da falsa base que eles fingiam ter. Ele ainda acreditava.
-Você não me ama mais?
Clarice estava pálida. Um curativo em sua sobrancelha procurava estancar o sangue do ferimento ainda recente.
-São tantos horrores, Augusto, tanta coisa. Em tempos assim, já não há mais espaço para o amor.
Uma contração nos lábios caracterizava sua face magra, quase bela. Procurou encarar o homem atônito à sua frente. Grandes olhos castanhos perdiam-se em fundas olheiras.
Os cabelos revoltos eram tudo o que restara do que já fora Augusto. Ela lembrava como era, enevoadamente, mas lembrava. Se fizesse algum esforço, ela quase conseguia sentir como era tê-lo amado.
Talvez se não houvessem fugido tanto...
-Sabe, - ele procurou começar com uma voz arrastada - às vezes... às vezes você não desejaria ter nascido noutra época?
-Augusto, eu...
-Numa época longe daqui, senão bem antes, bem depois...
-Por favor...
-Bem depois... - Augusto deu um riso perturbado - E o que vem depois? Já estamos aqui assim há... Sete anos?
-Oito.
-Oito anos... Oito anos, oito anos. OITO ANOS, CLARICE! - Bruscamente, ele a segurou pelos braços, o desespero exalando da maneira mais aterradora.
Clarice nada podia fazer a não ser, entender.
-Oito anos que apenas continuamos vivendo porque sobrevivemos! Ah, Clarice!
Augusto deixou-se cair sobre o ombro dela, envolvendo-a com os braços num abraço agonizante.
-Fica.
-Eu não posso.
- Não pode?
- Não posso.
-Clarice...
-Augusto...
- Você podia tentar, experimentar...
- Experimentar? - Clarice estarreceu - Experimentar? Quantas vezes nós experimentamos? Heim? Quantas vezes nós sabíamos como seria, tínhamos certeza, mas mesmo assim nos arriscamos para concluir que estávamos certos desde o início?
Augusto se afastou. Clarice tinha razão.
- Mas talvez se... - Ele sentou-se a um canto - Se você experimentasse ficar, é uma questão de esperar e...
- UMA QUESTÃO DE ESPERAR? Esperar? Augusto pelo amor de Deus! Eu já estou desesperada demais para esperar! Será que você não enxerga?
-NÃO!
Clarice calou-se. Ela sabia que ele não enxergaria, não podia, uma vez que não queria. Um dor dilacerava seu coração. Porque sempre fora daquela maneira.
Durante algum tempo ambos ficaram em silêncio. Atentos a cada ruído, já não corriam riscos, mas continuava a ser arriscado.
- Não podemos mais ficar aqui.
- Eu não vou sair.
- E... Silvia?
Augusto olhou Clarice com gravidade.
- Foi.
Clarice suspirou.
- Pedro?
- Também?
- Marta e Carlos?
- Carlos preso... Marta...
- O que tem Marta?
- Eu já não sei.
- Nada?
- Nada.
- Desde?
- Sempre.
Mais um suspiro.
-E você quer ficar?
- Eu vou ficar, Clarice.
- Mas Augusto...
Ele se levantou.
-Se já estamos aqui há tanto tempo...
- É sinal de que continuar não vai adiantar em nada!
- Você não sabe!
- E você sabe?
Augusto ficou em silêncio outra vez. Porra é claro que ele não sabia.
- Quanto tempo faz... da ultima vez que...
- Dois anos.
- Dois anos... - Ele murmurou pra si mesmo.
- Dois anos não são absolutamente nada... NADA! - Clarice assumiu um ar doentio.
- Olha eu...
- Você não faz idéia... não faz! Não faz e eu rezo a cada minuto para que nunca faça! - Ela tinha lágrimas nos olhos, há muito tempo que ela não chorava, não na frente dele.
- Clarice...
- Eu ainda posso ouvir os gritos, sim, posso. O cheiro de umidade daquele lugar, o frio incondicional daquela cela... Tortura.
Augusto a observava assustado. Desde que haviam se reencontrado nunca tocaram naquele assunto. Eram muitas chagas.
