Boa noite, Moscou*
“Acorde!”. Uma voz familiar sussurrou enquanto mãos indelicadas tocavam-lhe.
Assustada, Ana vestiu-se às cegas, em meio à escuridão que calava o dia ainda não nascido. Estava confusa.
Na cozinha, Walter conferia os armários enquanto Leonor, no andar de cima, certificava-se de que as janelas estavam bem fechadas.
Um amontoado de malas e pacotes feitos com papel pardo aguardava-lhes na entrada da sala. Não levariam muita coisa.
Ana sentou-se à mesa e não conseguiu comer, observava a movimentação silenciosa como quem assiste a um espetáculo.
Voltariam ali algum dia? Era pouco provável.
Desde a morte dos pais, tudo o que os dois irmãos faziam comentar era que a cidade tornara-se grande demais, aos poucos ia engolindo-os.
Ana sabia que não esse não era o motivo da partida. Sabia que Leonor perdera o emprego na tecelagem e a deficiência na mão direita de Walter, causada pelo acidente, arruinava qualquer tentativa de conseguir algum emprego.
As coisas não iam nada bem e, de fato, a cidade crescera desvirtuosa e isso os corrompera.
Ana sabia, mas fingia não saber. Só fingia.
Alguém derrubara migalhas de pão na cadeira, ela as sentia sob suas coxas.
Sentiria falta de muita coisa, para não dizer, de tudo: das noites intermináveis quando ficavam jogando cartas após o jantar, os três, e Walter narrava as atrocidades que presenciara no centro da cidade ou no portão da fábrica, enquanto fumava um ou dois cigarros de São Petersburgo; das muitas idas à igreja, onde Leonor certa vez adquirira um admirador drasticamente devoto que fazia Ana e Walter rirem-se furtivamente com as peripécias pelo rapaz realizadas para conseguir sentar-se ao lado de Leonor; das comemorações típicas que costumavam fazer no dia de São Nicolau e enfim, sentiria falta da casa propositalmente desorganizada e quase mal-cuidada que servira-lhes de abrigo e fortaleza, um verdadeiro lar até então.
Era num momento como esse e somente como esse que Ana indignamente imaginava como tudo poderia ser diferente se os pais não estivessem mortos.
Já fazia muitos anos desde o acidente, Walter e Leonor eram muito bons para ela e o mais importante: eles se amavam. Isso mudava quase tudo.
Quase.
Não sanava a apreensão de que os pais poderiam ter melhores resoluções.
A mesma pessoa que derrubara os farelos de pão na cadeira sujara a faca da manteiga com geléia.
"Walter?". Leonor aparecera na cozinha segurando um velho álbum de fotografias. "Será que podemos levar pelo menos est...?".
"Claro, Leonor, leve quantas você quiser, está bem?" Walter respondeu antes que ela terminasse de perguntar. Parecia não estar prestando muita atenção.
Leonor concordou com um aceno de cabeça e desapareceu pelo portal de entrada da cozinha.
"Coma logo alguma coisa, Annocha, ou então vai acabar sentindo fome muito cedo.". Ele completou.
Ana não obedeceu, encarou-lhe nos olhos profundamente. Walter era bastante parecido com pappucha, especialmente nos olhos.
Ele retribuiu-lhe o olhar cansado, por um momento pareceu-lhe que ele diria para que voltasse à seu quarto e dormisse outra vez, que tudo fora cancelado e eles não precisavam mais ir embora.
Ela estava enganada.
"Será que podemos passar na casa de Tânia?". Leonor tornara à cozinha. "Prometi a ela que iria me despedir... Queria dar uma ultima olhada no Monoko".
Walter demorou a responder como se o que dissesse pudesse mudar completamente a vida de Leonor.
"Monoko vai ficar bem Lennocha, ele é um bom cachorro". Ele pousou a xícara que estava segurando desde que Ana descera e envolveu Leonor num abraço.
Ana reparou que lágrimas finas e amargas escorriam dos olhos de ambos. Não entendeu: se era tão doloroso, porque é que tinham que partir?
Porque é que não podiam simplesmente ficar ali, como haviam feito até então, sem precisar abrir mão de tudo: da casa, dos pais mortos, do cachorro, da esperança?
