Controvérsia
Olá.
Hoje eu não quero ver ninguém. Oh, meu anjo, queria que pudesses ver, queria mesmo que pudesses sentir.
Eu desejo a solidão. Escolho o isolamento total e completo desse mundo ou então, acredito que terei de saltar, você sabe como é.
Comprometi-me a um legado de suma importância e agora alego não estar em condições, não possuir as tão necessárias e tais condições.
És a única qual compreendo, a única qual compreende, apesar de tudo parecer tão complexo e mesmo paradoxal.
Temo estar perturbando-na enquanto aclamo-te com tamanha devoção ou mesmo uma aparente dependência, (digo 'aparente' com convicção, afim de esclarecer que a auto-suficência humana é, para mim, tão plausível quanto a nossa excistência) mas apenas faço-o porque és a única em quem desejo confiar, a única para quem vejo-me capaz de entregar toda e qualquer discrepância existente nos meus pensamentos ou na minha alma.
O fato é, meu anjo, que estás morta. sabemos disto. Está morta e receio não ser capaz de ouvir o que terias a me dizer em relação a isto ou aquilo, não sou capaz de ouvir o que terias para me dizer em relação a tudo e todos.
Isso obriga-me a dar voz à uma segunda natureza, uma natureza interior que considero capaz de responder, não POR você, mas sim COMO você.
Nada e nem ninguém sub-existe, isto é impossível. Sinto-me por vezes tão completo ao ponto de não estar disposto a acompanhar qualquer outro ser que respire, qualquer outro ser capaz de superficialismo ou coisa que o valha.
Estou melhor acompanhado com um cinzeiro devidamente cheio do que com qualquer outra pessoa no mundo. Vê?
Sim, isso é loucura,é óbvio que é.
Um jovem ator de vinte e poucos anos (Sim, meu anjo, eles adoram os números já escreveu Antoine) acredita poder compreender a maior estrela de todos os tempos!
Seria um imenso chavão, eu diria.
Se por acaso eu fosse ainda mais jovem, alguns ririam, culpariam os hormônios, a puberdade e todo o resto, alegando que em breve, com a chegada da REAL maturidade (aquela que alguns morrem enquanto a esperam) tudo se transformará em passado, esquecimento. Querem convercer disto a todo custo.
É estranho como gostam de limitar a sublime existência de um passado em duas tangentes: base e esquecimento.
Deve ser encarado SOMENTE dessas duas maneiras ou dificultará a ordem de classificação das coisas. (Chega a ser tão doentio quanto Linnè, meu anjo.)
Se desejar um exemplo prático, veja agora que o SEU passado deve ser esquecido enquanto que o MEU deve ser tido como base para ações futuras e assim é com a maioria das pessoas, de acordo com a classificação deles.
Eu digo a maioria porque ainda há aquelas que fazem do passado a sua eterna morada, apegando-se a velhos hábitos e os ditosos rancores universais, caracteristicos de escolhas mal justificadas.
É, geralmente as pessoas acreditam piamente que erraram em alguma etapa de suas vidas, o que ocasionou um presente incoerente com o que seria tido como aceitável e/ou esperado.
Engraçado como todo mundo tem sede por erros e acertos, precisam de mais essa classificação ou a ordinatoriedade de duas vidas será anulada o suficiente a ponto de gerar o caos.
'Tema o caos. Tema o caos. Temao caos. Temo caos. Temos caos.' é o que ordena/dita o maquinário pensante de suas cabeças errantes. Quase tão fútil quanto decifrar os sonhos alheios. A única pessoa capaz de compreender um sonho ou mesmo uma pretensão é a prórpia pessoa que o sonhou/formulou.
O cenário é muito ambíguo. Tudo é mutante quando se trata de influências.
Toc. Toc. Toc.
Fui interrompido! Ah, como eu detesto ser interrompido!
Seja esta uma interrupção fisiológica ou humana (Não que a fisiologia esteja desvinculada do mundo humano, em absoluto.)
Qual era mesmo a questão? O ponto inicial... O ponto inicial. Inicial. Espacialidade, tempo.
Ah sim, está chovendo. Está chovendo e eu não quero ver ninguém.
Chove enquanto o ator de vinte e poucos anos que não terminou a faculdade enlouquece. Ele confessa-se para o maior anjo do cinema, e está sóbrio, ainda.