- Você sabe que... sabe que eu tentei... - Ele procurou ser cauteloso
- NÃO! EU NÃO SEI! Eu não vou saber... eu vou embora!
- E se talvez esse fosse o nosso ano? E se talvez pudéssemos ver o fim de tudo isso antes do dia de natal e então...
- E então comemoraríamos com uma bela ceia? Uma bela ceia com quem? Com quem, se todos aqueles que amávamos estão mortos... MORTOS!
- NÃO! NÃO ESTÃO CLARICE!
- NÃO ESTÃO?
- Você ainda está aqui.
Clarice encarou-o com um olhar piedoso. Ela o deixaria, sem duvidas teria de fazê-lo. Acostumara-se com a idéia e quase não doía. Como seria mais simples se ele pensasse um mínimo.
OIto anos era tempo demais... Tempo demais para restar ainda uma esperança em corações, hoje já não tão jovens.
- Eu não estou Augusto. Você não percebe? Estou cansada. Tão... cansada...
Ela deixou-se escorregar e sentou-se no chão. Augusto observando-a.
- Quanto ainda temos?
Augusto remexeu num dos bolsos da mochila e retirou uma pequena carteira. Dentro, algumas notas amassadas, documentos antigos.
-O suficiente.
- Mesmo?
Ele encarou-a. Ela sabia quando não estava falando a verdade. Baixou os olhos com certo pesar, não gostava de como os olhos de Clarice enfrentavam os seus.
-Não. Muito pouco. Pouquíssimo. Na verdade não temos nada. Feliz assim?
-Resignada.- Ela interpôs com ironia.
Clarice levantou-se e andou até a janela procurando algum indício de movimento.
-Que horas será que são?
- Quase seis. - Augusto respondeu após verificar o relógio de pulso.
- Não podemos mais ficar aqui.
-Eu não vou sair.
- Amanhã cedo... amanhã cedo...
- Se sair eles ganham.
- SE ficar continua a mesma coisa.
- Pode ser, mas pelo menos ainda se está aqui.
Augusto se aproximou lentamente. Há muito tempo que ela não o permitia que ele o fizesse sem se retrair. Ficou ao seu lado durante alguns instantes sem dizer nada, olhando por aquela janela sem saber o que gostaria de ver.
Na verdade sabia, sabia o que gostaria de ver ali. Gostaria de ver dias livres, o fim de toda aquela repressão.
Ruas cheias de pessoas, jovens e velhos que se encontram e cumprimentam-se com cordialidade e sorrisos. Cores. Utópico.
Delicadamente, envolveu a mão de Clarice com a sua. Por alguns instantes ela permitiu que ele a tocasse.
- São muitas memórias. - Ela disse afastando-se.
- O que fizemos para eles?
- Nós os deixamos desconfortáveis. Afinal, representamos algum senso de justiça.
- Somos perseguidos simplesmente por querermos apenas dizer aquilo que pensamos, viver a nossa maneira, ir contra esse sistema.
- Já não se trata de um sistema, Augusto. É piração.
Clarice remexeu nos bolsos do casaco.
- Tome. - disse entregando a Augusto um pingente num barbante.
- O que é isso?
- Isso era seu. Está comigo praticamente desde que nos conhecemos... Uma vez você me deixou usar, já faz muitos anos... Eu nunca mais devolvi.
- E porque está fazendo agora?
Ela se manteve em silêncio. Pela primeira vez não conseguiu encará-lo.
- Está na hora.
- Clarice eu...
- Augusto, entenda que não podemos continuar com isso... Eu não vou ficar, você sabe que não.
Ele contemplou o pingente gasto preso ao barbante. Uma coisa tão insignificante que ela guardara até aquele momento. Alguma coisa ela ainda sentia.
- Eu não vou sair.
- Terminamos aqui?
- Você não me ama mais?
De novo aquela pergunta. Clarice estremeceu, não queria responder tampouco queria pensar no assunto.
- Tem onde ficar?
- Há lugares e lugares... Você?
- Tenho.
- Quando aconteceu?
- O que?
- Isso.
- Isso o que?
- Isso. - Augusto estendeu-lhe o pingente.
- NO dia em que nos conhecemos. Você não se lembra?