Demorou-se ainda alguns instantes a observá-los até juntar-se aos irmãos.Por um tempo que poderia ser anos ou menos de um minuto, os três ficaram ali: pés descalços, malas semi-prontas, louça suja e a saudade.
Mal tinham ido e já estavam sentindo saudade.
Foi Walter quem falou primeiro:
"Vai ficar tudo bem, eu prometo à vocês duas. Agora vão, vão e aprontem-se o mais breve possível".
Leonor secou os olhos na manga do vestido. Nunca um desejo fora tão forte naquela casa como era o de não precisar se aprontar.
Ana espiou pela única janela ainda aberta.
"Quantas horas para o sol nascer?". Perguntou distraída.
"Duas ou três, Annocha”. Walter respondeu. "Tudo pronto, Leonor? Espere então eu buscar as chaves...". E dizendo isso, foi até o antigo quarto dos pais com passos pesados e ar apreensivo.
Levariam as chaves mais antigas também.
Ana conferia se empacotara os livros que ganhara no último aniversário enquanto Leonor guardava o que sobrara do café da manhã para comerem durante a viagem.
Em poucos minutos estavam todos na calçada e Walter trancava o portão pela última vez.
Ana sabia que não voltariam. Walter e Leonor também. Por um momento, todos fingiram não saber.
Não custava nada manter alguma chama de esperança ainda acesa, do contrário, doeria muito.
Colocaram no carro as últimas malas e deram as costas para o próprio passado. Vagarosa a penosamente, o carro afastou-se da casa, afastou-se da rua e em pouco tempo afastava-se dos limites da cidade.
Walter dirigia calado, Leonor tentava dormir e Ana observava as casas ainda fechadas, com pessoas ainda dormindo sob o céu, ainda escuro.
Logo, a noite morreria quando os primeiros raios do sol diluíssem a escuridão.
Por hora, morriam as lembranças e os sonhos que tinham até então.
Pela janela do carro, Moscou despedia-se deles com silêncio e abnegação.
Uma Moscou fria e escura que, de todas as formas, para sempre seria como parte da bagagem da família Kromanov que fora perdida pelo caminho.
"Добрый вечер, Москва*". Ana desejou em pensamento.
Em pouco tempo, a estrada estaria lavada de sol.
Assustada, Ana vestiu-se às cegas, em meio à escuridão que calava o dia ainda não nascido. Estava confusa.
Na cozinha, Walter conferia os armários enquanto Leonor, no andar de cima, certificava-se de que as janelas estavam bem fechadas.
Um amontoado de malas e pacotes feitos com papel pardo aguardava-lhes na entrada da sala. Não levariam muita coisa.
Ana sentou-se à mesa e não conseguiu comer, observava a movimentação silenciosa como quem assiste a um espetáculo.
Voltariam ali algum dia? Era pouco provável.
Desde a morte dos pais, tudo o que os dois irmãos faziam comentar era que a cidade tornara-se grande demais, aos poucos ia engolindo-os.
Ana sabia que não esse não era o motivo da partida. Sabia que Leonor perdera o emprego na tecelagem e a deficiência na mão direita de Walter, causada pelo acidente, arruinava qualquer tentativa de conseguir algum emprego.
As coisas não iam nada bem e, de fato, a cidade crescera desvirtuosa e isso os corrompera.
Ana sabia, mas fingia não saber. Só fingia.
Alguém derrubara migalhas de pão na cadeira, ela as sentia sob suas coxas.
Sentiria falta de muita coisa, para não dizer, de tudo: das noites intermináveis quando ficavam jogando cartas após o jantar, os três, e Walter narrava as atrocidades que presenciara no centro da cidade ou no portão da fábrica, enquanto fumava um ou dois cigarros de São Petersburgo; das muitas idas à igreja, onde Leonor certa vez adquirira um admirador drasticamente devoto que fazia Ana e Walter rirem-se furtivamente com as peripécias pelo rapaz realizadas para conseguir sentar-se ao lado de Leonor; das comemorações típicas que costumavam fazer no dia de São Nicolau e enfim, sentiria falta da casa propositalmente desorganizada e quase mal-cuidada que servira-lhes de abrigo e fortaleza, um verdadeiro lar até então.
Era num momento como esse e somente como esse que Ana indignamente imaginava como tudo poderia ser diferente se os pais não estivessem mortos.
