Fatos inacabados
Queria saber todas as histórias. Queria ler todos os livros. Queria poder cantar todas as canções. Queria conhecer todos os lugares. Marília queria muitas coisas, desde muito jovem.
Sentada sobre o tapete da sala, mergulhava nas lembranças que aqueles antigos álbuns de fotos guardavam. Era difícil encontrar alguém que ainda se interessasse por eles, os dias andavam modernos demais.
Engraçado era a facilidade com que Marília ia e vinha no tempo através daqueles retratos... Fechava os olhos por um instante e podia reviver, com riqueza de detalhes, cada vão momento que estava ali registrado, por mais singelo ou distante que fosse. Talvez esse fosse um dom humano que poucos ousavam explorar, talvez fosse apenas um sentido nostálgico de seu espírito.
Algumas fotos lhe traziam à tona sensações das mais indescritíveis... Outras, indiferença. Quase conseguia ouvir vozes, sentir cheiros, estremecer. Fizera bem em manter tudo aquilo intacto, na verdade fizera muito bem.
Ali estavam escritas, milhares de histórias que jamais poderiam ser contadas, mesmo que se usassem todos os livros ou que se escrevessem todas as canções. Poderia percorrer todos os lugares do mundo, mas não conseguiria chegar ali novamente, hoje em dia, não mais.
Parou por um instante e fitou a janela sem muito interesse, já havia poetizado o suficiente, afinal a realidade nunca é tão poética assim... às vezes é profana, profunda, mas nunca poética.
Naquele instante então sentiu. Uma dor, uma dor forte, grande, grotesca, agonizante a ponto de quase fazê-la retorcer-se... Depois, passou. Desapareceu com a mesma rapidez com que surgiu.
Fazia muitos dias que aquela dor a perseguia, envolvia, dominava. Dias? Já fazia meses... Tempo demais. Tanto tempo, que a dor já era Marília, de modo que Marília era só dor.
Marília queria amar. Ela queria amar a alguém da maneira mais verdadeira e incondicional, mais profunda, mais profana, mais poética, mesmo que fosse vulgar. Queria amar como amam as mocinhas nos filmes de cinema, as heroínas nas peças de teatro, os casais nos romances de banca de jornal. Queria um amor assim, e pronto. Teria idade para isso? Não é necessário ter idade quando se busca a insanidade, pensou.
Olhou no relógio, quase quatro horas... Ficava tarde, mas ainda havia tempo, teria de haver algum tempo.
Mais uma vez a dor, Marília enlouquecia. Forte, forte como nunca os intervalos eram cada vez menores, as coisas se tornavam cada vez piores. Colocou o rosto entre as mãos por alguns instantes, havia passado. Estava cansada. A dor de Marília nascera nas velhas cartas, nos distantes telefonemas, nos planos nunca realizados, nos risos adormecidos, nos sonhos já esquecidos e tempos menos remotos onde nada era tão estático. A dor de Marília era saudade.
Uma saudade impertinente que era alimentada com falsas esperanças e alguns e-mails vazios.
Isabel partira há cerca de sete meses, um pouco mais ou quem sabe um pouco menos... Na verdade há sete meses de 23 dias, Marília contara. A única pessoa que tinha o poder de transformar em especial todos os dias de sua vida, por mais ordinários que fossem, já não estava mais a apenas uma condução de sua casa.
Ela podia lembrar como se tivesse ocorrido há um minuto, tudo fora rápido demais. Desde quando ela a conhecera, o universo ficara muito mais amplo e a vida infinitivamente mais bela. A notícia de que Isabel iria para Londres foi para Marília um terremoto interior que fez desmoronar todas as estruturas de seu ser. Havia sido quatro anos por demais felizes para que acabassem assim: reduzidos a hiatos de comunicação sem previsão de nada.
Marília jamais poderia tê-la acompanhado, jamais. Procurava lembrar-se disso a cada instante na tentativa ilusória de conformar-se, de justificar aquilo tudo... Pura ilusão, sendo que nada a prendia ali, nada. Desviou o olhar da janela, seria isso mesmo?
Nunca mais sorriu com tanta vontade, nunca mais dançou até amanhecer. Acabaram-se os telefonemas de madrugada e os passeios inusitados. Era como se, de um dia para o outro, Marília não mais pudesse enxergar, andar ou falar, apesar do mundo todo estar exatamente igual em suas hipocrisias e mediocridades.
Mais uma vez a saudade perfurou seu coração, conseguindo arrancar-lhe um suspiro. Sete meses e 23 dias que não recebera nada além de algumas notícias breves... Existem certas pessoas que jamais vão nos satisfazer com apenas notícias breves, eram muitos fatos inacabados para que Marília aceitasse aquilo.