Diriam louco por uma atitude totalmente incerta e altruísta. Totalmente.
É outra vez mais uma das arcaicas classificações do sistema de vida que levamos.
As coisas têm de ser recíprocas, sempre. Não podemos dar-nos ao luxo (ou seria melhor escrever tolice?) de alimentar quadros em que não obteremos nenhum resultado. Nenhum resultado lucrativo, digo.
Estamos proibidos de agir, seja de uma maneira insana ou mesmo mecânica no que tange as ações conseqüênciais, se estas ações não irão desencadear qualquer reação em nosso benefício ou em benefício de nossas expectativas e/ou interesses.
Proibidos. Não podemos entregar corpo e alma num relacionamento, seja este substâncial ou intantâneo, afim de simplesmente sairmos ilesos de qualquer espécie de gratidão ou proximidade, sem que alguém julgue o nosso 'orgulho-prórpio' ou até o tal do 'amor-prórpio' (todas essas propriedades adicionais que já conhecemos) condenando-nos ao solitário relento presente nas noites em que 'ela não quer, ela não pode' ou mesmo 'ela não lembra'.
Somos obrigados a ir contra nossos desejos para preservar uma imagem que não nos agrada, não apetece e não acrescenta absolutamente nada ao nosso interior a não ser uma falsa superioridade que não vai servir como BASE e nem deverá acabar no ESQUECIMENTO (Voltamos à classificação do passado) .
Dessa forma, temos de nos privar de amar quando não somos correspondidos e somos incitados a desenvolver um sentimento superficial quando somos amados mas não correspondemos.
Não podemos admitir abertamente que desejamos fazer sexo com alguém que ainda é desconhecido, mesmo sabendo que isso servirá somente como preenchimento nalgumas noites para depois tornar-se mais uma base para comparações pérfidas e então finalmente cair no esquecimento casual do descompromisso.
Caso contrário, há uma censura humana de imoralidade e egoísmo e mesmo falta de caráter e todas essas outras mais particularidades bem como as acima descritas.
Vamos terminar competindo com a tal valorização da personalidade alheia com o propósito de termos a nossa valorização em troca.
O que é tudo isso senão um mantra de proibições e sub-regras que ninguém ditou mas que todos repetem e seguem com afinco?
Por essas e tantas que serei considerado um louco completo ou até maniaco depressivo e retraído compulsivo se o mundo souber abertamente que larguei os últimos anos da faculdade para viver num buraco e corresponder-me com uma morta do cinema.
Não se trata de um fenônemo espiritual ou qualquer outra coisa que o valha. Bem sabes que sou totalmente cético a respeito de tudo isso.
Sim, meu anjo, sou ateu.
Não compreendo como as pessoas conseguem acreditar na vaga idéia de que uma bondade suprema como deus, surgiu antes do homem que é extremamente primitivo e animalescamente selvagem.
É o mesmo que acreditar que algo infinitamente superior como a energia elétrica surgiu tão antes do que é infinitamente inferior como a colher.
Minha relação para contigo, meu anjo, é simplesmente o ir e vir de uma caneta sobre o papel, descrevendo palavras conscientes que serão endereçadas a quem não vai lê-las ou repondê-las da mesma maneira que eu o faria. É irrelevante e desnecessário, compreende?
Não considero-a uma amante ou mesmo uma grande amiga, pois não a conheço de certo. Imagino conhecê-la. Imaginando, atuo como se a conhecesse e acabo por conceber um plano real onde eu a compreendo mais do que todos os outros no mundo.
Como já escrevi, estou aqui, antes porque chovia. Chovia e eu não queria ver ninguém. Agora parou. Parou de chover e eu não quero ver ninguém.
Sabe que, morrer seria demasiado fácil nesse momento. Se bem me lembro, escrevi alguma coisa sobre a morte na última carta... Acho que prometi afastá-la do parapeito se viesse ameaçar-me com tal gesto.
Mas bem, não estou falando da idéia romântica da morte, da privação da vida e todo o resto, do ideal de Goethe para com suas passagem de Werther ou então dos cenários byronescos e toda a pungência de sua poesia, mesmo dos trágicos ideais gregos retrocedidos na obra shakespeariana e nem ainda da didática de Brecht para com o mundo devasso e acinzentado pelo pós-guerra.