Já fazia muitos anos desde o acidente, Walter e Leonor eram muito bons para ela e o mais importante: eles se amavam. Isso mudava quase tudo.
Quase.
Não sanava a apreensão de que os pais poderiam ter melhores resoluções.
A mesma pessoa que derrubara os farelos de pão na cadeira sujara a faca da manteiga com geléia.
"Walter?". Leonor aparecera na cozinha segurando um velho álbum de fotografias. "Será que podemos levar pelo menos est...?".
"Claro, Leonor, leve quantas você quiser, está bem?" Walter respondeu antes que ela terminasse de perguntar. Parecia não estar prestando muita atenção.
Leonor concordou com um aceno de cabeça e desapareceu pelo portal de entrada da cozinha.
"Coma logo alguma coisa, Annocha, ou então vai acabar sentindo fome muito cedo.". Ele completou.
Ana não obedeceu, encarou-lhe nos olhos profundamente. Walter era bastante parecido com pappucha, especialmente nos olhos.
Ele retribuiu-lhe o olhar cansado, por um momento pareceu-lhe que ele diria para que voltasse à seu quarto e dormisse outra vez, que tudo fora cancelado e eles não precisavam mais ir embora.
Ela estava enganada.
"Será que podemos passar na casa de Tânia?". Leonor tornara à cozinha. "Prometi a ela que iria me despedir... Queria dar uma ultima olhada no Monoko".
Walter demorou a responder como se o que dissesse pudesse mudar completamente a vida de Leonor.
"Monoko vai ficar bem Lennocha, ele é um bom cachorro". Ele pousou a xícara que estava segurando desde que Ana descera e envolveu Leonor num abraço.
Ana reparou que lágrimas finas e amargas escorriam dos olhos de ambos. Não entendeu: se era tão doloroso, porque é que tinham que partir?
Porque é que não podiam simplesmente ficar ali, como haviam feito até então, sem precisar abrir mão de tudo: da casa, dos pais mortos, do cachorro, da esperança?
Demorou-se ainda alguns instantes a observá-los até juntar-se aos irmãos.Por um tempo que poderia ser anos ou menos de um minuto, os três ficaram ali: pés descalços, malas semi-prontas, louça suja e a saudade.
Mal tinham ido e já estavam sentindo saudade.
Foi Walter quem falou primeiro:
"Vai ficar tudo bem, eu prometo à vocês duas. Agora vão, vão e aprontem-se o mais breve possível".
Leonor secou os olhos na manga do vestido. Nunca um desejo fora tão forte naquela casa como era o de não precisar se aprontar.
Ana espiou pela única janela ainda aberta.
"Quantas horas para o sol nascer?". Perguntou distraída.
"Duas ou três, Annocha”. Walter respondeu. "Tudo pronto, Leonor? Espere então eu buscar as chaves...". E dizendo isso, foi até o antigo quarto dos pais com passos pesados e ar apreensivo.
Levariam as chaves mais antigas também.
Ana conferia se empacotara os livros que ganhara no último aniversário enquanto Leonor guardava o que sobrara do café da manhã para comerem durante a viagem.
Em poucos minutos estavam todos na calçada e Walter trancava o portão pela última vez.
Ana sabia que não voltariam. Walter e Leonor também. Por um momento, todos fingiram não saber.
Não custava nada manter alguma chama de esperança ainda acesa, do contrário, doeria muito.
Colocaram no carro as últimas malas e deram as costas para o próprio passado. Vagarosa a penosamente, o carro afastou-se da casa, afastou-se da rua e em pouco tempo afastava-se dos limites da cidade.
Walter dirigia calado, Leonor tentava dormir e Ana observava as casas ainda fechadas, com pessoas ainda dormindo sob o céu, ainda escuro.
Logo, a noite morreria quando os primeiros raios do sol diluíssem a escuridão.
Por hora, morriam as lembranças e os sonhos que tinham até então.
Pela janela do carro, Moscou despedia-se deles com silêncio e abnegação.
Uma Moscou fria e escura que, de todas as formas, para sempre seria como parte da bagagem da família Kromanov que fora perdida pelo caminho.
"Добрый вечер, Москва*". Ana desejou em pensamento.
Em pouco tempo, a estrada estaria lavada de sol.
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