Saudar saudade

Não era a primeira vez que eu via essa cena. Já era quase um clichê.
Olhava no relógio de dois em dois minutos e constatava que a melhor maneira de alongar o tempo é usar-se da ansiedade.
Ele estava atrasado poucos minutos. Não que eu estivesse realmente esperando pontualidade do serviço aéreo, em absoluto.
Era realmente ansiedade.
Tive medo de não reconhecê-lo, passar batido ou coisa que o valha, já fazia um bocado de tempo.
Um ano e meio muda bastante coisa. Estava apreensiva, no duro.
Quando finalmente seu vôo chegou, meus receios diluíram-se na excitação: eu o vira.
Jamais poderia deixar de reconhecer aquela figura tão alta, tão esguia, tão familiar.
O sorriso era o mesmo, assim como o olhar. Um pouco mais de cabelo, a barba ainda por fazer.
Veio ao meu encontro com uma pressa que parecia tangir com a minha empolgação. Corri até ele.
O abraço que eu estava esperando durante muito tempo, todos os dias, sem deixar passar um.
Um beijo apertado.

-Você cortou o cabelo! - censurou, sabia que ele não gostara.

-Você foi embora. - Rebati com certo rancor.

Ele sorriu, não mudara nada desde a última vez, ou talvez mudara completamente. Assumira um ar maduro e cansado.
Talvez fosse por causa da viagem.

-Fez boa viagem? - Perguntei mecanicamente.

-Naquelas... - Ele respondeu um tanto obtuso. - Você contou a eles?

-Não, claro que não. Você pediu pra não contar. - Respondi indignada.

- Ok. E Gabriel? Sabe?

-Não, eu não disse a ninguém.

Mais um sorriso. Outro abraço.

-Senti saudade. - Ele parecia sincero.

-Sentiu? - Eu parecia desconfiada.

Ajudei-o com a bagagem e todo o resto. Alguns pacotes com presentes e tudo.
Perguntei se ele estava com fome. Ele resmungou que comera algo durante o vôo.
Algo definitivamente desagradável que balançara seu apetite, por hora.
Estava realmente muito cansado.
Rumamos para fora do aeroporto, por um instante eu me senti muito mal, não sei explicar o que acontecia.

- Venha, vamos chamar um táxi. - Eu ordenei com indiscrição.

- Você tem grana para isso tudo?

- Você não queria algo em grande estilo? Aqui estamos nós... - Respondi num tom brincalhão.
Ele sabia que teríamos de esperar um ônibus.

Sentou-se ao meu lado enquanto aguardávamos. Estava mais calado do que de costume.
Um ano e meio muda muita coisa.
Se bem que, não era preciso dizer muito. O silêncio dizia por ele mesmo, era como se desculpar por sentir tanta saudade.
Segurou minha mão distraído, depois a largou a começou a remexer nos bolsos do casaco.

- Veja só isso...- Ele apontou um chaveiro prateado pendurado no molhe de chaves.
Tinha uma foto nele.

Até agora não entendo muito bem como aconteceu. Num instante estava ansiosa, no outro, extremamente contente e então a crescente angústia tomou parte de mim assim como tomaram as lágrimas.
Não pude contê-las, era como se me sufocassem, me obrigassem à submeter-me naquela emotiva humilhação de propósito, zombavam de minha suposta posição severa naquele posto imaturo que eu mesma criara.
Dificilmente choro na frente das pessoas.
Ele demorou a perceber o que estava havendo. Olhou para mim um tanto assustado.

- O que foi? O que foi que aconteceu? - Perguntou com um quê de preocupação na voz.

Não respondi. Continuei ali em meu pranto zombeteiro sem saber o que dizer, o que fazer. Não conseguia me controlar.
Aos poucos as palavras foram brotando, como uma nuvem de tempestade que de uma hora para outra se apodera do azul do céu e de repente, com gotas e trovões, transforma todos em seus subordinados.
A nuvem de palavras formara-se no céu de minha boca mas eu não estava nada disposta a permitir que ela explodisse.

- O meu disco... - balbuciei qualquer coisa para omitir aquilo que suplicava para ser dito.

- Disco? Que disco? Do que é que você está falando? - Ele estava desnorteado.

- O disco... O meu disco do B52's... Aquele, aquele que você comprou pra mim.

- Eu comprei? Como é? O que você está dizendo? Não estou entendendo nada.

- Comprou, comprou sim. Comprou aquela vez que nos perdemos... No show do Strokes, nos perdemos você lembra?

- Lembro, lembro sim. Mas o que é que tem?

- A gente se perdeu e... e encontrou aquele cara estranho, meio hippie, sei lá... Que vendia discos de vinil, sabe? - Eu continuava a chorar.

- Sim, ele vendia discos. Compramos o disco do B52's dele... Pagamos, o quê? Uns cinco reais eu acho...

- É, foi. Então. Eu o perdi. O disco. Ele sumiu. Não sei mais onde está.

- Ah, as coisas somem... Sabe como é... - Ele estava desesperado. Definitivamente não sabia mesmo o que dizer. Eu não o culpo, ele realmente era inocente já que eu estava sendo tão abstrata.
- Olha - ele continuou depois de certo tempo. - Eu te compro um novo, tá bem? A gente acha outro, a gente se perde outra vez e acha um igualzinho se você quiser, ok? Não chora, não chora não...

