Os terríveis comedores de cabeças

Noite passada tive um sonho aterrorizante.
Sempre que estou doente sou vítima dessas quase alucinações que o sono prega.

Estava andando por uma rua deserta, por volta da hora do almoço, fazia um sol de meio dia e eu estava com fome quando me aproximei de uma casa bastante bonita, onde um grupo de jovens esperava na porta.

Nenhum deles eu conhecia, todos frutos da historinha do meu cérebro. Havia um rapaz loiro que usava óculos, um outro rapaz de cabelos amendoados, um negro, uma garota morena com cabelos bem cheios e uma ruiva com cabelos muito longos. Eles me olharam de uma maneira bastante perturbadora e eu, não sei por que diabos me aproximei.
Foi o rapaz loiro quem falou:

"Você veio para almoçar? Nós acabamos de comer, mas acho que ninguém se importará se tiver que fazê-lo novamente”.

Ele convidou-me a entrar e eu pude sentir ali quase que uma ameaça, portanto, não hesitei em entrar.A casa estava escura e fria, mas não era nenhum pouco assustadora. Era simplesmente uma casa muito grande e bonita que estava fechada desde muito cedo, então, ainda guardava o ar da noite anterior que aparentemente tinha sido fria.
Demos a volta por uma sala bem decorada e pude reparar em alguns quadros na parede.Chegamos até a cozinha, aí as coisas ficaram um pouco assombrosas.
A cozinha era toda revestida com algum tipo de pedra cinza, cujo tom lembrava ardósia, era como um porão ou masmorra de um castelo medieval.
No fogão, havia uma panela bastante grande e ao lado, onde deveria ser a pia, uma montanha de alguma coisa que estava coberta com uma espécie de lençol.
O rapaz loiro de óculos se aproximou da panela, ligou o fogo e começou a esquentar o que havia lá dentro, algo muito parecido com lingüiça e batatas assadas.
Os outros começaram a arrumar a mesa da sala de jantar de uma maneira um bocado religiosa, para não interferir, apenas observei.
Depois que a panela já estava fumegante, todos se aproximaram da grande pilha de não-sei-o-que-lá com pratos na mão.
O rapaz de cabelos amendoados me entregou um prato raso e ficamos aguardando que o loiro de óculos retirasse o lençol que escondia o nosso jantar. (Sim, jantar, pois pelas janelas da cozinha se via uma noite um bocado densa.)Quando este o fez, assustei-me com o que vi:

Era como se ali houvesse mais de 30 cabeças de porco empilhadas uma sobre as outras, todas róseas, pois haviam sido assadas assim, por inteiro.O grupo de jovens estranhos começou a se servir delas, foi quando me aproximei mais e reparei que não eram bem cabeças de porco, mas sim...
Cabeças humanas.

Yeah, baby!

Um grande nó em meu estômago anunciando pânico e pavor quase fez-me vomitar ali mesmo, porém todos me olhavam com grande interesse portanto não o fiz.
A sensação que eu tinha era a de que, se eu negasse comer qualquer coisa, me sairia muito mal.
Tentei de todas as formas, imaginar que fossem realmente cabeças de porco, mas sem chance.
Agora eu já começara a reparar que havia ali rostos dos mais diferentes aspectos: homens gordos, magros, velhos, jovens, mulheres, garotas e crianças!Resolvi que me serviria apenas de um pedaço, daria um jeito de engolir e iria embora em seguida.
Tentei, juro que tentei, mas não sabia como fazer! Optei por cortar o pedaço de uma bochecha de um rosto bastante rechonchudo mas não consegui, eu precisaria pegar uma cabeça inteira. Olhei às minhas costas e vi que todos estavam sentados, servidos com suas cabeças, me aguardando. Foi quando vi o prato do rapaz de cabelos amendoados.
Ele havia se servido da panela, com lingüiça e batatas, alguma coisa que lembrava beterraba e cenoura. Foi com um alívio divino que desisti da bochecha do homem gordo e corri até a panela, onde me servi com aquela lingüiça engordurada e batatas desmanchantes.
Sentei entre o loiro de óculos e a garota morena. Todos começamos a comer em silêncio, eu procurava de todas as formas desviar minha atenção do modo como eles cortavam as cabeças e ingeriam o cérebro, o nariz e afins como se tudo não passasse de frango desossado!
Concentrei-me em meu prato. A carne era fibrosa, dura, mas as batatas estavam gostosas. Foi quando o loiro falou:

