Abigail

Quem eram aqueles rostos nos retratos?
Quem era o casal em preto-e-branco que sorria na maioria das fotos presentes?
Quem eram as crianças pequeninas vestidas das mais variadas formas e cores?
Que eram todos aqueles lugares estranhos, com céus muito azuis e casas muito bonitas?
Onde é que estava naquele momento?
De quem era aquele tapete sobre seus pés ou mesmo as roupas que estava vestindo?
Porque é que havia um silêncio cortante no ar e tantos vasos com plantinhas por todo o quintal?
De onde surgiram tantas folhas secas para serem varridas ou mesmo as panelas naquele armário verde claro da cozinha?
Como foram colocado aqueles azulejos estampados, formando um mosaico de imagens repetitivas que se condensavam com todas aquelas toalhinhas de tricot e pratos de vidro marrom?
Quando é que viera parar ali?
Uma moça bonita sentada no sofá da sala, falava ao telefone com alguém que não se podia identificar. Ela parecia preocupada.
Um menino corria pelo corredor com um brinquedo nas mãos, um contentamento infantil pouco visto naquele lugar tão quieto.
O que faziam ali?
Um rapaz tinha lágrimas nos olhos. Porque é que ele andara chorando?

Sentou-se com dificuldade numa cadeira estofada, próxima à moça que estava ao telefone. Abigail sentiu certa simpatia pela figura esguia ao seu lado.
Nunca a vira antes, mas teve um súbito desejo de abraçá-la. Pena que não a conhecia o suficiente para fazê-lo.
O rapaz choroso aproximou-se da moça e segurou suas mãos. Ela sorriu-lhe com pesar.

Ele então, veio em direção a Abigail. O que é que iria fazer?
Abigail encolheu-se.

-Quem é você? O que é que está fazendo aqui? Vá embora... Vá embora!
Ela pediu assustada.

-Mãe... Sou eu! - Ele disse suplicante.

- Eu não sou a sua mãe, moço! Já disse que não sou. Vá embora, por favor!
Abigail pediu outra vez.

O rapaz chamara-na de mãe, isso a incomodara. Quem é que ele pensava ser?
Aquela casa estava cheia de doidos. Ela precisava sair dali.
Olhou para a moça ao telefone em busca de auxílio, ela continuava falando. Parecia falar uma língua desconhecida, não conseguia entender.
Levantou-se num sobressalto. Tinha que sair dali.

-Eu vou embora daqui. Tenho que ir embora daqui. Vou para minha casa.

-Mas você está em casa, mãe. Está aqui já.
O rapaz tentava impedi-la, mas seu sucesso era tal quanto o sucesso em segurar as lágrimas que escorriam copiosamente de seus olhos.

Subitamente, a moça levou o telefone ao gancho.

- Ângela, diga a ela. Diga a ela que ela está em casa, Ângela. Ela está falando estranho outra vez.
O rapaz pediu à moça.

- Mãe, por favor.
Ângela parecia cansada.

- Eu não sou a sua mãe, moça! Vocês não entendem? Eu quero ir embora desse lugar, eu não gosto daqui.
Abigail estava começando a ficar assustada. Porque é que aqueles dois não a deixavam ir embora? Teria ela sido seqüestrada ou coisa que o valha? Será que havia alguém em algum lugar procurando-a. Definitivamente. Os filhos, os filhos deviam estar esperando-na voltar para casa.
Precisava dizer isso à eles.

- Escutem, meus filhos estão em casa, estão sozinhos em casa. Eles são pequenos, bem pequenos, tão pequenos quanto esse rapazinho brincando com o pião, veja. - Abigail apontou Gabriel que se distraía com um pião de madeira num canto da sala.

- Mãe, nós somos os seus filhos. A senhora não se lembra? Nós já crescemos, já estamos bem grandes, veja! E a senhora está em casa, estamos aqui com você... Por favor, entenda... - O rapaz tentou aproximar-se novamente.

Abigail afastou-se como que repelida por seu contato. Não estava gostando daquilo. Se aqueles realmente fossem seus filhos, ela iria se lembrar. A moça sentou-se no sofá, próxima ao menininho que brincava com o pião de madeira.