E me abraçou com força. Era inacreditável que ele realmente supunha que eu estava realmente chorando pelo disco. Sim, eu realmente perdera o disco, ele era realmente importante para mim, mas não era aquilo que realmente estava me entristecendo.

O problema com todos os caras é esse e unicamente esse. Vivem achando que as mulheres são estranhas, complicadas, malucas.
Dizem que elas ficam bravas por coisas incoerentes, sofrem por bobagens, se contentam com outras coisas fúteis. Isso não é verdade.
Nunca nos preocupamos muito com aquilo que evidenciamos com franqueza.
As mulheres são as maiores atrizes do mundo todo. Nunca revelam aquilo que as incomoda de verdade. Nunca dizem o que estão sentindo com muita precisão.
Precisamos ser assim para continuarmos vivendo.

O que eu sinceramente precisava dizer a Víctor naquele momento, era que eu ainda o amava.
Que eu o amava desde sempre e que não suportava a hipocrisia em que vivíamos ali.
Precisava mesmo dizer que eu o amava desde muito tempo atrás, quando ele ainda matava aula na antiga faculdade só para me levar para comer strogonoff, ou mesmo quando desligava o celular para não atender minhas reclamações de suas atitudes incoerentes.
Desde quando ele era somente um amigo muito dedicado que conhecia um bocado sobre cinema e sabia tocar piano tanto quanto um pingüim também sabe.
Desde quando ele passou por mim com toda aquela pinta de maturidade e articulou meus comentários subversivos à respeito de seu modo de vida.
Tinha que lhe contar que quando ele foi embora, eu o odiei por dois meses inteiros mas depois isso encrespou nas minhas lembranças e eu percebi que não tinha peito suficiente para deixar de amá-lo.
Contar que por mais que eu conhecesse pessoas diferentes, lugares diferentes, opiniões diferentes, era sempre nele que eu iria acabar buscando minhas referências, meus ideais.
Queria insanamente confessar que já fazia quase três anos que tudo mudara e que eu era devidamente imatura quando aconteceu, mas que hoje eu poderia afirmar com todas as letras que eu o achava um egoísta insensível e menosprezava sua atitude impulsiva de partir sem deixar muitas esperanças.
Confessar que eu pertencia a ele e sempre pertenceria não importa como ficaríamos.
Queria deixar claro que eu não estava me referindo somente à sexo e que, sem sombra de dúvidas, tinha me esforçado dolorosamente para reverter esse quadro mas fora fraca e desistira.

Quando o ônibus chegou, ele adormeceu rapidamente e mais uma vez mergulhamos no silencio taciturno que embalava aquela relação.
Pediu-me para acompanha-lo até sua casa, seria uma surpresa bastante agradável essa que planejara para os pais e os irmãos.

-Quero só ver a cara deles! - Ele comentou excitado.

Respondi que tinha coisas a fazer. Mentira. Eu tinha reservado aquele dia inteiramente para ele, bem como todos os próximos 18 dias que totalizariam sua estada no Brasil.
Voltei para casa depois de longa insistência da parte dele e duros argumentos da minha parte.
Cheguei em casa e chorei outra vez. Eu estava me odiando.
Dessa vez, chorei não só pela angústia cruel de não revelar aquilo que eu alimentava anos após ano, mas também pelo desagrado que a foto no chaveiro dele me causara.
Eu já devia estar preparada para isso, pensei comigo. Na verdade, dois dias antes acreditei estar. Não estava.
Ele escrevera no último e-mail (que jazia ainda na minha caixa de entrada) que conhecera uma garota muito interessante em Liverpool. Aquilo soou como um tiro.
Preferia jamais tê-lo conhecido a ter de passar por essa.

Blah. Eu estava mentindo mais uma vez. Foi ele quem causou tudo isso.
Pensei por um instante.
Ele escolheu partir.

Tentava de todas as formas não me culpar, expurgar aquela dor latente que só o remorso é capaz de proporcionar.
Ele dissera que ficaria se eu desejasse. Dissera que esperaria. Eu poderia ter impedido. Eu.
Não o fiz. Não era capaz de fazê-lo e nem hoje o sou. Isso é golpe baixo.
Eu jamais diria para que ele ficasse, abandonasse seu sonho e entregasse as apostas num jogo de azar impróprio.No fundo, ele sabia disso. Ele fora cruel. A sensação durou só mais um dia. Bastou outro encontro para que tudo desaparecesse. Quando se está ao lado de alguém que não se pode ter, as coisas são um bocado diferente.
Foram os dias mais felizes desde um ano e meio atrás. No sábado de aleluia, quando ele teve de voltar, achei que ia enlouquecer. Na verdade, acho que já enlouqueci.
É sempre assim. Deve ser algo 'karmico' ou coisa que o valha.
Vai durar o tempo que for preciso e depois eu vou esquecer. Na verdade eu sei que não vou, mas finjo que esqueço afim de me livrar de maiores temores.
Há quem diga que a morte é a separação mais densa e violenta.
Eu discordo.
Um oceano de distância é mais longe de que qualquer túmulo a sete palmos.

Quem discordar que se atreva a dizer.

Comentários

Anônimo disse…
jah vi esse filme em algum lugar...

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