Verdade (in)conveniente

Só hoje dei por mim e percebi que eu quase me acostumei à habitual organização que perdurou sobre meu quarto nas últimas semanas.
Há menos de um mês joguei fora quilos e quilos de quinquilharias que estavam superlotando gavetas, prateleiras e cantos escuros.
Praticamente todo ano faço isso, é quase um ritual de purificação se quiser usar um conceito esotérico.
Se preferir um conceito habitual, é uma questão de asseio.
Sou desorganizada por natureza, isso é fato, mas não significa que não sei viver com isso, em absoluto! Vivo muito bem.
Tá, ok. Devo admitir que (talvez) tudo não passe de uma questão de preguiça algumas vezes, mas também é por falta de tempo e até praticidade.
Por mais que tudo pareça estar claro e cristalino, não ouse abrir os armários ou coisa que o valha se não quiser saber de uma verdade tão inconveniente quanto a de Al Gore.
É isso aí.
Acredito que um quarto deve ter, não apenas os pertences pessoais da pessoa que o habita, mas também qualquer coisa na estética que a agrade, que acentue sua personalidade.
Porque não usar-se dessa estética para algo ainda mais útil?
Para mim funciona assim:
Os discos na parede são decorados com fotos bacanas, formando um mosaico de performances.
Atualmente há personalidades do cinema mudo como Pola Negri e Lilian Gish entre outras. Gloria Swanson também está lá.
Houve um tempo onde duas máscaras de gesso ilustravam o símbolo do teatro, bem ao centro do mosaico.
Obviamente não durou muito tempo, já que eu escrevi gesso ali em cima. Sim, gesso é facilmente quebrável, principalmente quando é obrigado a estar no mesmo espaço que eu.
É incrível, tenho uma linha de acerto fantástica para isso. E lá se foram as máscaras.
Foram-se as máscaras, mas ficaram os parafusos. Dois parafusos assimetricamente colocados, ferindo minha parede tão penosamente pintada.
Pendurei uma peruca lá. Até que ficou legal.
Mas enfim, quando é chegada época de ensaio pesado e temporada em cartaz, a parede com os discos de vinis finamente adornados com o mosaico das grandes atrizes silenciosas, transforma-se numa espécie de quadro de avisos.
O mesmo acontece com a televisão. Chega a parecer um fenômeno, juro.
Várias, várias anotações em pedaços de papel de diversos tamanhos colados com fita adesiva por todos os lados (Yeah, fita adesiva!) ilustrando idéias ou afazeres, fica até meio engraçado:

"Dentista quarta feira dez horas"
"Não esquecer a tiara da Capitu!!!"
"Costurar a farda do Bugrelau"
"Comprar outra meia calça"
"Gata em teto de zinco quente - TCM - Terça, duas da manhã”.
"Aniversário do Pedro dia X"
"Gravar as fotos para a Stê"
"Falar para a Rô do tecido engraçado"

Tudo estrategicamente posicionado para não sair do meu campo de visão em hipótese alguma.
Mesmo assim, muitos ficam despercebidos até que, em um momento casual:
"Caralho! Eu tinha consulta marcada semana retrasada!"
E algo assim.