Falo da morte artificial, aquela sob a qual estão muitos dos que nos cercam. Uma morte que não precisa ser ensaiada antes de sua encenação, que envolve suas vidas aos nossos olhos.
Suas existências tornam-se lápides de estranhos, encardidas num caminho tortuoso: comtemplamo-nas a distância e tampouco choramos a sua posição.
Completo comodismo.
As pessoas são, mais uma vez em sua maioria, suicidas por classificação. Escrevo 'a maioria' pois somos, por vezes, tão suicidas quanto assassinos em nossas concepções.
Matamos centenas de seres pouco pretenciosos com movimentos rápidos e automáticos.
Eis o principio e mesmo o fim. Não há segredos e não é necessário esperar muito tempo.
Matar codifica morrer e morrer, matar. Não há linha tênue que os diferencie.
Morro para que você viva, mas você não necessariamente vive para que eu morra ou mesmo por conta da minha morte. Como já disse, estamos fora da esfera de reciprocidade que teceram a nossa volta.
Somos auto-destrutivos.
As questões e mesmo os fatóides que nos rodeiam são suaves aspirações humanas, parte integrante da base ou mesmo do esquecimento.
Muda conforme a ordem.
Para mim, não existe loucura enquanto confesso à uma morta, que parou de chover e eu não quero ver ninguém. Bem como quando estava sol, ou quando estava ventando e até quando nevou na semana passada.
Confesso também que vou insistir na obscenidade dos meus atos, pois a imoralidade me assusta tanto quando a diferença entre o bem e o mal ou a ira divina.
Se algum dia perguntarem-me porque escolhi viver assim, devoto à ti, meu anjo, direi que não se trata de mais um ideal burguês.
Escolhi uma morta como companhia porque Nova York é uma ilha. Ninguém quer estar para sempre numa ilha, muito menos com uma única pessoa viva.
Sem contar que, quando saí da Califórnia, você foi tudo o que eu consegui trazer além da bagagem.
Desde que me mudei, sinto-me tão diferente quanto mato e morro sentem-se como verbos ou substantivos.
É só mais um blá blá blá, meu anjo.
Boa noite.
Hoje eu não quero ver ninguém. Oh, meu anjo, queria que pudesses ver, queria mesmo que pudesses sentir.
Eu desejo a solidão. Escolho o isolamento total e completo desse mundo ou então, acredito que terei de saltar, você sabe como é.
Comprometi-me a um legado de suma importância e agora alego não estar em condições, não possuir as tão necessárias e tais condições.
És a única qual compreendo, a única qual compreende, apesar de tudo parecer tão complexo e mesmo paradoxal.
Temo estar perturbando-na enquanto aclamo-te com tamanha devoção ou mesmo uma aparente dependência, (digo 'aparente' com convicção, afim de esclarecer que a auto-suficência humana é, para mim, tão plausível quanto a nossa excistência) mas apenas faço-o porque és a única em quem desejo confiar, a única para quem vejo-me capaz de entregar toda e qualquer discrepância existente nos meus pensamentos ou na minha alma.
O fato é, meu anjo, que estás morta. sabemos disto. Está morta e receio não ser capaz de ouvir o que terias a me dizer em relação a isto ou aquilo, não sou capaz de ouvir o que terias para me dizer em relação a tudo e todos.
Isso obriga-me a dar voz à uma segunda natureza, uma natureza interior que considero capaz de responder, não POR você, mas sim COMO você.
Nada e nem ninguém sub-existe, isto é impossível. Sinto-me por vezes tão completo ao ponto de não estar disposto a acompanhar qualquer outro ser que respire, qualquer outro ser capaz de superficialismo ou coisa que o valha.
Estou melhor acompanhado com um cinzeiro devidamente cheio do que com qualquer outra pessoa no mundo. Vê?
Sim, isso é loucura,é óbvio que é.
Um jovem ator de vinte e poucos anos (Sim, meu anjo, eles adoram os números já escreveu Antoine) acredita poder compreender a maior estrela de todos os tempos!
Seria um imenso chavão, eu diria.
Se por acaso eu fosse ainda mais jovem, alguns ririam, culpariam os hormônios, a puberdade e todo o resto, alegando que em breve, com a chegada da REAL maturidade (aquela que alguns morrem enquanto a esperam) tudo se transformará em passado, esquecimento. Querem convercer disto a todo custo.
