De M. para R.

Caro doutor,

Resolvi escrever-te esta manhã para agradecer-lhe as bonitas flores que me mandou semana passada.

Sei que estou um pouco atrasada com essa gratidão, porém acredito que, como sabe, já era de se esperar.
Na verdade, também lhe escrevo para confessar alguns pensamentos sombrios que passaram pela minha cabeça na tarde de ontem.
A suíte do hotel já não me é tão sufocante agora que tenho tempo para circular pelos arredores . Faz alguns dias que reduzi a dose dos calmantes que costumava tomar antes de dormir.
Como você mesmo me disse, admito que acordei mais disposta.
Isso não significa que as coisas estão bem. Significa apenas que estão bem melhores desde a última vez. Não gosto nem de lembrar.

Pois bem, peguei o trem em W. e fui até K. logo depois do almoço. Foi um passeio solitário, mas agradável. Estou reconhecendo a cidade aos poucos.
Enquanto aguardava na plataforma, tive um súbito desejo de atirar-me nos trilhos quando o trem estivesse bem próximo.
Admito que foi infantilidade de minha parte pensar assim, suicídio é um charme do qual, eu deveria querer distancia, mas não me senti assim porque estava deprimida ou irritada, em absoluto.
Obviamente, o senhor bem sabe, passei por momentos de intenso declínio algumas semanas atrás, mas naquele momento não estava pensando em suicídio por sentir pena de mim mesma ou qualquer outra coisa.
Simplesmente estava atraída por aqueles trilhos e aquela situação me pareceu muito dinâmica se quer saber. Eu esperaria o trem estar bem próximo, a ponto de anular qualquer possibilidade de freio quando eu enfim me atirasse.
É claro que não o fiz do contrário, não estaria escrevendo-lhe sobre isto nesse momento.
Desisti da idéia quando observei que havia uma mãe com seu filho na plataforma. Dificilmente eu gostaria de manchar a mente de uma criança com uma cena tão suja.
Quando desci em K. havia uma longa passarela sobre a avenida principal, daquelas bastante altas que estremecem quando pisamos com muita decisão.
Particularmente detesto passarelas e qualquer tipo de altura, o senhor já reparou que sempre peço os quartos com cortinas bem grossas para impedir que eu me dê conta do quanto estou distante do chão nos hotéis e apartamentos.
Quando estava já na metade do caminho, fiquei a observar a pista movimentada sob meus pés, um exército de carros que ia e vinha em alta velocidade. Tive vontade de pular.
Uma vontade tão intensa quanto a que eu acabara de ter na plataforma da estação de trem.
Outra vez, essa vontade não era fruto de sentimentos oprimidos ou quaisquer desilusões que me cercavam, era simplesmente uma vontade plenamente insana de sentir pavor.
Sentir o terror de estar a instantes de minha morte, ver aquele chão cinzento aproximar-se numa velocidade ainda maior do que a velocidade dos carros que passavam por ali, somadas!Queria sentir o pânico de não poder voltar atrás em minha escolha, não poder consertar o erro de saltar daquela altura e abandonar a vida como quem abandona a um cão numa estrada deserta.
Daria qualquer coisa para poder ouvir o impacto de meu corpo sobre o chão e então das rodas dos carros passando sobre ele. Despedaçando-o.
Isso durou menos de cinco minutos. Fazia muito calor, eu queria que meu corpo fosse estraçalhado, mas nunca queimado por aquele asfalto infernal.
Quando cheguei ao outro lado, já tinha me esquecido que pensara nisso.

Não sei porque estou lhe contando isso se até já sei o que me diria: primeiro faria aquela cara séria de quem está montando um quebra-cabeça daqueles bem difíceis, depois levaria a mão ao queixo ou cruzaria os braços sobre o peito e murmuraria num tom calmo e analítico que tudo não passava de mais um desejo auto-destrutivo causado por minha neurose suicida, um problema patológico já identificado mas ainda sem alcance de tratamento.
Eu riria do que dissesse, não por menosprezar seu conhecimento, mas simplesmente pelo modo como o dissera tão austero e concentrado. Depois, eu murmuraria que é uma bobagem irrealista, conseqüência dessa onda cinematográfica que hipnotiza a todos.
Quando eu digo a todos, me refiro a todos mesmo! Acredita que, semana passada mesmo, cheguei a ver um casal de namorados discutirem gravemente por não estarem satisfeitos com a atuação um do outro no jantar? Era como se ambos esperassem qualquer coisa imitada de alguma cena surpreendente de um filme romântico dirigido por O. ou H.. Não sei, para mim é bobagem.
Todas as bobagens me cansam. Tenho me sentido um bocado cansada desde que voltei.

P. apareceu aqui logo que cheguei e tudo o que fez foi ficar comentando a respeito de coisas que eu gostaria de manter esquecidas.
Acho que fui indelicada, ela não se demorou tanto quanto aparentemente pretendia e desde então não voltou.
J. também veio me visitar. Trouxe-me de presente um par de luvas lindíssimo! Abrimos uma garrafa de champagne e conversamos a noite toda.
Cheguei a pensar que, talvez, o divórcio foi um erro. Na verdade não de todo um erro, mas algo realmente precipitado de nossa parte.
Isso se analisarmos o contexto sexual da relação, sinto muita falta dele. Porém, se levarmos em conta diálogo e boa convivência, chegamos a conclusão de que o casamento estava bastante deturpado quando enfim decidimos assinar os papéis.
Somos bons amigos, isso me deixa contente, já que não consigo me sentir feliz.

