Cine 52 - Capítulo II


Eliza era uma moça inquietante.


Gostava de cinema, queijadinha e rosas brancas. Detestava cozinhar, bordar e dias frios. Sabia tocar piano, dançar tango e contar piadas. Era a caçula de uma família fragmentada.
Tudo o que tinha da mãe, era uma foto antiga, um par de luvas e um chapéu.
Só.


Fora criada pelo pai, Francisco, ao lado dos irmãos João Rafael, que servia a Marinha e Cássio, que se mudara para o interior do Rio Grande do Sul depois do casamento.
Quando criança aprendeu cedo como devia se comportar uma menina numa casa com apenas homens.
Não que a relação estabelecida entre ela e o pai fosse problemática, era simplesmente inexistente.
Francisco era um homem genioso, sempre fora, e após a morte da esposa, no nascimento de Eliza, entregou-se a um mundo cruel de sofrimento silencioso que refletia em sua postura austera e rígida.


Existem pessoas que escolhem viver para sofrer, apegam-se às suas dores e deixam-nas consumirem seus dias. Outras sofrem para viver, procuram de todas as formas juntar um número máximo de sofrimentos e criam sobre suas vidas uma cúpula de frieza para justificar sua dor.

Francisco era como no segundo caso.


Duas vezes Eliza vira o pai sorrir. A primeira foi aos nove anos, quando João Rafael fez seu primeiro gol no campeonato de futebol da escola em que estudavam, em Santos.
A segunda foi quando Cássio anunciou que iria se casar.
Talvez por ser a única filha, ou a mais jovem da família, não sabia ao certo, mas o pai nunca pareceu estar muito interessado no que Eliza sentia, do que ela gostava ou o que pretendia.
Quando adolescente tudo o que ele parecia fazer era repreender-lhe e talvez fosse uma grande decepção não ter muitas oportunidades para fazê-lo, Eliza era bastante educada e dissimulada nas atitudes para com o pai e os irmãos, de modo que nunca lhes sobrava muito que discutir.


Assim que terminou a escola, mudou-se de Santos para São Paulo e foi viver na casa da madrinha, Ângela.
Tia Ângela era uma velha solitária bastante esclerosada cuja vida se resumia a tricot, rádio-novela e gatos.
Quando ingressou na faculdade de direito, conheceu Carlos. Ele já estava no último ano e a princípio pareceu-lhe um rapaz perturbador e bastante arrogante, mas os ângulos sempre ficam mais amplos depois de algum tempo.
Não demorou muito e começaram a namorar.


Eventualmente, Eliza recebia cartas floreadas de João Rafael contando-lhe as desventuras vividas na Marinha e telefonemas amarelados de Cássio, dando-lhe notícias da cunhada e dos sobrinhos.
Eliza tinha três sobrinhos, o mais novo ainda não conhecera. Viajara apenas uma vez para visitar o irmão, já fazia dois anos.
Foram divertidos os momentos que dividira com João Rafael durante a viagem, mas a estada na casa de Cássio fora um bocado desconfortável, a esposa dele parecia não gostar muito de visitas familiares ou coisa que o valha.
O resultado era as desculpas esfarrapadas a cada final de ano, quando Eliza alegava preferir passar o natal na companhia de tia Ângela, que não possuía família e era muito solitária.
Cássio, de uma maneira ou de outra parecia saber que aquilo era melhor para a relação deles, nunca insistia muito.
O pai, Francisco, nunca a visitara na casa da madrinha. Eliza telefonava no final de cada mês, mas dificilmente o encontrava em casa, ou talvez ele simplesmente não quisesse atendê-la.


Triste ou não, era nessa relação de conformismo e distância que ela vivia, já estava acostumada.
Saudade sentia apenas da mãe, aquela que nunca conhecera e de João Rafael, a quem tinha muita estima.
Era um sentimento ingrato, nunca preenchido ou substituído, sempre em débito.
Desde seu noivado, tinha uma vida feliz, pacata, mas feliz até uma semana anterior à noite do acidente.


Coisas estarrecedoras começavam a persegui-la e não havia nada que alguém pudesse fazer para impedi-las, nem ela e nem Carlos.
O que aconteceria dali por diante era um grande mistério, grande o suficiente para transformar as noites de Eliza em insônia e todos os seus sonhos em pesadelos.
Tomaria uma decisão, e estava disposta a fazê-lo sozinha, custasse o que custasse.
Não envolveria o pai, os irmãos, tia Ângela e tampouco Carlos.


Ela jurara para si mesma.

Comentários

Anônimo disse…
mais mais mais!
Anônimo disse…
Hello, Pitoca linda da minha vida!!!!
Te vi há uns dias mas já estou com sodadinha docê, pois mal nos falamos na sua eterna correria de mulher ocupada com compromissos misteriosos.
Hertz acha que vc tem um afair secreto. Criamos enredos mirabolantes.... rssss
Há uma coisa que estou curiosa há um tempo.
Por onde anda seu apaixonado pequeno príncipe??????
Acabaram-se as visitas surpresas em plena madrugada??????
Vamos nos ver e quem sabe dar uma volta em manderlay, ok!!
beijos no coração!

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