- Não.
- Entendo.
- Não podemos mais ficar aqui.
- Eu não vou sair.
- Como você consegue ser tão indiferente?
- NÃO É INDIFERENÇA!
Clarice o observou.
- Quando foi a ultima vez?
- Que ultima vez?
- A ultima vez que nós...
- Nós?
- Você sabe, bem, nós... nós fizemos...
- Fizemos o quê?
- Fizemos...
- FALA!
- SEXO!
- Eu não me lembro.
- Você não se lembra de nada?
- Pouco.
- Sei.
- Sabe, não vai ser a mesma coisa sem você.
- Eu também penso assim.
- Então porque a gente não...
- Porque não.
Augusto brincava com o cordão em suas mãos. Clarice tirava da bolsa alguns envelopes.
- O que é isso.
-Cartas. Coisa simples. Os endereços estão todos aí, você as entrega por mim?
- Entrego.
- Obrigada. No outro papel tem alguns telefones onde você pode tentar me encontrar... caso mudar de idéia.
-Eu não vou mudar.
- Bem, você é quem sabe.
- Então você vai mesmo?
- Vou.
- Não vai esperar até amanhã cedo?
- Melhor ir agora, preciso adiantar algumas coisas.
- Sei. Então... acho que é, adeus?
- Sim, é adeus Augusto. Eu estou indo.
Dizendo isso Clarice pegou sua bolsa e as poucas coisas que ali lhe pertenciam, mas não se moveu.
- Chegaremos a nos encontrar novamente?
- Terei esperanças.
- Eu também.
- Farei o possível.
- Eu também.
- Prometo.
- Eu também.
- Adeus então.
Ela não se moveu, não sabia porque aquilo estava acontecendo, era impossível partir.
- Cuide-se.
- Você também.
- Não mude muito.
- Você também.
- Pare de ser tão teimoso.
- Você também.
Augusto queria abraçá-la. Queria beijá-la com todas as forças que tinha dentro de si. Queria dizer-lhe tantas coisas e suplicar para que ela não abandonasse sua pátria. Não abandonasse a ele.
Finalmente, Clarice deu-lhe um ultimo olhar esboçou um sorriso e deixou a casa.
Ele poderia ter dito o quanto a amava, o quanto sofreria sem a sua presença e o quanto tinham sido menos terríveis esses anos de perseguição enquanto estiveram juntos.
Poderia e isso teria sido um bonito desfecho, mas não o fez. Poderia ter corrido atrás dela e dado-lhe um ultimo adeus, devolver-lhe seu pingente e intimar que ela mandasse notícias todas as vezes que fosse possível.
Mas também não o fez. Simplesmente ficou a olhar sua figura esguia e adoecida cruzar a esquina apressada, ajeitando o casaco e olhando para todos os lados com medo da aparição de qualquer um deles.
Ela poderia ter encontrado mais mil maneiras de prolongar aquele momento. Poderia ter sido sincera e dito que sua frieza e indiferença eram apenas armas que escolhera para manter longe a dor daquela escolha.
Poderia, mas não o fez. Poderia ter esperado para partir no dia seguinte, poderia tentar persuadi-lo a acompanhá-la até que ele cedesse de alguma maneira, mas também não o fez.
Simplesmente manteve-se atenta durante todo o caminho e concentrou-se para livrar de seus olhos aquela lágrima que brotava de maneira inconsciente.
Clarice jamais escreveu para Augusto, nem tornou a vê-lo. Ele a procurou duas vezes, depois nunca mais.
O casamento de poucos anos de paz foi completamente apagado da memória e história de ambos. Os horrores do regime militar nunca foram devidamente esquecidos.
Em tempo de amnistia desejou saber se ele continuava bem, se continuava vivo.
Novos tempos vieram e Clarice envelheceu. Talvez Augusto também tenha envelhecido.
Hoje, tudo não passa de uma história dramática, uma saudade estática que a vida descarregou. Nunca, nenhum dos dois arrependeu-se da separação. Foram apenas destinos entrelaçados, mas não unidos.
-Eu não vou sair.
-Mas, Augusto...
-Clarice, entenda...
-Não há nada o que entender!
