Cine 52 - Capítulo III


Naquela noite, Carlos não dormiu.

A chuva torrencial ainda estava forte quando os primeiros raios de sol perfuraram a escuridão do quarto.
Eliza respirava profundamente, mergulhada em um sono sem sonhos, fruto do cansaçõ das emoções da noite anterior.
Carlos levantou-se tomando cuidado para não despertá-la, vestiu-se e saiu de casa sem tomar café.
As ruas parcialmente desertas contavam com alguns passos sonolentos que iam e vinham para o trabalho. Carlos desceu a rua até a banca de jornal, constatou que ainda estava fechada.
Não tinha idéia de que horas seriam, mas sabia que não tardaria para o velho senhor dono da banca aparecer com as novas edições da manhã.
Carlos queria estar lá, queria ser o primeiro a procurar em todos os jornais qualquer notícia a respeito do que acontecera, afinal era motivo para primeira página toda aquela confusão.
Quase conseguia adivinhar o que seria, linhas largas com letras grandes: Misterioso Acidente no Cinema, ou qualquer coisas que valesse a intenção.
A chuva apertou, o guarda-chuva pareceu ficar menor. Carlos foi obrigado a correr para baixo da marquise da padaria da esquina para impedir que mais um terno ficasse encharcado.
A padaria abrira há alguns minutos, um cheiro convidativo de café fresco e pães recém -assados o convidou a entrar. Certificou-se que a banca de jornal ainda estava fechada antes de dar as costas ao mundo exterior.
Não comera nada antes de deitar-se, recusara o chá que Eliza preparara e só agora percebia o quanto estava faminto.
Sentou-se sozinho a um canto, esperou a moça do balcão vir atendê-lo.
Cássia era uma moça muito simpática, uma pena que seu rosto não refletisse metade de toda essa simpatia, Carlos não era do tipo que admite isso, mas Cássia era uma mulher pouco apresentável por assim dizendo.
Todas as manhãs aqueles mesmos olhos caídos de aparência sonolenta, o mesmo sorriso amarelo e as sardas no rosto. Os cabelos sempre presos em um nó na nuca.
Resmungou-lhe um bom dia antes de servi-lhe café, pão e manteiga.
Carlos não havia reparado ainda, mas um ou dois clientes já estavam na padaria quando ele entrou.
Tomou seu café com uma tranqüilidade nunca vista enquanto imaginava todas as hipóteses de manchetes possíveis que qualquer jornal poderia apresentar.
Percebeu que demorara demais quando um casal muito falante entrou no estabelecimento, o homem carregando o jornal do dia.
Levantou-se de um salto, deixou o dinheiro sob o copo do café e rumou de volta à banca de jornal agora aberta e contando com a presença do velho homem que a mantinha.

"Bom dia!" disse Carlos ofegante..

-Bom dia meu filho - o homem respondeu com cortesia. Conheciam-se de vista, mas nunca haviam apresentado-se, tais formalidades são dispensadas quando o hábito torna-se uma constante.

- Qual é a da vez? - Carlos perguntou enquanto passava olhos e mãos pelos jornais da banca.

- Pelo jeito nada de muito especial. Um ou dois assaltos grandiosos, o anuncio de outra estréia no cinema e nada mais. Nada de reformas políticas ou qualquer coisa que valha muito a pena se quer saber.

- Não há nada sobre o acidente?

- Acidente?! Mas que acidente?

- O acidente da noite anterior - ele comentou folheando o jornal - Eles estavam lá, estavam todos lá, vários deles... Tiraram até fotos!

- Não sei do que está falando, meu rapaz...

- De toda forma, muito obrigado.

Carlos pagou ao jornaleiro o que devia e voltou para casa bastante frustrado. Pingos de chuva manchavam a impressão da primeira página.
Ao adentrar pela sala, encontrou Eliza já vestida, transferindo algumas coisas da cozinha para a mesa na sala de jantar.

- Bom dia! - Ela disse vindo beijá-lo - Eu não o vi sair... Aonde foi tão cedo?

- Buscar o jornal - Ele respondeu mostrando o bolo de folhas úmidas que carregava.

- Não parou de chover um só instante! Espero que Tia Ângela tenha se lembrado de fechar o telhadinho da lavanderia, ou então termos uma cozinha alagada muito em breve. - Eliza declarou antes de sentar-se à mesa. - Já tomou café?