Um relacionamento não deveria ser baseado somente em sexo, é claro, mas todo relacionamento precisa ser baseado em sexo para que pelo menos exista, é fato.
Eu não discordo disso, na verdade até concordo em demasia, só me sinto mal quando reparo que, mesmo na cama, a solidão é uma constante num casamento sem amor verdadeiro. O tempo prega peças em todo mundo.
Nesse ponto de vista, o senhor mais uma vez esperaria que eu terminasse de falar para então dizer-me que o sexo parece tão vital para mim devido à minha maníaco dependência de companhia e terrível medo da solidão.
Pedi para alguém da recepção do hotel mandar um motorista até o antigo quarto na rua V. e buscar alguns discos.

Pedi que trouxessem somente os da E.F. ou do F.S. Estou completamente impaciente para música e as canções deles são as únicas que consigo suportar sem me sentir enjoada, talvez por serem tão clássicas e suaves.
A música deve servir como uma sombra no deserto e não um espelho num quarto claro. Não gosto de escutar canções que me fazem lembrar como sou.
Isso talvez porque eu nem ao menos saiba mais quem eu sou.
Tudo o que sei por hora é que não vou mais atuar, querido R., falo sério.
Não tente me persuadir ou convencer da próxima vez que nos encontrarmos. Decididamente tenho temores grandes demais para com as câmeras ou mesmo o palco para me submeter a essa tortura lacerante.
Tenho horror às palavras. Jamais conseguiria decorar algum texto ou roteiro, mesmo as marcações me desagradam. Todo mundo está sempre querendo manipular você dizendo o tempo todo: 'grr faça isso!' ou então 'grr faça aquilo!' E daí então criticando tudo o que você faz de errado e ignorando completamente o fato de que você talvez esteja desconfortável com todas aquelas luzes e pessoas.

Veja que eu poderia pegar o telefone e telefonar-lhe nesse exato momento e narrar-lhe todas essas linha inúteis que lhe escrevo, mas prefiro recolher-me ao bom e velho correio, pois ele limita o modo como tenho de me expressar, consigo ser calorosa e ao mesmo tempo direta sem hesitação.
Não que eu não gostaria de ouvir a sua voz, absolutamente!
Isso se dá com todo mundo. Não telefono a ninguém e nem atendo mais as ligação que me fazem. Quem quiser que me mande uma carta ou um telegrama se for realmente urgente.
Tenho medo de gaguejar e não saber o que dizer, tenho medo de parecer desesperada, em pedaços.
E também, quando falamos com alguém ao telefone, somos obrigados a responder perguntas e perguntas que não estamos dispostos a responder.
Queremos somente ouvir o que a pessoa do outro lado da linha tem a nos dizer, e não que ela fique nos pressionando para darmos explicações e detalhes de particularidades que não lhes dizem respeito.
Excluindo-se o fato de que elas querem que respondamos exatamente do modo que querem ouvir.
Se alguém lhe pergunta se tudo está bem e você lhe responde que não, ela logo lhe pergunta porquê num tom de falsa preocupação e automaticamente passa a criar argumentos que atinjam-lhe ferozmente e provem o quanto você está sendo ingrata consigo mesma ao dizer que não está bem.
Elas estão sempre julgando a gente. Eu preciso mesmo é de belos advogados e não de um julgamento, se é que me entende.

Tenho lido bastante enquanto estou por aqui descansando. Nada de artigos publicitários, novas adaptações ou coisa que o valha, limitei-me aos assuntos menos enriquecedores e mais divertidos e até a alguns pouco seletivos, mas simples e diretos.

Não estou para Best Sellers se quer saber a verdade. Quero distancia de tudo o que exale glamour ou popularidade.

Ganhei peso.
A princípio preocupei-me um pouco, mas lembrei-me que não voltarei às telas nunca mais então, meu compromisso para com as imagens já está extinto.
O que realmente está sendo difícil é lidar com as crises de insônia agravadas pela falta de intravenosos e aumento de pesadelos estranhos.
Estou me esforçando como prometi, já não perfuro as cápsulas dos medicamentos para acelerar os efeitos e, como já escrevi no começo, reduzi um bocado a quantidade que tenho ingerido.
O dia fica mais belo, mas, em compensação, as noites têm sido as mais tenebrosas. Receio que será assim para todo o sempre, ou pelo menos até enquanto eu viver.

Por favor, não comente nada com a doutora K. a respeito das vontades suicidas que eu lhe descrevi acima, ou ela dirá outra vez que devo voltar para aquela clínica horrorosa.Aquilo tudo me fez muito mal e continuaria fazendo, com certeza.

Estou com medo, se quer saber, muito medo.Medo que as fotos desapareçam dos jornais e revistas e que o mundo esqueça quem eu sou (afinal, já que eu não sei quem sou pelo menos o resto das pessoas precisa ter alguma idéia, eu acho).
Mas de toda forma, voltar a atuar, como já disse está fora de cogitação. Preferiria morrer a ter de passar por isso.

Aqui já me despeço afinal, receio que o senhor esteja ocupado com outras coisas muito mais importantes do que minhas linhas garranchosas.Já agradeci pelas flores? Pois bem, agradeço outra vez!
Mande lembranças minhas à senhora R. e um beijo carinhoso em N.
Devo voltar lá pelo começo de abril, de toda forma, prometo telefonar-lhe quando for partir (dessa vez não terei medo!).


O carinho mais intenso de sua paciente mais devota

M.

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