É complicado aprender a dividir sua atenção com todas as anotações mais os inquilinos de praxe:
Pilhas de livros que deveriam ter sido devolvidos aos donos há meses; presentes de natal que (ainda) não foram entregues; um número dramático de DVD's muito queridos que almejam, um dia, estarem em ordem alfabética; uma coleção de baquetas quebradas que lamentam não terem sido identificadas com datas ou coisa que o valha; uma gaita esquecida; milhares de canetas que nunca escreveram; milhares de alfinetes perdidos; rolos de barbante (eu sempre acabo perdendo-os e depois encontrando assim que compro um novo); lanternas que não acendem; uma câmera fotográfica misteriosamente embolorada; caixas, caixinhas, caixotes coloridos, feitos de dobradura e palitos de sorvete por mendigos ou embalagens de presentes, sabonetes e afins; uma porção de brincos que eu nunca vou usar; vários CD's sem nome algum que sonham, algum dia, serem ouvidos e guardados devidamente; cadarços de tênis, muitos, centenas deles; saquinhos transparentes de comida, pequenos objetos; coleções de desenhos começados, rabiscos não terminados, páginas de revistas arrancadas e cadernos de jornais amarelando que eu devo ter guardado por algum motivo que hoje em dia desconheço; uma ou outra carta que precisa ser respondida; fotos para escanear; documentos para guardar; lâmpadas queimadas; uma valiosa coleção de animais de pelúcia inusitados: macacos, sapos, porcos; sapatos e sapatos fora da sapateira; cabides; mochilas cheias de figurinos antigos e amassacrados; perucas, perucas emprestadas; chapéus; lenços coloridos; uma réplica de um crânio humano feita em resina; o cérebro da Fergie encontrado na praia (depois do ‘Planeta Terror’); uma agenda telefônica sem páginas; brinquedos em miniatura, um banheiro que emite sons, o Woody do Toy Story, Pernalonga, Patolino, palhaçadas de lanchonetes; entradas de cinema/teatro/exposição esperando serem catalogadas; programação de mostras de vídeo/fotografia/cinema/teatro de anos anteriores; a coleção de botões de minha avó; guarda-chuva; sombrinha; roupas para lavar; roupas para guardar; roupas para passar; roupas; livros de histórias infantis com gravuras interessantes (por sinal: O Menino do Dedo Verde, O Pequeno Príncipe, Peter Pan, O Mágico de Oz e Alice no País das Maravilhas); um relógio do século XIX que não funciona; um despertador (do Peanuts) do século XX que não funciona; um rádio-relógio do século XXI que não funciona; pilhas descarregadas (muitas delas); baterias (de bichinho virtual) descarregadas; fitas cassete embolorando; uma dúzia de garrafas de vidro, da coca-cola; garrafas vazias de vodka e whiskey (usadas ou não em algum cenário); eventualmente um vaso sanitário (!!!) encontrado em um depósito; abajures que eu não uso; canetinhas coloridas; apontadores de latinha; marcadores de livros (daqueles espíritas); espirais de cadernos antigos; pôsteres de filmes/bandas enrrolados (roubados de locadoras falidas/cinemas distraídos); elásticos; clipes de papel; grampos para grampeador (eu não tenho um grampeador, inclusive); massinha de modelar cheia de cabelos (eca); tintas guache; pincéis sujos de goma laca; cabos adaptadores para amplificador; acetona; garrafinhas PET de chá mate e coca-cola light; almofadas que só atrapalham; maquiagem; linha de costura (e nenhuma agulha); barras de cereal não comidas; ímãs de geladeira; porta-retratos (sem fotos); uma coleção de 'óculos de gatinha' coloridos ganhos em casamentos e festas do gênero; remédios para dor de cabeça; embalagem de termômetro (o aparelho em si já quebrou); carregadores de bateria nunca vistos antes; spray para dor de garganta; meia dúzia de cofrinhos de lata com estampa de personagens (todos vazios, com o cadeado quebrado ou sem as chavinhas); chaves, muitas chaves sabe lá deus de onde ou de quem são; presentes de aniversário que (ainda) não foram trocados; copos, canecas, cujo conteúdo foi ingerido há dias; formigas...
Camadas e camadas de poeira que semanalmente eu procuro tentar eliminar, o velho lance da tal 'limpeza para inglês ver' que sugere: 'NUNCA, em hipótese alguma, mude os objetos de lugar, entendeu?!'.

A questão verdadeira é: nos últimos dias vim conseguindo manter tudo isso em seu lugar, controlando a entrada e a saída de velhas ou novas quinquilharias, contribuindo assim para um ambiente menos sobrecarregado.
Isso já foi milagrosamente excêntrico, um ato que deveria desencadear orgulho extremo da parte dos visitantes do quarto, (infelizmente) ninguém se manifestou.
Agora, isso acabou. Estou até vendo.
Os vestígios de cola nos cantos de televisão voltarão à aparecer e mais uma vez o quarto se inundará de globos flutuantes de poeira e cabelos (como aqueles no velho oeste dos filmes de Faroeste).
Em pouco tempo tudo vai deixar de ser claro e arejado e a janela vai ter de ficar fechada para que o vento não embaralhe as organizadas folhas soltas que habitarão a escrivaninha e espaços vagos.
Aparecerão: mais livros, mais chaves, menos espaço, mais esquecimento, reclamações à parte e enfim...
Voltarei a viver soterrada por minha própria zona, por assim dizendo.

Semana que vem voltam todos os ensaios...
Quando minha mãe fica dizendo que um dia eu vou acabar dormindo no corredor eu solto minha risada de falsete e torço o nariz.
Analisando com franqueza, essa é uma ironia que prefiro dispensar.

Que venha a bagunça, Baby!

Comentários

Anônimo disse…
Adorrrrrrrrrrroooooooooooooooooooo arrumar guarda roupa e essas coisa. se precisar de ajuda, estou a disposição, principalmente pq assim vc para um pouco em casa e consigo te ver e saber de vc!
Beijos my love pitoca!
Picinha

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