Dolor interior


Angústia, crime, volúpia, paixão contida, desejo inflamável, tudo, nada, tudo outra vez e o vácuo. Uma tristeza repentina que promete domínio, loucura, promete ser eterna, tão eterna quanto um minuto pode ser. Palavras ao vento e sonhos despedaçados. Solidão.
Ela olhou para o lado e ele não estava ali, e nem chegaria tampouco.
Clara suspirou, observou ao redor e constatou que toda a vastidão do mundo se anulara por completo para seus olhos. Num instante ela tinha em seu campo de visão muito mais do que todo o ar que preenchia seus pulmões, ela o tinha fisgado ali, totalmente com ela.
Seria isso verdade?
No outro instante, ele ia para longe, afastava-se fisicamente do seu alcance e ficava cada vez mais aprisionado em sua mente. Clara amava uma imagem, essa imagem era clara.
Clara, e não Clara.
Tratava-se de uma utopia redundante e exagerada, apenas mais um ideal alimentado por suas fantasias de menina, já não tinha retorno e nem idade. Rendera-se ao ponto de crer que qualquer cor ou tom diferente dos que diziam respeito a ele, eram assim desagradáveis. Sofria em demasia por alguém cujo talento alcançava as estrelas, alguém que mal sabia da sua existência e muito provavelmente nunca viria a saber. Isso doía. Doía intensa e profundamente muito mais forte do que qualquer outra espécie de dor.
Uma ferida dilacerante corroia em sua alma e já não era importante o tamanho de seus esforços, ela não seria capaz de estancar o sangue que perdia, tampouco fazer cicatrizar ou coisa que o valha.
Era perda de tempo tentar lutar numa situação tão vã.
Era como se todas as luzes se apagassem e o ser humano perdesse a importância para a própria existência. Ela seria capaz de qualquer coisa, estaria disposta a abdicar de tantos fatores que procurava nem perder tempo enunciando-os.
Seus olhos pesavam, a cabeça doía, os pés latejavam e o estômago remexia. As entranhas estavam em farrapos. Não pretendia continuar existindo uma vez que todas as realidades eram-lhe hostis: ele não estava em parte alguma.
Não seria capaz de perceber ou mesmo tratar as pessoas do seu cotidiano com a mesma igualdade de antes. Adquirira uma patente renomada, uma referência inconstante, uma base fatal onde estabeleceria todas as suas expectativas, seus anseios, sua fascinação.
Tinha a ele como uma estrutura de desejo para ser eternamente contemplada, para servir de comparativo soberano e de razão à sua desilusão e sentimentos insatisfatórios.
Não havia espaço para novos focos ou adorações: era o fim.
Chorou um choro baixinho. Sonhou sonhos densos. Viveu uma vida infeliz por amar um amor inventado.


Clara estava morrendo e não sabia.

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