Porque Isabel agia assim? Porque ela parecia não se importar com o que Marília sentia, com o quanto Marília sofria? Porque não sabia. Não sabia a intensidade com que Marília pensava nela. Isabel não sabia o quanto Marília havia se tornado dependente dela após sua partida. Não sabia que a solidão e o desespero de Marília se intensificavam a cada hora mais.
Isabel não poderia supor que Marília a amava daquela maneira... Nem Marília!
Foi como se uma sirene tocasse anunciando um incêndio. Marília voltou à realidade, ao plano físico daquela sala e, finalmente, sentiu o tapete. Era como se, o tempo todo, ela já soubesse o que fazer, mas não sabia como começar. Bastava algumas palavras, e seria livre.
Levantou-se num salto.
"Mateus?" Perguntou impaciente ao telefone. "Eu não posso fazer isso... Me desculpe, eu não amo você”.
Sem esperar resposta levou o fone ao gancho. No sofá, o véu e a grinalda ficaram largados. Ainda vestida de branco e renda saiu apressada. Precisava comprar uma passagem para Londres. A dor da saudade, tão presente momentos antes, transformou-se em contentamento, Marília amava. Amava da maneira mais verdadeira e incondicional, mais profunda, mais profana, mais poética, mesmo sendo vulgar. Amava como amavam as mocinhas nos filmes de cinema, as heroínas nas peças de teatro, os casais nos romances de banca de jornal. Não! Ela amava muito mais!
Amava não ter mais que se casar com Mateus dali a algumas horas. Amava a expectativa do novo mundo que ela fazia nascer. Amava o sol alaranjado daquele fim de tarde e mais do nunca: Marilia agora amava o fato de ver-se apaixonada por outra mulher.
Aquilo era algo que nem os velhos álbuns de fotografia poderiam revelar, mesmo tendo ali, tanto sobre ela mesma.
[N. da A. - Vamos parar por aqui. Quando Marília chega na Inglaterra, tudo fica um bocado pungente para meu gosto, afinal, Isabel lhe tinha muito amor, é claro, mas talvez esse amor fosse heterossexual demais para um desfecho interessante, ou coisa que o valha. Infelizmente, nem todas conseguem ser como Nicole e Beatriz, se bem que gostei dessa combinação de nomes.].
Sentada sobre o tapete da sala, mergulhava nas lembranças que aqueles antigos álbuns de fotos guardavam. Era difícil encontrar alguém que ainda se interessasse por eles, os dias andavam modernos demais.
Engraçado era a facilidade com que Marília ia e vinha no tempo através daqueles retratos... Fechava os olhos por um instante e podia reviver, com riqueza de detalhes, cada vão momento que estava ali registrado, por mais singelo ou distante que fosse. Talvez esse fosse um dom humano que poucos ousavam explorar, talvez fosse apenas um sentido nostálgico de seu espírito.
Algumas fotos lhe traziam à tona sensações das mais indescritíveis... Outras, indiferença. Quase conseguia ouvir vozes, sentir cheiros, estremecer. Fizera bem em manter tudo aquilo intacto, na verdade fizera muito bem.
Ali estavam escritas, milhares de histórias que jamais poderiam ser contadas, mesmo que se usassem todos os livros ou que se escrevessem todas as canções. Poderia percorrer todos os lugares do mundo, mas não conseguiria chegar ali novamente, hoje em dia, não mais.
Parou por um instante e fitou a janela sem muito interesse, já havia poetizado o suficiente, afinal a realidade nunca é tão poética assim... às vezes é profana, profunda, mas nunca poética.
Naquele instante então sentiu. Uma dor, uma dor forte, grande, grotesca, agonizante a ponto de quase fazê-la retorcer-se... Depois, passou. Desapareceu com a mesma rapidez com que surgiu.
Fazia muitos dias que aquela dor a perseguia, envolvia, dominava. Dias? Já fazia meses... Tempo demais. Tanto tempo, que a dor já era Marília, de modo que Marília era só dor.
Marília queria amar. Ela queria amar a alguém da maneira mais verdadeira e incondicional, mais profunda, mais profana, mais poética, mesmo que fosse vulgar. Queria amar como amam as mocinhas nos filmes de cinema, as heroínas nas peças de teatro, os casais nos romances de banca de jornal. Queria um amor assim, e pronto. Teria idade para isso? Não é necessário ter idade quando se busca a insanidade, pensou.
Olhou no relógio, quase quatro horas... Ficava tarde, mas ainda havia tempo, teria de haver algum tempo.