E realmente não havia. Clarice já perdera as esperanças. Augusto também, porém ele procurava alimentar a idéia da falsa base que eles fingiam ter. Ele ainda acreditava.
-Você não me ama mais?
Clarice estava pálida. Um curativo em sua sobrancelha procurava estancar o sangue do ferimento ainda recente.
-São tantos horrores, Augusto, tanta coisa. Em tempos assim, já não há mais espaço para o amor.
Uma contração nos lábios caracterizava sua face magra, quase bela. Procurou encarar o homem atônito à sua frente. Grandes olhos castanhos perdiam-se em fundas olheiras.
Os cabelos revoltos eram tudo o que restara do que já fora Augusto. Ela lembrava como era, enevoadamente, mas lembrava. Se fizesse algum esforço, ela quase conseguia sentir como era tê-lo amado.
Talvez se não houvessem fugido tanto...
-Sabe, - ele procurou começar com uma voz arrastada - às vezes... às vezes você não desejaria ter nascido noutra época?
-Augusto, eu...
-Numa época longe daqui, senão bem antes, bem depois...
-Por favor...
-Bem depois... - Augusto deu um riso perturbado - E o que vem depois? Já estamos aqui assim há... Sete anos?
-Oito.
-Oito anos... Oito anos, oito anos. OITO ANOS, CLARICE! - Bruscamente, ele a segurou pelos braços, o desespero exalando da maneira mais aterradora.
Clarice nada podia fazer a não ser, entender.
-Oito anos que apenas continuamos vivendo porque sobrevivemos! Ah, Clarice!
Augusto deixou-se cair sobre o ombro dela, envolvendo-a com os braços num abraço agonizante.
-Fica.
-Eu não posso.
- Não pode?
- Não posso.
-Clarice...
-Augusto...
- Você podia tentar, experimentar...
- Experimentar? - Clarice estarreceu - Experimentar? Quantas vezes nós experimentamos? Heim? Quantas vezes nós sabíamos como seria, tínhamos certeza, mas mesmo assim nos arriscamos para concluir que estávamos certos desde o início?
Augusto se afastou. Clarice tinha razão.
- Mas talvez se... - Ele sentou-se a um canto - Se você experimentasse ficar, é uma questão de esperar e...
- UMA QUESTÃO DE ESPERAR? Esperar? Augusto pelo amor de Deus! Eu já estou desesperada demais para esperar! Será que você não enxerga?
-NÃO!
Clarice calou-se. Ela sabia que ele não enxergaria, não podia, uma vez que não queria. Um dor dilacerava seu coração. Porque sempre fora daquela maneira.
Durante algum tempo ambos ficaram em silêncio. Atentos a cada ruído, já não corriam riscos, mas continuava a ser arriscado.
- Não podemos mais ficar aqui.
- Eu não vou sair.
- E... Silvia?
Augusto olhou Clarice com gravidade.
- Foi.
Clarice suspirou.
- Pedro?
- Também?
- Marta e Carlos?
- Carlos preso... Marta...
- O que tem Marta?
- Eu já não sei.
- Nada?
- Nada.
- Desde?
- Sempre.
Mais um suspiro.
-E você quer ficar?
- Eu vou ficar, Clarice.
- Mas Augusto...
Ele se levantou.
-Se já estamos aqui há tanto tempo...
- É sinal de que continuar não vai adiantar em nada!
- Você não sabe!
- E você sabe?
Augusto ficou em silêncio outra vez. Porra é claro que ele não sabia.
- Quanto tempo faz... da ultima vez que...
- Dois anos.
- Dois anos... - Ele murmurou pra si mesmo.
- Dois anos não são absolutamente nada... NADA! - Clarice assumiu um ar doentio.
- Olha eu...
- Você não faz idéia... não faz! Não faz e eu rezo a cada minuto para que nunca faça! - Ela tinha lágrimas nos olhos, há muito tempo que ela não chorava, não na frente dele.
- Clarice...
- Eu ainda posso ouvir os gritos, sim, posso. O cheiro de umidade daquele lugar, o frio incondicional daquela cela... Tortura.
