Crueldade

“Uma manhã você esquece. Acorda cruel.”
Nicole matutava concentrada nos desenhos que fazia. O novo projeto era o que tomava-lhe a maior parte do tempo, de modo que Beatriz tornara-se um hiato condensado em telefonemas e almoços rápidos onde se resmungava muito e conversava muito pouco. A frieza de Beatriz sempre fora incontestável, mas era também sua maior fraqueza e agora, mostrava-se estranhamente modificada. A indiferença de Nicole assustava-a de maneira quase gritante.
Era como se, aqueles olhos carregassem estampado o maior temor de Beatriz: a auto-suficiência de Nicole. Beatriz não podia suportar a idéia de que Nicole poderia muito bem ser feliz acaso um dia viessem a separar-se. Nicole fora aquela que sempre representara o lado frágil da relação, que sempre carregara a submissão toscamente evidente, e agora passava a perna em Beatriz. A queda era grande.
Naquela manhã, Nicole não tomara café e tampouco almoçara, a confusão em suas entranhas saciava qualquer necessidade fisiológica e anulava qualquer capacidade mental. Como seria? Ela havia feito sexo com um homem, o primeiro homem desde o colegial, desde que conhecera Beatriz. Ela havia feito sexo com o irmão de Beatriz. Ela havia feito sexo com Logan e, pior que isso, havia gostado.


“Acorda cruel e tudo o mais, acorda.”
Continuava a repetir mentalmente na frustrada tentativa de fazer ser real, ou pelo menos sincero. Ela sabia que era verdade, mas também sabia que era impotente.
Torceu os pulsos para afastar a tendinite, esticou as costas para aliviar o desconforto... Ele estava bem longe a essa hora, em qualquer lugar próximo à Inglaterra, com Ana, Nicole sabia.
Não conseguira despedir-se, os seios ainda estavam prazerosamente doloridos ao toque quando ele partiu, os cabelos emaranhados. Fazia um mês. Na verdade, trinta e um dias. Desde então, não recebera notícias, nenhum telefonema.


“Uma manhã, uma manhã qualquer. Você esquece.”
Que é que estava querendo? Que ele ligasse desesperado, implorando por seu amor, implorando pela sua companhia? Era com Logan que estava lidando, já devia estar avisada. Não podia exigir nada dele, em situações normais nunca exigiria. Em que é que estava pensando? Um relacionamento de oito anos completos valia menos do que uma simples noite de entrega?
Levantou-se e andou pela sala inativa, era como se aquilo tudo fosse o cenário de um grande mal entendido, só. Pensou em ligar para Beatriz e contar tudo... Esse tipo de coisa que passa por uma cabeça culpada vez ou outra. É claro que ela não o fez. Para isso tinha autocontrole.
Nicole esperava pela crueldade. Esperava a manhã certa e o momento propício para tudo aquilo desabar. Quando tudo viesse abaixo ela se afastaria com rapidez e agilidade, veria ruir com sutileza, elegância, precisão. Ansiava pelo dia em que veria cada pedacinho de Beatriz esfarelando, ansiava pela atmosfera de agonia que dominaria todos os cantos.
Esperava pela crueldade que acabaria não chegando, afinal era impossível para Nicole, tornar-se ainda mais cruel.

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