Alucina -a- ação
Só acontece em dias como hoje.
A cabeça parece ter sofrido uma espécie de pancada muito forte, a dor vem em movimentos sistemáticos, como se seguisse as notas de uma partitura musical. De dentro para fora. Pesa.
As mãos estão quentes, tão quentes que aparentar estarem envolvidas por uma espécie de luva invisível, irreiterável. Estão quentes e ásperas também. É a mesma coisa com os pés. Os lábios parecem emitir silvos a cada palavra, ou então, assovios involuntários.
Tudo se torna tão incômodo a ponto de não repararmos. Os olhos lutam para não se fecharem, lutam para enxergar, quase ardem. A respiração espaçada acompanha a latência na cabeça e aos poucos ambas convertem-se numa sonolência enigmática, invencível.
Surgem seqüências de imagens.
Minha mãe sentada no sofá, o aparelho televisor emitindo sons abafados pela forte chuva que alaga o quintal e escorre pelo vidro da janela mal trancada.
O material do tapete deixa marcas dolorosas nos meus joelhos nus. O antigo agasalho feito de lã cor-de-vinho com um desenho pitoresco do Mickey está bem à minha frente.
Estamos em meados de maio ou junho há anos atrás.
Rostos envelhecidos brigam pela pedra maior no bingo, minhas mãos estão sujas de bolo de fubá.
Agora, durmo embalada num sono profundo na cama da casa dos meus avós, alguém está chorando.
Ouço um piano tocar, um homem cabeludo percorre as teclas do instrumento com seus dedos longos e esbranquiçados, as notas emitem um cheiro familiar, agradável.
Há um imenso forno com pão recém-sovado esperando ser assado. O forno cresce, me engole. As chamas lambem meu corpo e cegam meus olhos com suas luzes azuladas. Há cheiro de gás de cozinha.
Bolas, bolas e mais bolas coloridas, como uma grande piscina de bolinhas, por toda parte. Há vômito também.
Uma mulher entra correndo, têm as mãos e a roupa ensangüentada, grita por socorro. A mulher é minha mãe.
Centenas de crianças choram por um motivo qualquer, berram, esperneiam, tenho que acalmar a todas. Sinto pânico.
Abandono a casa, corro por uma rua distinta, estou descalça. Chego à praia. Vejo a extensão do mar em todo o horizonte, seu barulho, sua brisa. Desejo por estar lá, desejo a água atingindo meus pés.
Meus pés já não estão descalços, foram envoltos por um par de botas de ferro há muitos anos. A ferrugem das botas dilacera minha carne. Volto a olhar o mar e quando me aproximo percebo que se tratava de uma grande ilusão. Estou frente a um grande painel que imita a praia. Na verdade, não imita a nada, são linhas, curvas e arabescos de uma arte abstrata que me hipnotizou. Quero ir embora, não posso.
Vejo-me presa em um quarto que certa vez visitei numa bienal de artes. As paredes azuladas exibem símbolos estranhos.
Voltam as crianças gritantes, a mulher ensangüentada, as bolas coloridas, há um cheiro adocicado no ar, um gosto de bubbaloo de uva.
No meio de tantos gritos e lamentos estridentes, ouço o telefone tocar.
-Escola Nacional de Teatro.
-Flá? Tudo bem com você?
-Ah, oi! Tudo, tudo sim... Cara, acho que quase cochilei aqui...
Esse calor ainda vai me matar!
A cabeça parece ter sofrido uma espécie de pancada muito forte, a dor vem em movimentos sistemáticos, como se seguisse as notas de uma partitura musical. De dentro para fora. Pesa.
As mãos estão quentes, tão quentes que aparentar estarem envolvidas por uma espécie de luva invisível, irreiterável. Estão quentes e ásperas também. É a mesma coisa com os pés. Os lábios parecem emitir silvos a cada palavra, ou então, assovios involuntários.
Tudo se torna tão incômodo a ponto de não repararmos. Os olhos lutam para não se fecharem, lutam para enxergar, quase ardem. A respiração espaçada acompanha a latência na cabeça e aos poucos ambas convertem-se numa sonolência enigmática, invencível.
Surgem seqüências de imagens.
Minha mãe sentada no sofá, o aparelho televisor emitindo sons abafados pela forte chuva que alaga o quintal e escorre pelo vidro da janela mal trancada.
O material do tapete deixa marcas dolorosas nos meus joelhos nus. O antigo agasalho feito de lã cor-de-vinho com um desenho pitoresco do Mickey está bem à minha frente.
Estamos em meados de maio ou junho há anos atrás.
Rostos envelhecidos brigam pela pedra maior no bingo, minhas mãos estão sujas de bolo de fubá.
Agora, durmo embalada num sono profundo na cama da casa dos meus avós, alguém está chorando.
Ouço um piano tocar, um homem cabeludo percorre as teclas do instrumento com seus dedos longos e esbranquiçados, as notas emitem um cheiro familiar, agradável.
Há um imenso forno com pão recém-sovado esperando ser assado. O forno cresce, me engole. As chamas lambem meu corpo e cegam meus olhos com suas luzes azuladas. Há cheiro de gás de cozinha.
Bolas, bolas e mais bolas coloridas, como uma grande piscina de bolinhas, por toda parte. Há vômito também.
Uma mulher entra correndo, têm as mãos e a roupa ensangüentada, grita por socorro. A mulher é minha mãe.
Centenas de crianças choram por um motivo qualquer, berram, esperneiam, tenho que acalmar a todas. Sinto pânico.
Abandono a casa, corro por uma rua distinta, estou descalça. Chego à praia. Vejo a extensão do mar em todo o horizonte, seu barulho, sua brisa. Desejo por estar lá, desejo a água atingindo meus pés.
Meus pés já não estão descalços, foram envoltos por um par de botas de ferro há muitos anos. A ferrugem das botas dilacera minha carne. Volto a olhar o mar e quando me aproximo percebo que se tratava de uma grande ilusão. Estou frente a um grande painel que imita a praia. Na verdade, não imita a nada, são linhas, curvas e arabescos de uma arte abstrata que me hipnotizou. Quero ir embora, não posso.
Vejo-me presa em um quarto que certa vez visitei numa bienal de artes. As paredes azuladas exibem símbolos estranhos.
Voltam as crianças gritantes, a mulher ensangüentada, as bolas coloridas, há um cheiro adocicado no ar, um gosto de bubbaloo de uva.
No meio de tantos gritos e lamentos estridentes, ouço o telefone tocar.
-Escola Nacional de Teatro.
-Flá? Tudo bem com você?
-Ah, oi! Tudo, tudo sim... Cara, acho que quase cochilei aqui...
Esse calor ainda vai me matar!
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