Augusto a observava assustado. Desde que haviam se reencontrado nunca tocaram naquele assunto. Eram muitas chagas.
- Você sabe que... sabe que eu tentei... - Ele procurou ser cauteloso
- NÃO! EU NÃO SEI! Eu não vou saber... eu vou embora!
- E se talvez esse fosse o nosso ano? E se talvez pudéssemos ver o fim de tudo isso antes do dia de natal e então...
- E então comemoraríamos com uma bela ceia? Uma bela ceia com quem? Com quem, se todos aqueles que amávamos estão mortos... MORTOS!
- NÃO! NÃO ESTÃO CLARICE!
- NÃO ESTÃO?
- Você ainda está aqui.
Clarice encarou-o com um olhar piedoso. Ela o deixaria, sem duvidas teria de fazê-lo. Acostumara-se com a idéia e quase não doía. Como seria mais simples se ele pensasse um mínimo.
OIto anos era tempo demais... Tempo demais para restar ainda uma esperança em corações, hoje já não tão jovens.
- Eu não estou Augusto. Você não percebe? Estou cansada. Tão... cansada...
Ela deixou-se escorregar e sentou-se no chão. Augusto observando-a.
- Quanto ainda temos?
Augusto remexeu num dos bolsos da mochila e retirou uma pequena carteira. Dentro, algumas notas amassadas, documentos antigos.
-O suficiente.
- Mesmo?
Ele encarou-a. Ela sabia quando não estava falando a verdade. Baixou os olhos com certo pesar, não gostava de como os olhos de Clarice enfrentavam os seus.
-Não. Muito pouco. Pouquíssimo. Na verdade não temos nada. Feliz assim?
-Resignada.- Ela interpôs com ironia.
Clarice levantou-se e andou até a janela procurando algum indício de movimento.
-Que horas será que são?
- Quase seis. - Augusto respondeu após verificar o relógio de pulso.
- Não podemos mais ficar aqui.
-Eu não vou sair.
- Amanhã cedo... amanhã cedo...
- Se sair eles ganham.
- SE ficar continua a mesma coisa.
- Pode ser, mas pelo menos ainda se está aqui.
Augusto se aproximou lentamente. Há muito tempo que ela não o permitia que ele o fizesse sem se retrair. Ficou ao seu lado durante alguns instantes sem dizer nada, olhando por aquela janela sem saber o que gostaria de ver.
Na verdade sabia, sabia o que gostaria de ver ali. Gostaria de ver dias livres, o fim de toda aquela repressão.
Ruas cheias de pessoas, jovens e velhos que se encontram e cumprimentam-se com cordialidade e sorrisos. Cores. Utópico.
Delicadamente, envolveu a mão de Clarice com a sua. Por alguns instantes ela permitiu que ele a tocasse.
- São muitas memórias. - Ela disse afastando-se.
- O que fizemos para eles?
- Nós os deixamos desconfortáveis. Afinal, representamos algum senso de justiça.
- Somos perseguidos simplesmente por querermos apenas dizer aquilo que pensamos, viver a nossa maneira, ir contra esse sistema.
- Já não se trata de um sistema, Augusto. É piração.
Clarice remexeu nos bolsos do casaco.
- Tome. - disse entregando a Augusto um pingente num barbante.
- O que é isso?
- Isso era seu. Está comigo praticamente desde que nos conhecemos... Uma vez você me deixou usar, já faz muitos anos... Eu nunca mais devolvi.
- E porque está fazendo agora?
Ela se manteve em silêncio. Pela primeira vez não conseguiu encará-lo.
- Está na hora.
- Clarice eu...
- Augusto, entenda que não podemos continuar com isso... Eu não vou ficar, você sabe que não.
Ele contemplou o pingente gasto preso ao barbante. Uma coisa tão insignificante que ela guardara até aquele momento. Alguma coisa ela ainda sentia.
- Eu não vou sair.
- Terminamos aqui?
- Você não me ama mais?
De novo aquela pergunta. Clarice estremeceu, não queria responder tampouco queria pensar no assunto.
- Tem onde ficar?
- Há lugares e lugares... Você?
- Tenho.
- Quando aconteceu?
- O que?
- Isso.
- Isso o que?