- Comi qualquer coisa na padaria... Mas ainda estou com fome.

Carlos sentou-se ao lado dela e serviu-se novamente de café, seria preciso muito mais do que cafeína para fazê-lo compreender aquilo.

- Eliza, acredita que não há nada sobre ontem no jornal? Nada! Nenhuma notinha de rodapé ou chamada sobre o assunto... Nada!

Ao ouvir ser mencionado o ocorrido na noite anterior, Eliza derrubou café na toalha.

- Carlos, você precisa ver isso. - Disse ela levantando levemente a saia e deixando á mostra o joelho com o curativo. - Hoje pela manhã senti um incômodo quando me levantei e resolvi trocar o curativo. - Lentamente, era retirou a gaze e o esparadrapo que cobria o ferimento. - Veja.

Carlos levantou-se num sobressalto. O joelho de Eliza que antes exibia uma superfície fortemente esfolada devido ao tombo estava limpo. Limpo de qualquer seqüela ou cicatriz, como se nunca nada ali tivesse estado, absolutamente nada.
Aquilo já era demais. A única prova que tinham para si mesmos à respeito da noite anterior magicamente desaparecera, curara-se milagrosamente da noite para o dia, literalmente.
O olhar que ele lançou-lhe foi penetrante.

- Acho melhor esquecermos tudo isso de uma vez. - Eliza sugeriu enquanto voltava a colocar o curativo como estava antes.

De uma maneira ou de outra, ela estava certa, era o melhor a se fazer já que eles não tinham argumentos sobre aquilo. Tudo indicava que estavam sendo vítimas de um sonho no mínimo maluco.
Foi então que Carlos lembrou-se do jornalista inconveniente que os abordara quando se aproximaram do local do acidente. Júlio... Alguma coisa com G... Não se lembrava direito... Ele dera a Eliza um cartão!
Sim, um cartão com seu nome e telefone. Ele fotografara tudo, com certeza teria alguma explicação, saberia de algo.
O que ela fizera com o cartão? Não conseguia se lembrar. Ela não lhe entregara, talvez tivesse colocado na bolsa... Não, ele não a vira mexer na bolsa.
Ela caíra, ele a ajudara a se levantar, vestira o casaco nela e...

- Onde é que está meu casaco?

- Que casaco?

-Aquele que você estava usando ontem, na hora da chuva.

- O marrom?

- É! O marrom! - Carlos estava impaciente.

- O tintureiro já veio buscar, levou ainda úmido pois não deu tempo de secar de ontem para hoje. Você mesmo pediu para que ele passasse aquilo hoje cedo, não se lembra?

"Merda!" Pensou Carlos. Eliza estava certa, ele pedira ao tintureiro que viesse buscar algumas roupas para reparos, e elas incluíam o maldito casaco.
Não poderia correr o risco de não encontrar mais o cartão, o tal jornalista era a última esperança.

- Você esvaziou os bolsos?

- Do casaco?

- Sim.

- Não, não esvaziei... Parecia não ter nada, tinha algo?

- Sim, acredito que sim.

- De toda forma eles vão encontrar, vão guardar eu espero.

- E se não guardarem?

- Era algo de valor? Dinheiro?

- Não... Era um cartão. O cartão do jornalista, lembra-se?

- Ah, sim... Mas para quê você quer falar com ele? Parecia um rapaz tão desagradável...

- Eliza você não entende?

- Não, Carlos, eu não entendo! Você está se metendo onde não deveria, não percebe? Coisas estranhas demais aconteceram ontem, coisas que não nos dizem respeito!

- Mas você estava lá... Estávamos lá! Nós vimos aquilo tudo... Uma mulher morreu num instante e noutro...

- Já não tinha nada! Assim como meu joelho... Quer parar de pensar nisso? Já aconteceu, entendeu?

- Eu preciso falar com ele, ele estava lá também... Tirou fotos...

Eliza lançou-lhe um olhar preocupado. Por mais que também estivesse um bocado intrigada, a situação era intimidante demais para querer se aventurar por ela.
Se realmente precisassem se envolver, as coisas não andariam daquela forma. Ela tinha em mente que, quando se sabe demais sobre algo as cobranças tendem a ser maiores também.

Na situação em que Eliza se encontrava, era difícil querer ainda mais cobranças.

Comentários

Anônimo disse…
Estou adorando. Aguardo ansiosa os proximos posts!

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