O segredo de Gabriele

Sentada no degrau de entrada do portão de sua casa, Julia tinha o queixo apoiado sobre os punhos fechados e o olhar voltado para a movimentação do outro lado da rua. Gabriele descia da moto de Augusto e entrava pela porta da sala de sua casa jogando um beijo com os dedos, o capacete embaixo do braço esquerdo. Qual seria o segredo daquela mulher? Julia suspirou. Com certeza não deveria ser algo do nível de entendimento de uma garota de 12 anos.
Gabriele era tudo o que Julia jamais seria, pelo menos por enquanto. Deliberadamente encantadora e inteligente, feliz. Uma mulher independente, diferente, especial. Não levava uma vida fora do comum, pelo contrário, trabalhava em alguma loja nalgum shopping no centro da cidade, estudava para ser uma arquiteta durante a noite e nas horas de folga dedicava seu tempo às artes plásticas. Julia jamais vira nenhum quadro ou escultura feitos por Gabriele, mas ouvira dizer que era dotada de grande talento. O que mais a fascinava, era o modo com que Gabriele parecia conseguir transformar simples fatos comuns de sua vida, numa imensidão de coisas interessantes, por mais ordinário que tudo fosse.
E havia Augusto, até então. Era definitivamente um homem ideal aos olhos de Julia, não que ela entendesse do assunto ou coisa do tipo, mas simplesmente transparecia em seu sorriso. Não haveria para Gabriele, um par mais perfeito. Todas essas coisas inquietavam Julia, que custava a acreditar que o cotidiano de uma pessoa poderia ser assim tão bonito, já que fora criada num mundo real, onde nada é o que parece ser. Gabriele deveria ter problemas, isso era um fato, mas tinha um certo poder de resolução inimaginável. Qual seria o segredo daquela mulher?
Como era bela! Não era nada próxima aos padrões de beleza com que Julia sempre convivera, na realidade era bastante diferente. Tinha um nariz avantajado que contrastava com olhos e boca tão pequenos. Estava longe de ser esguia, talvez até tivesse curvas em demasia. Mas não havia como negar, Gabriele era um estouro. Qual seria o segredo daquela mulher?
A tarde morria no horizonte e a noite aos poucos ia estendendo seus braços negros por toda parte. Julia manteve-se sentada ali mais algum tempo e pôde presenciar Gabriele saindo apressada para chegar ao ponto de ônibus, carregada de livros e cadernos. Lançou-lhe um sorriso Cortez que foi prontamente correspondido e depois desapareceu ao chegar à esquina. Acorrendo ao chamado da mãe, Julia entrou para jantar.
Demorou-se em seu quarto por algum tempo, fitando aquele rosto tão conhecido no espelho com uma certa angústia. Talvez um dia ela seria tão resplandecente quanto Gabriele, mas não queria ter de esperar, queria ser assim agora. Na verdade não queria ser como Gabriele, queria simplesmente ser Gabriele. E foi no que se transformou. Desse dia em diante, Julia virou Gabriele.
Passou a imaginar aquela mulher sorrindo sob seu sorriso, dormindo em sua cama, freqüentando a sua escola. Imaginava sua mãe chamando Gabriele de filha, seu pai ralhando com aquela mulher. E assim, aquela admiração pela mulher que morava em frente à sua casa se transformou em idolatria, mais tarde em obsessão e então em perda de personalidade. Durante a adolescência, Julia perdeu seu individualismo e passou a viver na melancolia de não poder ser como desejava.
Decepcionava por não encontrar a figura de Gabriele nas fotos ou no reflexo de sua imagem. Frustrada e opaca ela amadureceu, assim como amadureceu um grande vazio em seu coração, dilacerado pela rejeição tanto alheia quanto de si mesma. Quando atingiu a maioridade, pôde constatar que havia deixado de fazer muitas escolhas importante e viver momentos incríveis, percebeu que esse vazio que sentia transformara-se numa barreira que a impedia de tentar tornar seus sonhos plausíveis.
E então, acordou. Acordou e entendeu que aquele vazio era, na realidade, saudade. Saudade de si mesma. Com certa dificuldade, conseguiu reunir todos os cacos dos espelhos que quebrara até então, e formou um mosaico. Um mosaico de Julia. A princípio pareceu um tanto disforme, mas com tempo e aceitação foi dotando-se de uma maior clareza que iluminou as paredes de seu ego surrado e dissipou todas as sombras que a imagem de Gabriele projetava sobre ele. Qual seria o segredo daquela mulher? Agora Julia sabia:
Gabriele existia, e ponto. Ela era autêntica, irreverente. Era bela e sabia. Era porque era e isso bastava. Transbordava. Estava ali, sem importar-se ao receber qualquer crítica ou apontamento sobre seus defeitos. Sabia que eles existiam e os aceitava. Trabalhava com eles em conjunto.
Não demorou muito e Julia finalmente transbordou. Percebeu que ser ela mesma era tão interessante quanto ser Gabriele. Na verdade era mais, muito mais. Passou a escrever sua própria história, buscar seus ideais, realizar seus sonhos, lutar sem se importar com quais olhos que o mundo a veria, já que tinha os seus prórpios e eram lindos por natureza. O sucesso então apareceu como conseqüência. Assim como Pedro, que até então talvez fosse seu par ideal.
Anos mais tarde, na fila do supermercado, Julia sentiu ser observada por uma menina. Reconheceu no brilho daqueles olhos, uma pergunta que ela também fizera na infância. Sorriu ao constatar que um dia, aquela menina descobriria o tal segredo que ansiava inconscientemente. Todas elas descobrirão, cada uma a seu tempo. Há aquelas que descobrirão demasiado cedo, outras demasiado tarde. Algumas parecem já nasceram sabendo. Outras precisam de algumas Gabrieles em seus caminhos para que tudo fique mais simples. A resposta está estampada em cada coração, basta haver coragem para olhar dentro de si.Pagou as compras e foi-se, atraindo olhares de admiração pela autenticidade que exalava. Qual seria o segredo daquela mulher?

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