- Isso. - Augusto estendeu-lhe o pingente.
- NO dia em que nos conhecemos. Você não se lembra?
- Não.
- Entendo.
- Não podemos mais ficar aqui.
- Eu não vou sair.
- Como você consegue ser tão indiferente?
- NÃO É INDIFERENÇA!
Clarice o observou.
- Quando foi a ultima vez?
- Que ultima vez?
- A ultima vez que nós...
- Nós?
- Você sabe, bem, nós... nós fizemos...
- Fizemos o quê?
- Fizemos...
- FALA!
- SEXO!
- Eu não me lembro.
- Você não se lembra de nada?
- Pouco.
- Sei.
- Sabe, não vai ser a mesma coisa sem você.
- Eu também penso assim.
- Então porque a gente não...
- Porque não.
Augusto brincava com o cordão em suas mãos. Clarice tirava da bolsa alguns envelopes.
- O que é isso.
-Cartas. Coisa simples. Os endereços estão todos aí, você as entrega por mim?
- Entrego.
- Obrigada. No outro papel tem alguns telefones onde você pode tentar me encontrar... caso mudar de idéia.
-Eu não vou mudar.
- Bem, você é quem sabe.
- Então você vai mesmo?
- Vou.
- Não vai esperar até amanhã cedo?
- Melhor ir agora, preciso adiantar algumas coisas.
- Sei. Então... acho que é, adeus?
- Sim, é adeus Augusto. Eu estou indo.
Dizendo isso Clarice pegou sua bolsa e as poucas coisas que ali lhe pertenciam, mas não se moveu.
- Chegaremos a nos encontrar novamente?
- Terei esperanças.
- Eu também.
- Farei o possível.
- Eu também.
- Prometo.
- Eu também.
- Adeus então.
Ela não se moveu, não sabia porque aquilo estava acontecendo, era impossível partir.
- Cuide-se.
- Você também.
- Não mude muito.
- Você também.
- Pare de ser tão teimoso.
- Você também.
Augusto queria abraçá-la. Queria beijá-la com todas as forças que tinha dentro de si. Queria dizer-lhe tantas coisas e suplicar para que ela não abandonasse sua pátria. Não abandonasse a ele.
Finalmente, Clarice deu-lhe um ultimo olhar esboçou um sorriso e deixou a casa.
Ele poderia ter dito o quanto a amava, o quanto sofreria sem a sua presença e o quanto tinham sido menos terríveis esses anos de perseguição enquanto estiveram juntos.
Poderia e isso teria sido um bonito desfecho, mas não o fez. Poderia ter corrido atrás dela e dado-lhe um ultimo adeus, devolver-lhe seu pingente e intimar que ela mandasse notícias todas as vezes que fosse possível.
Mas também não o fez. Simplesmente ficou a olhar sua figura esguia e adoecida cruzar a esquina apressada, ajeitando o casaco e olhando para todos os lados com medo da aparição de qualquer um deles.
Ela poderia ter encontrado mais mil maneiras de prolongar aquele momento. Poderia ter sido sincera e dito que sua frieza e indiferença eram apenas armas que escolhera para manter longe a dor daquela escolha.
Poderia, mas não o fez. Poderia ter esperado para partir no dia seguinte, poderia tentar persuadi-lo a acompanhá-la até que ele cedesse de alguma maneira, mas também não o fez.
Simplesmente manteve-se atenta durante todo o caminho e concentrou-se para livrar de seus olhos aquela lágrima que brotava de maneira inconsciente.
Clarice jamais escreveu para Augusto, nem tornou a vê-lo. Ele a procurou duas vezes, depois nunca mais.
O casamento de poucos anos de paz foi completamente apagado da memória e história de ambos. Os horrores do regime militar nunca foram devidamente esquecidos.
Em tempo de amnistia desejou saber se ele continuava bem, se continuava vivo.
Novos tempos vieram e Clarice envelheceu. Talvez Augusto também tenha envelhecido.
Hoje, tudo não passa de uma história dramática, uma saudade estática que a vida descarregou. Nunca, nenhum dos dois arrependeu-se da separação. Foram apenas destinos entrelaçados, mas não unidos.
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