- Saia daqui, por favor! Os meus filhos são pequenos, pequenos iguais a ele...

- Não! Mãe, esse é o seu neto, o Gabriel, lembra? EU sou o seu filho, Bernardo, lembra? E a Ângela também é sua filha, minha irmã, lembra? Lembra, mãe?
O rapaz parecia descontrolado. Isso tornava tudo ainda mais assustador. Abigail já não estava entendendo mais nada. Porque diabos ele não parava de chorar?

Ângela ficou um tempo observando o filho brincar com o pião, depois lhe afagou carinhosamente os cabelos louros.

-Bernardo, não adianta. Sabemos que não tem mais jeito...

- Não, Ângela! NÃO! Ontem mesmo, ontem mesmo ela se lembrou! Ela se lembrou do papai e comentou que sentia a falta dele e...

- Ela nem sabia de quem estava falando! Bernardo, é como os médicos disseram, é só uma questão de tempo até que ela esqueça completamente de tudo e de todos...

- Não, Ângela! - Bernardo insistiu - Ela vai ficar boa! Tem que ficar! TEM QUE FICAR!

Gabriel olhou assustado para o tio irritado. O que é que uma criança de cinco anos pensava daquilo tudo?
Ele não pensava, só assistia. Bem como Abigail, assistia como quem assiste a um filme aquela cena: o rapaz chorando e gritando por algum motivo que ela desconhecia, a moça bonita tentando dizer-lhe alguma coisa, o menino com o pião. O pião.
O pião era uma coisa bonita. O menino enrolava o barbante nele com certa dificuldade, depois puxava com força e ele rodava. Rodava, rodava e rodava como rodava aquele barulho na cabeça de Abigail. Que gente mais desajustada! Imagine, ficar gritando desse jeito na casa dos outros, era desaforo. Ela iria ensinar muito bem aos filhos para nunca fazerem isso. Respeito é muito importante. Pobre dono da casa. Quem será que morava ali? Não se importava, por hora só queria olhar o pião rodar. Rodava até cansar, aí o menino pegava de volta e passava o barbante, soltava de novo. E de novo. E de novo. E de novo.
Os dois barulhentos continuavam discutindo. O rapaz chorava cada vez mais, a moça parecia estar irritada. Que falta de classe. O pião era bonito. Bem bonito.

- Eu prefiro que ela fique aqui, Ângela, conosco!

- Mas, Bernardo, lá ela receberá todos os cuidados de que precisa.

- Podemos cuidar muito bem dela aqui! Estou lhe dizendo...

- Não! Eu já ajeitei tudo, semana que vem vamos até lá assinamos os papéis. Não custa tão caro e...

- Já disse que sou contra! Como filhos dela devemos ao menos demonstrar gratidão, não vamos entregá-la a um bando de desconhecidos!

- Aqui nós somos como desconhecidos também! Você não vê que ela nem ao menos sabe quem somos? Que diferença faz? Sem contar que vai chegar uma hora em que não teremos mais controle...

Eles continuavam falando alto. Que inconvenientes!
O melhor a fazer era realmente sair dali, quanto antes melhor. Iria para casa, beijaria o marido, faria o almoço para os filhos e os ensinaria como se comportar devidamente. Principalmente na casa dos outros.
Aproximou-se do menino com o pião.

- Gabriel! Psiu! Venha cá... - Chamou num sussurro - A vovó vai embora agora.

Gabriel sorriu, deu-lhe um abraço forte e entregou-lhe o pião com o qual estivera brincando todo esse tempo.
Abigail agradeceu e pé ante pé, rumou para a porta da frente.
Do portão, ainda pôde ouvir as vozes rancorosas dos dois estranhos barulhentos.
Finalmente iria para casa, levaria o pião de presente a Bernardo e Ângela.

Que alívio! Nunca mais precisaria voltar naquele lugar esquisito.

Comentários

Webmaster disse…
Vi todas suas fotos do Flickr, mto legal! a do pulmão entaum...
bjus

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