É estranho como gostam de limitar a sublime existência de um passado em duas tangentes: base e esquecimento.
Deve ser encarado SOMENTE dessas duas maneiras ou dificultará a ordem de classificação das coisas. (Chega a ser tão doentio quanto Linnè, meu anjo.)
Se desejar um exemplo prático, veja agora que o SEU passado deve ser esquecido enquanto que o MEU deve ser tido como base para ações futuras e assim é com a maioria das pessoas, de acordo com a classificação deles.
Eu digo a maioria porque ainda há aquelas que fazem do passado a sua eterna morada, apegando-se a velhos hábitos e os ditosos rancores universais, caracteristicos de escolhas mal justificadas.
É, geralmente as pessoas acreditam piamente que erraram em alguma etapa de suas vidas, o que ocasionou um presente incoerente com o que seria tido como aceitável e/ou esperado.
Engraçado como todo mundo tem sede por erros e acertos, precisam de mais essa classificação ou a ordinatoriedade de duas vidas será anulada o suficiente a ponto de gerar o caos.
'Tema o caos. Tema o caos. Temao caos. Temo caos. Temos caos.' é o que ordena/dita o maquinário pensante de suas cabeças errantes. Quase tão fútil quanto decifrar os sonhos alheios. A única pessoa capaz de compreender um sonho ou mesmo uma pretensão é a prórpia pessoa que o sonhou/formulou.
O cenário é muito ambíguo. Tudo é mutante quando se trata de influências.
Toc. Toc. Toc.
Fui interrompido! Ah, como eu detesto ser interrompido!
Seja esta uma interrupção fisiológica ou humana (Não que a fisiologia esteja desvinculada do mundo humano, em absoluto.)
Qual era mesmo a questão? O ponto inicial... O ponto inicial. Inicial. Espacialidade, tempo.
Ah sim, está chovendo. Está chovendo e eu não quero ver ninguém.
Chove enquanto o ator de vinte e poucos anos que não terminou a faculdade enlouquece. Ele confessa-se para o maior anjo do cinema, e está sóbrio, ainda.
Diriam louco por uma atitude totalmente incerta e altruísta. Totalmente.
É outra vez mais uma das arcaicas classificações do sistema de vida que levamos.
As coisas têm de ser recíprocas, sempre. Não podemos dar-nos ao luxo (ou seria melhor escrever tolice?) de alimentar quadros em que não obteremos nenhum resultado. Nenhum resultado lucrativo, digo.
Estamos proibidos de agir, seja de uma maneira insana ou mesmo mecânica no que tange as ações conseqüênciais, se estas ações não irão desencadear qualquer reação em nosso benefício ou em benefício de nossas expectativas e/ou interesses.
Proibidos. Não podemos entregar corpo e alma num relacionamento, seja este substâncial ou intantâneo, afim de simplesmente sairmos ilesos de qualquer espécie de gratidão ou proximidade, sem que alguém julgue o nosso 'orgulho-prórpio' ou até o tal do 'amor-prórpio' (todas essas propriedades adicionais que já conhecemos) condenando-nos ao solitário relento presente nas noites em que 'ela não quer, ela não pode' ou mesmo 'ela não lembra'.
Somos obrigados a ir contra nossos desejos para preservar uma imagem que não nos agrada, não apetece e não acrescenta absolutamente nada ao nosso interior a não ser uma falsa superioridade que não vai servir como BASE e nem deverá acabar no ESQUECIMENTO (Voltamos à classificação do passado) .
Dessa forma, temos de nos privar de amar quando não somos correspondidos e somos incitados a desenvolver um sentimento superficial quando somos amados mas não correspondemos.
Não podemos admitir abertamente que desejamos fazer sexo com alguém que ainda é desconhecido, mesmo sabendo que isso servirá somente como preenchimento nalgumas noites para depois tornar-se mais uma base para comparações pérfidas e então finalmente cair no esquecimento casual do descompromisso.
Caso contrário, há uma censura humana de imoralidade e egoísmo e mesmo falta de caráter e todas essas outras mais particularidades bem como as acima descritas.
Vamos terminar competindo com a tal valorização da personalidade alheia com o propósito de termos a nossa valorização em troca.