"Porque você não pegou a carne humana?”.

Eu gelei, sorri e procurei ser o mais natural possível:

"Porque não estou com tanta fome assim...”.

Então ele franziu a testa:

"Você gosta de tripa?”.

Demorei a entender, fora inocência da minha parte acreditar que aquilo que eu comia era apenas, lingüiça.

"Tripa?" Perguntei.

"Sim..." Ele respondeu. "Isso daí é tripa humana. Só ele consegue comer isso." Ele anunciou e apontou para o rapaz de cabelos amendoados que sorriu.

Bem, digamos que não foi nada agradável ter de engolir o resto daquela falsa linguiça depois dessa, meu deus!

Eu estava preste a ter um colapso de nojo e pavor quando a garota ruiva dos cabelos longos levantou-se e retirou nossos pratos. Fiquei muito satisfeita, agora poderia ir embora, foi quando o loiro de óculos me pegou pelo braço.

"Vamos devolver o que não comemos".

Daí foi uma coisa estranha. O rapaz de cabelos amendoados começou a colocar as cabeças restantes em algumas mochilas e depois distribuiu uma para cada um de nós.

Saímos da casa bonita e rumamos para algo que deveria ser o metrô.
No metrô, andamos uma estação com todas aquelas mochilas cheias de cabeças humanas assadas.
Eu temia por tudo. Temia pelo que eles tinham em mente, temia ser pega pela polícia com todas aquelas cabeças e temia pela minha própria!
Descemos em uma estação deserta e o rapaz de cabelos amendoados juntamente com o rapaz negro (que até então estava fazendo figuração no sonho), abriram uma porta de acesso restrito e eu vi:
Uma dezena de corpos nus sem cabeça.
Tá, até aí normal, mas o mais bizarro era que eles estavam vivos!
Sim, vivos e agonizantes, como peixes que pulam fora d'água.
Começaram a arrastar os corpos para o meio da estação deserta, tomando cuidado para não lerarem um chute ou coisa que o valha, enquanto isso, o loiro de óculos tirava as cabeças das mochilas e as posicionava em fileiras.
A garota morena dos cabelos cheios começou a passar fita adesiva nas cabeças, para ligá-las aos corpos. Eu não sabia como agir! Estava no meio de um bando de psicopatas, não podia me expor a isso, portanto, fingindo ser uma deles, os ajudei.
Tivemos que deduzir quais cabeças eram de quais corpos e as ligamos. Depois, a ruiva de cabelos longos apareceu com um pote de banha de porco e começou a untar as cabeças dos corpos agonizantes. Conforme eram untadas, elas magicamente iam voltando ao normal, como se nunca tivessem estado róseas, prontas para serem servidas como refeição.
Nesse momento, os corpos nus com as cabeças já encaixadas, começaram a dançar uma dança agonizante e o grupo de jovens psicopatas, do qual eu fazia parte, se afastou para assistir à tudo como se fosse um filme.
Os corpos gritavam e se contorciam loucamente, num misto de dor e êxtase.

Foi então que eu acordei...

A TV estava ligada no descanso de tela do DVD, pois peguei no sono enquanto assistia A Noviça Rebelde.

Estava felicíssima comigo mesma! Eis um pesadelo digno... Alguns ajustes temporais, e quem sabe não daria um livro bastante interessante?

Stephen King que se cuide.



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