Mais uma vez a dor, Marília enlouquecia. Forte, forte como nunca os intervalos eram cada vez menores, as coisas se tornavam cada vez piores. Colocou o rosto entre as mãos por alguns instantes, havia passado. Estava cansada. A dor de Marília nascera nas velhas cartas, nos distantes telefonemas, nos planos nunca realizados, nos risos adormecidos, nos sonhos já esquecidos e tempos menos remotos onde nada era tão estático. A dor de Marília era saudade.
Uma saudade impertinente que era alimentada com falsas esperanças e alguns e-mails vazios.
Isabel partira há cerca de sete meses, um pouco mais ou quem sabe um pouco menos... Na verdade há sete meses de 23 dias, Marília contara. A única pessoa que tinha o poder de transformar em especial todos os dias de sua vida, por mais ordinários que fossem, já não estava mais a apenas uma condução de sua casa.
Ela podia lembrar como se tivesse ocorrido há um minuto, tudo fora rápido demais. Desde quando ela a conhecera, o universo ficara muito mais amplo e a vida infinitivamente mais bela. A notícia de que Isabel iria para Londres foi para Marília um terremoto interior que fez desmoronar todas as estruturas de seu ser. Havia sido quatro anos por demais felizes para que acabassem assim: reduzidos a hiatos de comunicação sem previsão de nada.
Marília jamais poderia tê-la acompanhado, jamais. Procurava lembrar-se disso a cada instante na tentativa ilusória de conformar-se, de justificar aquilo tudo... Pura ilusão, sendo que nada a prendia ali, nada. Desviou o olhar da janela, seria isso mesmo?
Nunca mais sorriu com tanta vontade, nunca mais dançou até amanhecer. Acabaram-se os telefonemas de madrugada e os passeios inusitados. Era como se, de um dia para o outro, Marília não mais pudesse enxergar, andar ou falar, apesar do mundo todo estar exatamente igual em suas hipocrisias e mediocridades.
Mais uma vez a saudade perfurou seu coração, conseguindo arrancar-lhe um suspiro. Sete meses e 23 dias que não recebera nada além de algumas notícias breves... Existem certas pessoas que jamais vão nos satisfazer com apenas notícias breves, eram muitos fatos inacabados para que Marília aceitasse aquilo.
Porque Isabel agia assim? Porque ela parecia não se importar com o que Marília sentia, com o quanto Marília sofria? Porque não sabia. Não sabia a intensidade com que Marília pensava nela. Isabel não sabia o quanto Marília havia se tornado dependente dela após sua partida. Não sabia que a solidão e o desespero de Marília se intensificavam a cada hora mais.
Isabel não poderia supor que Marília a amava daquela maneira... Nem Marília!
Foi como se uma sirene tocasse anunciando um incêndio. Marília voltou à realidade, ao plano físico daquela sala e, finalmente, sentiu o tapete. Era como se, o tempo todo, ela já soubesse o que fazer, mas não sabia como começar. Bastava algumas palavras, e seria livre.
Levantou-se num salto.
"Mateus?" Perguntou impaciente ao telefone. "Eu não posso fazer isso... Me desculpe, eu não amo você”.
Sem esperar resposta levou o fone ao gancho. No sofá, o véu e a grinalda ficaram largados. Ainda vestida de branco e renda saiu apressada. Precisava comprar uma passagem para Londres. A dor da saudade, tão presente momentos antes, transformou-se em contentamento, Marília amava. Amava da maneira mais verdadeira e incondicional, mais profunda, mais profana, mais poética, mesmo sendo vulgar. Amava como amavam as mocinhas nos filmes de cinema, as heroínas nas peças de teatro, os casais nos romances de banca de jornal. Não! Ela amava muito mais!
Amava não ter mais que se casar com Mateus dali a algumas horas. Amava a expectativa do novo mundo que ela fazia nascer. Amava o sol alaranjado daquele fim de tarde e mais do nunca: Marilia agora amava o fato de ver-se apaixonada por outra mulher.
Aquilo era algo que nem os velhos álbuns de fotografia poderiam revelar, mesmo tendo ali, tanto sobre ela mesma.
[N. da A. - Vamos parar por aqui. Quando Marília chega na Inglaterra, tudo fica um bocado pungente para meu gosto, afinal, Isabel lhe tinha muito amor, é claro, mas talvez esse amor fosse heterossexual demais para um desfecho interessante, ou coisa que o valha. Infelizmente, nem todas conseguem ser como Nicole e Beatriz, se bem que gostei dessa combinação de nomes.].
Comentários
Se você retirar também aqueles livros de conteúdo depravado e filmes de terror da prateleira, a natureza perturbadora de seus textos e de sua personalidade evidentemente diminuiria de maneira considerável.
Quem sabe seu temperamento seria menos insano e se as doses de cafeína diminuíssem, tudo ficaria mais calmo, não?
Pense nisso, little drugue.