Estática

Mais ou menos assim.
Noite fria. Ele estava arrogante. Ela, bonita.
Sorrisos dispersos, olhares difusos. Evitavam estar ali, pareciam tentar de uma maneira cruel e insana transportarem-se para bem longe, longe um do outro. Era evidente.
Isso no caso dele. No dela, era diferente.
Foi ele quem começou.
-Olha, eu não quero magoá-la ainda mais...

Frio e calculista. Ela observou irritada. Qual era a daquele jogo todo?
Ele parecia ter pressa, parecia querer distância. Depois de tudo...

-Se tem uma coisa que eu não sou, é oferecida. Você não precisa ficar assustado. - Ela interrompeu.
Posso ser bem jovem ainda, mas eu bebo, fumo e não sou mais virgem. Se isso vai contra os seus princípios, ou se não é bom o suficiente para você, já não é mais problema meu.

Deu-lhe as costas e desatou a subir a rua escura e deserta. Se ele realmente quisesse, viria atrás dela.
Ela não podia mais esperar. Por dentro, ardia.
Foi o único. O único que ela desejou ardilosamente que a seguisse, que fizesse seu jogo e entregasse as apostas de maneira doentia, afim de levar tudo no final. Tudo.
A decisão era dela. As cartas, dele.
Ele não foi.

Quantas vezes as pessoas queimam todas as chances com um simples gesto?
Incontáveis. A pergunta deveria ser ao contrário. Seria óbvio demais.

Era sempre isso.
Eles apareciam, faziam de seus momentos os melhores, de seu corpo o único.
Depois partiam. Daí, ela se sentia como lixo.
Do que é que adianta?
Assemelhava-se a um vampiro. Uma criatura noturna sempre em busca de prazer irreal, uma busca profana e infinita. Uma saciedade inatingível.
Porque é que tinha de ser tão intocável.
Reviravam-lhe as entranhas aquela singela imagem. Um exibicionismo para a solidão, como um filme nas telas.

Apertou o casaco contra o corpo. O vento frio fazia o chapéu oscilar. Conferiu as horas, cedo.
Cedo para quem compara uma noite a anterior no intuito de expiar contradições.
Desejou poder viver o mês que passara, outra vez.
Como é que as coisas tomaram um rumo como aquele?
De que é que valia todo o talento, se era angústia que ele acabava refletindo?
Quando é que, finalmente iria conseguir o que queria? Se é que queria algo, mesmo alguém...
Faria o que fosse possível, precisava exorcizar aquilo que a devorava por dentro.
Nunca, nunca fora tão rebaixada como acontecera a pouco. No coração uma raiva crescente. Em mente, a lembrança do mês anterior.
Um mês? Quase. Um pouco mais. Talvez um pouco menos.
Hein?

Sem perceber, envelhecia. Os outros não viam, só ela.
Sentia-se cansada, entediada, abandonada, distante.
Pela primeira vez estava magoada, vulnerável, ferida. Ele atingira em cheio.
Quanta audácia!
Logo alguém como ela, cuja independência lutava com a irreverência e o ego para alcançarem o posto máximo.
Ninguém vencia.
Esgotada. Esgotada. Podre.
Humilhação.
O que é que tinha na cabeça para pensar daquela forma?
Onde é que estava seu juízo quando imaginara aquela historinha?
Tudo parecia um carrossel que nunca para de girar. Estava enjoando-a.

Mais dois quarteirões e estaria em casa. Sentiu vontade de chorar.
Chorar?
Ora, faça-me o favor! Não tinha mais idade para isso, ou pelo menos não pensava ter.
Cometera erros a toda hora momentos antes, agora já se considerava curada, justa.
Encontraria mil formas de fazer diferente, encontraria mil rostos para desfigurar.
Pessoas eram como tecidos. Bonitos e feios, baratos e caros, a única razão para sua existência era serem usadas.
Nada mais.
Há quem diria frívola. Não entendia muito bem o sentido dessa palavra.
O relógio dava uma volta completa e batia de novo. Olha lá ela sendo abstrata.
Confusão? Nunca.
Não existe confusão quando se é parte do caos.
Ela era como um furacão, bem no centro.

No outro dia teria esquecido, ou pelo menos até aparecer outro parecido.
Diferente era impossível. Tudo não passava de uma sina maldita, uma espécie de provação assinada inconscientemente.
Dali pra frente, precisava prezar-se como mulher. Ela era boa demais.
Na verdade, era uma verdadeira fantasia.
Pelo que é que se deixava envolver tanto? Não sabia explicar.
Pularia fora, estava perigoso demais.
As apostas dilaceravam-na.

Naquele último minuto, teve dificuldade de encaixar a chave na fechadura da porta para entrar em casa.
Tudo parecia pesar. As costas, destruídas.
-Vem - ela disse ao cachorro - Vamos entrar.

Uma cena vaga, coisa de anos atrás rondava as paredes do quarto.
Como é que era mesmo?

Comentários

Anônimo disse…
Hum, espere um instante, deixe-me ver...

Era uma noite bem fria... E ela estava bem mais do que bonita...
Anônimo disse…
Oi pitoca!
Grandes reflexões!
Beijos

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