A volta do Capitão Gancho


Robin Williams deitado sobre a casinha de bonecas e Júlia Roberts sapateando pela gola de sua camisa branca. Para mim sempre foi aí que começa a mágica da história.
Peter Pan sempre foi a minha história preferida e até hoje não consigo deixar de ficar indignada quando percebo não ser a das outras pessoas... O que poderia haver de mais completo?
O adorável garoto que não quer crescer, cujas idéias e pensamentos fascinantes são capazes de conseguirem envolver qualquer coração ausente de alegria infantil.
O terrível pirata velho, que atormenta e faz valer a pena a vida de todos os meninos perdidos com seu navio de 30 canhões, capaz de fazer 60 nós a todo pano.
A mocinha ingênua, contadora de histórias, que se vê junto de seus dois irmãos mais novos, embarcando em uma aventura que vai além dos sonhos e das estrelas.
Já li todas as versões possíveis que foram escritas sobre essa história. Desde a obra integral e original de J. M. Barrie, bem como a continuação intitulada Peter Pan Escarlate, e uma infinidade de obras baseadas no conto, a maioria delas envolvendo piratas e terras distantes. Demorei bastante para admitir publicamente, hoje tenho orgulho.
Histórias de pirataria são as mais fascinantes que se pode encontrar em qualquer caso. Particularmente, gosto um bocado de todas que já se ouviu contar sobre Mary Read, Anne Bonny e John Rackham. Grace O'Malley, Barba Negra e Barba Rubra são equivalentemente especiais e, conhecendo de cor, salteado e traz para frente todas estas, o Capitão Gancho consegue ser a miscigenação suave e quase obscena de todos eles em uma só figura.
Hook- A volta do Capitão Gancho sempre foi um filme muito presente em minha vida.
Várias gravações da fita VHS da antiga locadora perto de casa, tiveram de ser feitas, tantas foram as vezes que eu assisti e reassisti.

Nunca me parei para perguntar se analisei com precisão toda a composição e concepção do filme, tudo isso pouco me importa. A direção de Spielberg é um mero acaso, dadas as circunstâncias de que tive a história como minha companheira desde o lançamento nos cinemas.

Não é a história convencional de Peter Pan e poderia ser uma grande decepção em alguns sentidos, mas feliz ou infelizmente, não é. Todo o moralismo da história o, quase clichê, problema do pai ausente na visão dos filhos e mimimi é irrelevante quando se leva em consideração a cena do jantar onde a comida tem de ser imaginada para criar forma e enfim existir, ou então quando Peter Pan recorta uma das velas do Jolly Roger fazendo seu perfeito contorno. Detalhes preciosos como a escadaria do convés que estende um tapete vermelho para Gancho passar e a casinha de Sininho feita com um velho relógio, tudo ali vem chamuscado de lembranças e corroído de saudade.
Minha fita VHS perdeu-se com a umidade.
Em Setembro de 2004, mais precisamente dia 22, foi lançada uma edição de colecionador em DVD a um preço desordenadamente inacessível.
O tempo passou e, finalmente, três anos depois desse ultimo lançamento, Robin Williams pode voar quantas vezes forem precisas, não mais casualmente em qualquer canal da TV a cabo, mas a qualquer hora que me convir (Santíssimo Mercado Livre!).

Poucos são aqueles que conseguem entender. Tenho um milhão e meio de narrações parecidas com essas, algumas um bocado frustrantes ( como quando encontrei à venda o magnífico par de sapatos vermelho rubi mas, drasticamente, estes só eram fabricados em numeração infantil) e outras quase comoventes.
Gente o suficiente já me perguntou qual a importância de uma banalidade destas na minha vida e eu continuo incapaz de responder...
É (quase) como aconteceu com Bonequinha de Luxo, nos primeiros acordes de Moon River, logo no início do filme, meus olhos já estavam cheios d'água.
Apertava com força a caixa promocional da edição de aniversário do filme e tinha os olhos fixos em Audrey Hepburn, lindamente vestida, usando seu óculos escuro contemplando a vitrine da Tffany's.
Tinha cerca de sete anos quando assisti pela primeira vez ao filme Bonequinha de Luxo. Naquela mesma semana, fiz minha mãe comprar para mim uma coroinha de plástico acompanhada por um colar enorme e grandes brincos, na lojinha do sacolão.
Queria ter um gato, a quem eu chamaria de Gato e morar em Nova York nos anos 60. Queria, queria e queria tanto que queria mesmo. Sempre queremos muitas coisas, mas poucas são as coisas que queremos de verdade, aquele querer ingrato e angustiante que, nem enquanto somos crianças, conseguimos entender.

Uma infância quase solitária, preenchida pela companhia de histórias e contos fantásticos é, hoje, o reflexo de uma compulsão por não querer ver o tempo passar sem que antes eu consiga obter todos esses velhos amigos que podem dizer tanto sobre mim quanto eu sei dizer sobre eles.

Muitos eu consegui, outros ainda vão levar algum tempo, enquanto eu espero, a minha Terra do Nunca continua sendo a locadora mais próxima.



(MEU! MEU! MEU!!! ETERNAMENTE MEU!!!)

Ufa... É isso aí.

Comentários

Anônimo disse…
Talvez, o que as pessoas não entendam, é a necessidade da fantasia destes velhos amigos em nossa vida. A importância deles em nosso crescimento fisico, e até mesmo espiritual , ou pura e simplesmente o peso do conto de fadas, onde pelo menos ali, sabemos que o bem sempre vencerá o mal, teremos sempre a certeza de que estes amigos, jamais nos deixarão ou decepcionaram e que a qualquer hora, a qualquer momento, estarão ali para nós, para nos resgatar das tristezas e decepções que este mundo louco nos traz.
Qua a fantasia seja eterna!
Eu??? Vou para a cidade dos Duendes!
Amo você!!!!!!!

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