Pré-potência

Um mar de cabeças a minha frente.

Olhares furtivos, curiosos, mãos entrelaçadas.
Garotas fingindo serem mulheres. Mulheres fingindo serem garotas.
Rapazes solitários que não demonstram preocupação. Rapazes preocupados demonstrando solidão.
Risos, gritos, braços e abraços, truques e confusões.
Bolsas coloridas, pequenas, bonitas, feias, grandes, esquecidas.
Celulares, fones de ouvido, toda aquela sonoridade camuflada combinada com luzes artificiais e ar condicionado.
Um quase antro de depravação, uma extorsão do respeito ao ser humano.
Relógios, horários, problemas, dinheiro, soluções.
Imaginação, indignação, expectativa, dúvida e convicção.
Nomes, renomes. Encontros, desencontros.
Atraso, espera, vozes, cores, pedidos, esperanças.
Comentários obtusos, palavras vazias, colocações mal fundamentadas.
Má interpretação, bons equívocos, mudança de planos.
Sarcasmo, euforia e tédio.
Um contrabando de informações, questionamentos vagos, passagens inocentes, pseudo-intelectualismo.
Reclamações, elogio, galanteio, discussão. Contentamento, decepção, cinismo.
Portas, corredores, figuras e imagens.
O redor compactado no foco. O foco expandindo-se ao redor.
Noite, dia, quente, chuva, frio, cinza. Emoções, sensações, bocejos, fome.
Pernas, calças, saias, sapatos e tênis.
Papéis, documentos, perdas, ganhos, números e palavras. Falsas colocações. Incredulidade e conformismo.
Perda de identidade, espectros interrompidos.

No meu tempo, a fila do cinema era bem menos complexa.

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