Primavera em 1932

Nós costumávamos rir.
Riamos nas noites de sexta feira e esses risos estendiam-se até o domingo á tarde, quando então, sucumbíamos à modorra inevitável sugerida pelos raios de sol amarelado que invadiam o quarto através do vidro da janela e se estendiam sobre a colcha amarrotada sobre a cama. Vez ou outra, raios sorrateiros escapavam pelo espaldar e atingiam o espelho da penteadeira, espalhando fragmentos de seu reflexo pelas paredes e pelo teto.
O teto, fosco de madeira, apresentava marcas já inquestionáveis de umidade, fruto da longa data de sua existência, os cantos escondiam vestígios de outras cores de outras tintas outras vezes utilizadas. Os suspiros aumentavam com o pesar dos olhos bem como o calor, que apesar de tênue desconforto, tornava a sensação de estar ali a única digna de verdadeira importância e atenção.
Estávamos vivos.
Na rua, o dia morria lentamente, tingindo de rosa o azul do céu e de alaranjado as nuvens brancas que adornavam as casas e mesmo as arvores. Tudo era um ponto de vista e a pressão atmosférica tornara-se simples e unicamente um fenômeno físico, cotidiano e barato, para não dizer cretino, que de maneira alguma poderia nos afetar ou atingir.
Nada nos despertaria dali.
Víamos os anos correrem no meio fio sem nunca sentirmos inclinação para erguer um só dedo. nem mesmo os olhos.
O mundo era aquele quarto abafado, as virtudes eram nossos estômagos saciados e os problemas eram meros acasos, pequenos conflitos facilmente resolvidos pelo próprio futuro, ninguém era capaz de compreender.
A vida era uma piada, insana e preguiçosa, contada diversas vezes de muitas maneiras tais que, nunca seríamos capazes de decorá-la, dominá-la ou possuí-la.
Se fizesse frio, tínhamos cobertores. Quando escurecesse, bastaria acender a luz.
Ficaríamos ali eternamente, divertindo-nos com nossos complexos e ambigüidades, banalidades capazes de evidenciarem o riso por horas e horas, pensamentos e planos que nunca seriam concretos, tudo numa única linha de raciocínio que nunca aprendemos como usá-la, nunca souberam ensinar-nos.
Quando acabassem todos eles, quando não houvesse mais jogos para a nossa imaginação desenvolver ou então palavras para nossos lábios pronunciarem, ficaríamos em silencio, ainda a rir baixinho em intervalos pequenos, compenetrados em manter distantes os toques da realidade, o contato que o externo ameaçava fazer, a desmoralização de nossa fortaleza, a descoberta de nosso esconderijo, qualquer coisa ou espécime que tencionasse sabotar a nossa posição, tão serena e invejável, ao mesmo tempo doentia e loquaz.
Adormeceríamos por longo tempo sem nos darmos conta das estações do ano, dos dias semana ou da pungência das horas.
A cidade era um pássaro graciosamente pousado no muro, seu canto abafado ficava cada vez mais longe e as quatro paredes brancas eram o infinito e as expectativas. Os sonhos estavam condensados em nossa respiração e o suor das mãos já não era incômodo, tampouco notável.
Alimentávamos-nos dos erros de português e dos prazos de validade vencidos. Criávamos nosso próprio governo. Escrevíamos nossa própria filosofia.
Éramos felizes e tudo era para sempre.
Foi então que vieram os passos no corredor. Os tacos de madeira ressoando com o peso daqueles pés desconhecidos, o som parecia suplicar.
A maçaneta estralou anunciando o fim de toda a nossa ideologia, uma pane no nosso sistema de segurança interior.

Se bem me lembro, aconteceu uma única coisa quando a porta enfim foi aberta:


nós envelhecemos.

Comentários

Anônimo disse…
Simplesmente fenomenal

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