O que é tudo isso senão um mantra de proibições e sub-regras que ninguém ditou mas que todos repetem e seguem com afinco?
Por essas e tantas que serei considerado um louco completo ou até maniaco depressivo e retraído compulsivo se o mundo souber abertamente que larguei os últimos anos da faculdade para viver num buraco e corresponder-me com uma morta do cinema.
Não se trata de um fenônemo espiritual ou qualquer outra coisa que o valha. Bem sabes que sou totalmente cético a respeito de tudo isso.
Sim, meu anjo, sou ateu.
Não compreendo como as pessoas conseguem acreditar na vaga idéia de que uma bondade suprema como deus, surgiu antes do homem que é extremamente primitivo e animalescamente selvagem.
É o mesmo que acreditar que algo infinitamente superior como a energia elétrica surgiu tão antes do que é infinitamente inferior como a colher.
Minha relação para contigo, meu anjo, é simplesmente o ir e vir de uma caneta sobre o papel, descrevendo palavras conscientes que serão endereçadas a quem não vai lê-las ou repondê-las da mesma maneira que eu o faria. É irrelevante e desnecessário, compreende?
Não considero-a uma amante ou mesmo uma grande amiga, pois não a conheço de certo. Imagino conhecê-la. Imaginando, atuo como se a conhecesse e acabo por conceber um plano real onde eu a compreendo mais do que todos os outros no mundo.
Como já escrevi, estou aqui, antes porque chovia. Chovia e eu não queria ver ninguém. Agora parou. Parou de chover e eu não quero ver ninguém.
Sabe que, morrer seria demasiado fácil nesse momento. Se bem me lembro, escrevi alguma coisa sobre a morte na última carta... Acho que prometi afastá-la do parapeito se viesse ameaçar-me com tal gesto.
Mas bem, não estou falando da idéia romântica da morte, da privação da vida e todo o resto, do ideal de Goethe para com suas passagem de Werther ou então dos cenários byronescos e toda a pungência de sua poesia, mesmo dos trágicos ideais gregos retrocedidos na obra shakespeariana e nem ainda da didática de Brecht para com o mundo devasso e acinzentado pelo pós-guerra.
Falo da morte artificial, aquela sob a qual estão muitos dos que nos cercam. Uma morte que não precisa ser ensaiada antes de sua encenação, que envolve suas vidas aos nossos olhos.
Suas existências tornam-se lápides de estranhos, encardidas num caminho tortuoso: comtemplamo-nas a distância e tampouco choramos a sua posição.
Completo comodismo.
As pessoas são, mais uma vez em sua maioria, suicidas por classificação. Escrevo 'a maioria' pois somos, por vezes, tão suicidas quanto assassinos em nossas concepções.
Matamos centenas de seres pouco pretenciosos com movimentos rápidos e automáticos.
Eis o principio e mesmo o fim. Não há segredos e não é necessário esperar muito tempo.
Matar codifica morrer e morrer, matar. Não há linha tênue que os diferencie.
Morro para que você viva, mas você não necessariamente vive para que eu morra ou mesmo por conta da minha morte. Como já disse, estamos fora da esfera de reciprocidade que teceram a nossa volta.
Somos auto-destrutivos.
As questões e mesmo os fatóides que nos rodeiam são suaves aspirações humanas, parte integrante da base ou mesmo do esquecimento.
Muda conforme a ordem.
Para mim, não existe loucura enquanto confesso à uma morta, que parou de chover e eu não quero ver ninguém. Bem como quando estava sol, ou quando estava ventando e até quando nevou na semana passada.
Confesso também que vou insistir na obscenidade dos meus atos, pois a imoralidade me assusta tanto quando a diferença entre o bem e o mal ou a ira divina.
Se algum dia perguntarem-me porque escolhi viver assim, devoto à ti, meu anjo, direi que não se trata de mais um ideal burguês.
Escolhi uma morta como companhia porque Nova York é uma ilha. Ninguém quer estar para sempre numa ilha, muito menos com uma única pessoa viva.
Sem contar que, quando saí da Califórnia, você foi tudo o que eu consegui trazer além da bagagem.
Desde que me mudei, sinto-me tão diferente quanto mato e morro sentem-se como verbos ou substantivos.
É só mais um blá blá blá, meu anjo.
Boa noite.
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